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terça-feira, 28 de maio de 2013

A Mãe

No sertão nordestino o sol descambava enorme e vermelho no horizonte e uma viúva cansada retomava o rumo do seu casebre onde quatro filhos, entre três e onze anos, a esperavam famintos para a primeira e verdadeira refeição do dia. Pela manhã tinham tomado um "xibé" – mistura fraca de farinha de mandioca, rapadura ralada e água – e para jantar ela só conseguira um preá pequeno para misturar com farinha, sal e um pouco de óleo.
Maria do Carmo, conhecida por todos como Carmosa, era o tipo da cabocla cearense com muito sangue indígena, fora um dia considerada uma mulher bonita: morena, olhos escuros, cabelos negros e lisos, corpo bem feito. Agora, depois da morte do marido e com a luta sem tréguas para alimentar os filhos, já no terceiro ano daquela seca terrível, ela era apenas uma sombra do que fora. Estava magra, pele ressecada e com os tendões dos braços e pernas à mostra.

Seu único orgulho era não ter perdido nenhum dos filhos, como já acontecera a quase todas as mulheres das redondezas. A herança dos antepassados índios e o perfeito conhecimento da caatinga - vegetação do semi-árido nordestino -, dos bichos e das plantas a ajudavam na busca de alimento para suas crianças. Mas, ainda havia muitos meses pela frente antes de chegar à esperada temporada das chuvas e ela temia estar perdendo aquela batalha pela vida.

A mulher levantava-se sempre antes do nascer do sol, ia buscar uma lata d'água à cabeça numa cacimba cavada no leito seco do rio, preparava uma refeição leve para a família, punha um bornal às costas e chamava o cão, que atendia pelo nome de "Punaré". Entrava então na mata cinzenta, onde era até difícil encontrar qualquer folha verde, e seguia em busca das armadilhas colocadas na véspera perto das pedras do serrote. Sob o sol escaldante, ela subia e descia morros e grotas, atenta a qualquer sinal de vida. No entanto, o resultado da caça lhe era cada vez mais ingrato, já não conseguia encontrar um tatu ou qualquer animal de maior porte, somente conseguia lagartos e um ou outro pequeno roedor semelhante a um rato. Empenhava-se também em achar tubérculos silvestres e outras plantas comestíveis: juá, jurubeba, batata da macambira ou a fava da espinhenta favela. Mas até isso estava minguando porque a vizinhança inteira também esmerava-se em procurar os escassos alimentos.

Na véspera Carmosa nada apanhara e fora tão difícil chegar em casa e ver os olhos tristes dos meninos e perceber-lhes o silêncio contido. Hoje, seria apenas um pouco melhor do que ontem, afinal o que significava  um preá para dividir por cinco pessoas?! Subiu-lhe um irreprimível sentimento de revolta diante daquela situação intolerável. Afinal ela era mãe e não podia aceitar a morte lenta e previsível dos filhos. Levantou os olhos para o céu, e implorou misericórdia a Deus. É verdade que se achava já meio descrente, pois incomodara tanto ao Criador e ao santo predileto - S. Francisco das Chagas -, entretanto o sofrimento continuava!. Deus certamente, pensava ela, ocupado com tanta miséria no mundo antes deveria atender a pessoas com mais merecimento do que a ela, uma pobre viúva! Porém, mal não havia em rezar e ela, novamente sem ter a quem recorrer, rogou pelas suas crianças.

De cabeça baixa e triste, ela cortou caminho para chegar mais cedo em casa, seguindo por uma trilha pouco usual que passava por trás de um velho sobrado arruinado, com fama de mal-assombrado, e cujos moradores já haviam emigrado para as maravilhosas e longínquas terras do sul. Foi nessa ocasião, ao calcar o solo, que sentiu uma ressonância diferente à pisada de sua chinela e avistou também algumas rachaduras no chão. Carmosa depressa tirou uma pequena enxada do bornal e cavou a terra. Quase não acreditou no que viu: "Mandiocas! E das bem grandes e carnudas, embora já um tanto fibrosas!" Aquilo para ela era um grande milagre! Naquela noite os seus filhos iriam comer e poderiam encher a barriga como há muito não faziam. A seguir espalhou a terra cuidadosamente no local para não deixar sinal algum de escavação humana que denunciasse o "tesouro" que ali se escondia e foi para casa com o bornal cheio, ansiosa por ver os olhos brilhantes e as faces felizes das crianças.

Passaram-se dois dias antes que a viúva voltasse à velha casa em ruínas, situada apenas a oitocentos metros do seu casebre. Nos dois dias que se seguiram, limitou-se a caçar como de costume. Mas notou os olhares curiosos de uma vizinha, que a seguiam atentos e indagadores, também chamou-lhe a atenção uma visita fora de hora que outra mulher fizera à sua casa quando ela estava ausente. Isso denotava que, de algum modo, a suspeita de que ela encontrara comida já se instalara na vizinhança. Talvez a fumaça da chaminé, com força pouco usual, tivesse despertado a dúvida entre os moradores do arraial de que poderia haver alimento cozinhando naquele fogão.

Carmosa sabia que precisava ser muito cautelosa se quisesse manter o segredo da sua fonte de alimento, tão importante para manter a chama da vida acesa nos filhos. Com esse estado de espírito, saiu de casa, rumou para o serrote e deu voltas e mais voltas, enquanto procurava caça e alguma batata silvestre. Era preciso ter muito cuidado, pois um dos vizinhos próximos era rastreador de profissão e já ajudara as volantes da polícia a seguir os rastros de cangaceiros e outros malfeitores acoitados na caatinga, além de ser costumeiramente contratado  pelos fazendeiros para encontrar reses tresmalhadas. Por precaução ela deixara Punaré amarrado em casa para evitar que o cão latisse e denunciasse a sua presença. A mulher andou sobre lajedos, pé ante pé, cuidadosamente, e também subiu em cercas, deslocando-se sobre elas para evitar deixar sinais muito visíveis de sua passagem. Cautelosa, querendo despistar seus eventuais seguidores, somente ao anoitecer chegou ao local das mandiocas e novamente encheu o bornal.

A viúva retirava apenas o necessário para complementar a alimentação da família e os meninos rapidamente melhoraram e recobraram força. O tesouro enterrado foi suficiente para permitir àquela família alcançar o final da grande seca. Chegadas as chuvas, Carmosa plantou com ânimo renovado uma grande roça de milho e feijão e, após a colheita, anunciou aos meninos a sua decisão. A família iria para Fortaleza pois não queria ver seus filhos criados no analfabetismo como ela o fora. Eles iriam estudar, pois queria para eles um futuro diferente, no qual não tivessem que padecer tudo o que ela havia sofrido naquele sertão. E assim foi! Com muito esforço das crianças e o trabalho da mãe como faxineira, cozinheira, lavadeira e o que mais de digno aparecesse, conseguiram melhorar de vida e a mais nova dos irmãos veio a se tornar uma competente enfermeira-chefe da Santa Casa de Misericórdia, centenário hospital da capital cearense.

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