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sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Pássaro Dourado


Dona Joana, jovem esposa do juiz de direito de Juazeiro do Norte, acompanhou o marido a uma visita ao Pe. Cícero. Lá chegando, foram recebidos pela Beata Mocinha, uma piedosa solteirona que administrava a casa de morada do "Patriarca dos Sertões". Sentaram-se na sala de visitas, um ambiente simples com cadeiras de madeira escura e palhinha trançada e esperaram a chegada do dono da casa.
Aguardando por ele também estava uma rica fazendeira que regressara a pouco de uma viagem à Europa. Pe. Cícero enfim chegou. Já estava muito velho e alquebrado, somente os olhos muito azuis ainda mantinham o brilho da inteligência e do interesse. Da sala podia-se ouvir bem a cantilena monótona de algumas mendigas que repetiam incessantemente no seu linguajar sertanejo: "Meu padim Pade Ciço, uma esmolinha pel'amor de Deus!" (sic) - (Meu padrinho Padre Cícero, uma esmolinha pelo amor de Deus).
 O Padre logo convidou os visitantes para sentarem na calçada, à frente da casa, onde podiam aproveitar um pouco da brisa e fugir ao mormaço abafado da sala. Mudaram-se todos para as cadeiras lá colocadas e começaram a ouvir a ricaça falar da sua viagem. Como a conversa não progredisse muito, a mulher resolveu despedir-se do padre, pediu a sua bênção, e pôs nas mãos do ancião um saquinho com algumas moedas de ouro, "libras esterlinas", como fez bem questão de frisar.
 Imediatamente, o velhinho, que às vezes se cansava da cantoria das mendigas e com elas ralhava pedindo silêncio, desta vez chamou-as, e, na presença de todos, distribuiu uma moeda para cada pedinte. Tia Joana viu o desgosto estampado no rosto da fazendeira. Era como se a sua expressão facial falasse claramente: "Joguei fora minhas ricas moedas de ouro. Ele as deu a essas pobretonas, para quem um copo de farinha de mandioca seria suficiente!" Talvez, pensou Joana, o padre com o seu conhecimento acurado do espírito humano quisesse ensinar uma lição de caridade à soberba mulher!

 A Beata levantou-se e convidou Joana para entrar, deixando o Padre à vontade para conversar com o Juiz. A visitante aceitou de bom grado o convite e ambas dirigiram-se à copa, onde havia uma mesa atoalhada com queijo de coalho, cuscuz, tapioca e um alguidar de coalhada. Enquanto merendava tia Joana surpreendeu-se com a beleza de um pássaro raro que viu numa gaiola próxima. Foi informada que era uma ararajuba, um belíssimo papagaio amarelo e verde, presente de romeiros pobres ao Padre Cícero. Ela não conhecia a ave e ficou admirada com tanta beleza! Terminado o lanche voltaram para a frente da casa onde o juiz já estava encerrando a visita, pois o velho sacerdote fatigava-se rápido.
 Pouco tempo depois de regressarem à casa, Dona Joana e o marido espantaram-se com a chegada de um menino trazendo-lhe um agrado da Beata Mocinha: uma gaiola com a ararajuba que Joana havia visto na casa do Padre! O espanto aumentou quando, no dia seguinte, chegou mais uma ararajuba, desta vez um presente do Dr. Floro Bartolomeu – braço direito do Pe. Cícero para questões administrativas, jurídicas e políticas.
 Esse simples episódio poderia talvez indicar a luta de interesses que se travava entre os grupos que cercavam o velho patriarca. Apesar de todas as falhas e fraquezas humanas, naquele que era um povoado miserável, Padre Cícero deixou plantados os alicerces de uma grande cidade, hoje a pujante e dinâmica Juazeiro do Norte. Para que maior milagre?!
 E as ararajubas da nossa região?! Atualmente estão ameaçadas de extinção devido à cobiça, desmatamento e tráfico de animais silvestres! Essa perseguição à espécie é antiga, já no século XVI foi mencionada pelo jesuíta português Fernão Cardim como "uma ave muito valiosa comercialmente, equivalente ao preço de dois escravos", e era produto de exportação para a Europa, onde era presenteada até para os soberanos. Espero que o próximo milagre seja a salvação desse pássaro nobre, que pelas suas cores e beleza foi até cotado para ser a ave símbolo do Brasil



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