O navio subia lentamente as águas amarelas do rio Amazonas com destino a Manaus. Os passageiros já enfastiados de olhar a paisagem monótona da mata e o reflexo do sol na água encontravam diversão em observar as brincadeiras do Carlinhos, o incansável filho de Dona Graziela. Vestido com roupa de marinheiro, sapato de couro e boné, conforme a moda infantil da época, e montado em um velocípedes vermelho o menino não parava de circular no relativamente pequeno espaço do convés. Ele era dotado também de muita simpatia e vivacidade. Moreninho e com um sorriso fácil, que lhe abria sempre duas covinhas nas bochechas, conquistava a amizade de todos.
Graziela desdobrava-se para acompanhar o filho e não via a hora de chegar à capital amazonense, onde descansaria alguns dias na casa do cunhado, o advogado Dr. Virgolino, antes de continuar a viagem para o seringal Bom Lugar, situado na foz do rio Jaminauá - região do Alto Tarauacá - já próximo à fronteira peruana, onde iria encontrar o marido Pedro. Enfim, lá bem perto do fim do mundo! Ela estava saudosa e cansada pois a viagem já se arrastava há muitos dias, desde que partira da sua terra natal, em Fortaleza, onde deixara os outros filhos para estudar.
O buliçoso Carlinhos, com seus quatro anos de idade, conquistara principalmente um grupo de universitários do Rio de Janeiro e de outras grandes cidades, que viajavam buscando sair do Brasil pelas fronteiras da região Norte para fugir à repressão do Estado Novo, modelo de regime neo-fascista que se instalara no País após a revolução de 1930 do Presidente Getúlio Vargas.
Os estudantes conversavam com ele e riam do seu modo infantil de ver a vida. E assim perguntaram-lhe seu nome.
- Meu nome é Carlos.
- Sim. E o restante do nome?
- Eu não posso dizer porque o meu nome é proibido. A minha mãe disse que eu não falasse para ninguém.
A intrigante resposta aguçou-lhes a curiosidade e eles passaram a agradar o garoto, a oferecer-lhe chocolates e outros mimos para que o menino revelasse a razão da proibição.
Finalmente Carlinhos não resistiu à tentação das guloseimas e revelou o segredo que a mãe tanto implorara para que fosse guardado. Então falou.
- Meu nome é Carlos Prestes!
Aquilo provocou uma onda de gritos de alegria e de aplausos por parte dos estudantes. Levantaram o Carlinhos, o "Carlos Prestes"! Gritaram que aquilo provava que o povo brasileiro amava o "cavaleiro da esperança", que na época se tornara o presidente do proscrito Partido Comunista do Brasil.
Porém, a manifestação fora observada atentamente por um homem idoso, de óculos e cavanhaque, um médico, que logo procurou Dona Graziela e de dedo em riste sussurrou-lhe:
- Estes comunistas estão se aproveitando da inocência da criança! Isso é muito perigoso!
Ela ficou aterrorizada com as implicações de um possível envolvimento político, até o seu marido poderia ser comprometido! Mas inicialmente o único preso foi o garoto, recolhido ao camarote até o final da viagem. Os gritos por liberdade do revoltado Carlinhos podiam ser ouvidos por todo o navio e, a quem perguntava por ele, a mãe respondia que estava doente.
Ela sabia da admiração do seu marido pelo homem que comandara a Coluna Prestes, que percorrera todo o Brasil procurando levantar o povo brasileiro contra o regime dos oligarcas paulistas do café, que dirigiam o País. Mas isso acontecera antes do ingresso de Prestes no Partido. Fazer uma homenagem a ele foi a razão do nome posto no menino. Agora, a situação mudara tornando-se muito comprometedora e a mãe pensava em como evitar problemas futuros.
Ao chegar a Manaus, a sua primeira providência foi pedir ao Dr. Virgolino,seu cunhado, para providenciar a mudança de nome do Carlinhos e, alegando um erro do tabelião, o nome foi alterado para Carlos Pedro.
Sensacional esta estória.
ResponderExcluirAmo essa história sobre o nome do meu pai
ResponderExcluir