No começo da madrugada de 27 de novembro de 1935, o cabo Ubirajara do Segundo Batalhão de Caçadores encontrava-se de arma na mão, espreitando pela janela que dava para a rua, no quarto do casal de uma residência rica no bairro da Urca, cidade do Rio de Janeiro. Ele não sabia quem eram os donos da casa. Afinal os proprietários, acordados repentinamente no meio do sono pelos tiros, gritos e barulho de vidraças quebradas, fugiram em pânico para salvar a vida, assim como os vizinhos daquele tranquilo bairro burguês. Enquanto eles saíam abandonando casa, documentos e até joias que ficaram espalhadas por cima dos móveis, às vezes cruzando-se quando desciam as escadas com os soldados que subiam para ocupar as posições de combate nos seus próprios aposentos.
Bira, como o cabo era conhecido, fôra acordado na sua unidade militar e colocado em um ônibus da frota da Light, companhia de abastecimento elétrico, requisitado pelo comando do exército para transportar a tropa legalista que deveria abafar a rebelião que explodira no quartel do Forte da Praia Vermelha, que abrigava o Terceiro Regimento de Infantaria (3º RI) com1600 praças e 100 oficiais.
Naquele quartel, pouco antes da meia-noite, o prisioneiro Capitão Agildo Barata fôra libertado por seus camaradas, membros de uma célula comunista infiltrada no forte, e, segundo revelou posteriormente, sublevara a guarnição cumprindo ordens de Luís Carlos Prestes, como parte de um plano de Moscou para implantar no Brasil um governo popular nacional revolucionário.
Os amotinados após violenta refrega conseguiram dominar quase toda a unidade, exceto um pequeno núcleo no pavilhão de comando que continuou a resistir. A imprensa divulgou nos dias seguintes que alguns oficiais que se opunham aos comunistas teriam sido mortos ainda dormindo. Diante da oposição ferrenha dos rebelados o comando militar iniciou um cerco ao quartel, bombardeado por terra, mar e ar. Baterias de obuses foram colocadas no terreno do Fluminense Yacht Club e na Avenida Pasteur, em frente à Faculdade de Medicina. Bombas incendiárias caíram sobre a cúpula do quartel e o fogo lentamente avançou pelas alas esquerda e direita do edifício.
Os períodos de intensa fuzilaria e de calmaria alternavam-se e Bira, quando a situação serenava, pensava no destino que o fizera abandonar a sua vida tranquila como estudante da Faculdade de Direito de Fortaleza ou prazeirosa como atleta praticante de natação nas praias Formosa e de Iracema. Relembrou também com saudade os pais, proprietários de seringais no Alto Tarauacá, Território do Acre, fronteira peruana, morando há milhares de quilômetros dali.
Nascera rico e fôra educado juntamente com a irmã pela tia Luzia, mulher forte, que enviuvara cedo e assumira o encargo de educar as crianças da sua sobrinha Graziela. Entretanto, a queda da cotação da borracha, em virtude da entrada no mercado da produção da Malásia, mudou totalmente a situação, antes tão tranquila. Com a falta de dinheiro, os irmãos mais novos foram chamados de volta para o Acre, enquanto Bira deveria continuar os estudos na capital cearense. Mas sem poder se manter, nem tendo conseguido qualquer trabalho que garantisse a sua manutenção, o jovem desorientou-se. Resolveu vender o piano da família a fim de custear uma viagem para o Rio de Janeiro, onde pretendia fazer um concurso para entrar na carreira de oficial da Força Aérea. Era um jogo arriscado!
Embarcou em um navio e chegou à então Capital Federal. Infelizmente, as coisas não lhe saíram bem e Bira não conseguiu o sonhado ingresso na Aeronáutica. O dinheiro logo acabou! Chegou a passar fome e a se alimentar quase que somente com frutas de fim de feira, compradas a baixo preço no mercado. Foi o alimento mais saudável e barato que encontrou. Finalmente, diante da falta de opções, resolveu ingressar no Exército como soldado raso. Ali, a condição destacada de estudante universitário, que a princípio tentou esconder dos companheiros de armas, logo foi descoberta e provocou inveja nos seus superiores imediatos, cabos e sargentos semi-analfabetos, sendo logo por eles alcunhado de “doutor”. Havia um velho cabo que contra ele se encarniçava de um modo especial e, sempre que estava de serviço, com sarcasmo chamava o soldado Bira:
_ Oh "doutor"! Venha cá! Pegue essa “caneta” e vamos fazer uma lição.
Passava-lhe então uma vassoura e o mandava limpar a enorme série de banheiros e sanitários do quartel. Ao jovem soldado, com apenas vinte e dois anos de idade e educação refinada, só restava engolir a raiva e ir fazer o que lhe era ordenado. Porém, a sua capacidade intelectual logo o fez destacar-se no meio militar, sendo em pouco tempo promovido a cabo. E foi com essa patente militar que ele se encontrava ali, participando do cerco ao quartel da Praia Vermelha.
Ubirajara sabia que tinha que inverter o rumo da sua vida, precisava finalizar o curso de Direito e ganhar dinheiro para manter-se e poder ajudar a família. Já soubera que seu pai fôra picado por uma serpente venenosa da mata amazônica, a terrível surucucu, e que desde então por efeito do veneno, pouco a pouco, começara a ficar paralítico. Pedro Virgolino precisava de cuidados especiais e cabia a ele, o filho mais velho, tomar providências. Muita responsabilidade recaía sobre si.
Mas um movimento furtivo chamou-lhe a atenção e o fez abandonar os pensamentos sobre sua vida e família. Observou que três soldados vindos do quartel aproximavam-se cautelosamente da sua posição. Bira apontou a arma e mirou, decidido a atirar. Contudo, resolveu aguardar um pouco para captar suas intenções e aquele momento de espera foi providencial. Os homens baixaram as armas ao chão e levantaram os braços em sinal de rendição. Ele nunca esqueceu daquele momento, no qual esteve tão perto de matar alguém a sangue frio.
Por volta de onze horas da manhã, cinco aviões Corsário de reconhecimento fizeram fogo sobre o forte em chamas e foram também alvejados. Mas o drama estava chegando ao fim e, a uma e trinta da tarde, a unidade rebelada rendeu-se com os amotinados balançando lençóis brancos nas janelas.
Ubirajara voltou ao seu quartel e pouco depois teve a alegria de receber uma carta da sua irmã, que casara com um promissor homem público. Nela, foi informado que ele iria passar para a reserva e poderia retornar ao Ceará para concluir seu curso universitário. Enfim, uma nova página da vida do recém-promovido Sargento Ubirajara estava se abrindo. Ele deu adeus ao Rio de Janeiro e jamais voltou à "cidade maravilhosa"!
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