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quarta-feira, 22 de maio de 2024

A Menina do Sertão

Ontem a nossa família que reside em Fortaleza foi reunir-se no apartamento de minha mãe, no bairro do Meireles, para homenagear a matriarca que completou noventa e sete anos de idade. Em torno da mesa estavam filhos, netos e bisnetos. Faltava ela, pois acamada já não podia participar de maneira ativa desse tipo de encontro.
Vivi momentos  de sentimentos cruzados, em primeiros lugar a satisfação por ter ainda viva a nossa mãe, esteio de uma família, mas saudade do tempo em que podia ouvir a sua voz lúcida e clarividente e receber os seus conselhos sábios. Ah! mamãe! Fizemos uma viagem mental a 1920, para uma grande casa de fazenda no alto sertão cearense - a Fazenda Traviata. Ali, numa antiga família de origem luso-holandesa com 22 irmãos nasceu Ana, que recebeu o codinome de Lola e assim por todos ficou conhecida.
Hoje, nossa mãe deixou-nos definitivamente e partiu para a vida eterna. Nesse momento de ausência e dor a nossa satisfação é que ela faleceu em sua casa, cercada de carinho, de cuidados e orações. Sempre achei horrível a morte moderna nas unidades de terapia intensiva, em que a pessoa no momento mais crítico de sua vida fica isolada de todos os que a amam, cheia de tubos, muitas vezes sem poder expressar suas últimas palavras e cuidada por pessoas estranhas. 
Mamãe muito obrigado por tudo. Saudades!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A Casa na Serra



                                                                         
                                                                               
Em 2005, durante uma consulta ao dentista,  o meu amigo Dr. João Paulo Holanda indagou-me se não gostaríamos de possuir um sítio na serra de Guaramiranga. Fiquei surpreso, afinal quem não apreciaria esse regalo?! Respondi-lhe prontamente que sim, mas que tal oportunidade nunca surgira, afinal essas terras serranas eram muito procuradas, o preço era proibitivo e quem tinha ali uma propriedade dificilmente queria dela se desfazer.

Adiantou-me, então, que a ocasião chegara pois sua sogra, a médica Dra. Yara Sidrim, estava interessada em vender o seu sítio no município de Pacoti, pois resolvera priorizar uma fazenda de gado que possuía nos sertões dos Inhamuns. Cabia então a mim dar o primeiro passo, ou seja, visitar o sítio que tinha a extensão de sete hectares a uma altitude situada entre 820 e 900 metros. Juntamente com o Bira, meu irmão mais novo, partimos para Pacoti, município situado dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA), um dos últimos trechos de mata atlântica ainda preservada no Ceará.

Lá chegamos e foi amor a primeira vista, embora a única construção então existente no sítio fosse uma pequena e deteriorada casa de caseiro. Enfim, havia muito a ser feito! Mas a paisagem era belíssima, além de uma pequena plantação de café e banana havia algumas mangueiras antigas e jaqueiras. Porém, a maior parte do terreno era constituída pela mata nativa. A cada visita que fazíamos ficávamos extasiados pelo canto dos pássaros, o ar puro, a temperatura suave que contrastava com o calor do litoral e finalmente pelo cheiro do mato verde. Sempre havia alguma novidade a descobrir, desde as diferentes flores até os berros roucos  e alarmados das raposas no cio. A hora de partir era o momento da tristeza pois não tínhamos a possibilidade de dormir no local.

Passados poucos meses, chegamos à conclusão de que precisávamos tomar uma decisão: vendíamos o sítio ou enfrentávamos as dificuldades para construir uma casa. No entanto a serra já nos conquistara totalmente e a construção era a única opção que nos restava. A primeira dificuldade consistia nas exigências dos órgãos de proteção ambiental que eram muitas e complexas, mas encaramos o desafio, demos entrada no pedido de licença para construir e fomos à luta. Eu não contei as vezes em que fui à Secretaria do Meio Ambiente somente para saber que o nosso processo na sua caminhada burocrática apenas mudara de uma sala para outra. Foram dois anos de espera, mas pouco antes de haver uma proibição geral para novas construções na APA, minha mãe, Don'Ana,  recebeu a esperada autorização para construir a nossa casa.

Havia vários passos a serem dados antes de começarmos a levantar as paredes da casa e o primeiro deles foi a construção de um pavimento na estrada pois quando chovia a ladeira virava uma superfície muito escorregadia, um autêntico sabão, e os carros deslizavam descontrolados pela argila molhada. Tivemos que construir trezentos metros de revestimento de pedra para a estrada, coisa que a Prefeitura de Pacoti prometia fazer a vinte anos e ficava só na promessa. Depois foi preciso levar eletricidade até a fonte e bombear a água por meio de tubulações até o local da construção. Isso foram apenas as ações preliminares, outra providência foi, para evitar o risco de deslizamentos, retirar uma parte da plantação de bananeiras que ficava numa ladeira íngreme abaixo da casa e plantar árvores nativas como ipês roxos e amarelos, acácias rosa, aroeira e algumas outras espécies nativas. Elas já estão florescendo e prometem mais beleza para o entorno da morada!

Depois de escolher uma arquiteta amiga, professora da Universidade de Fortaleza, começamos o esforço da construção da casa. Face ao desnível do terreno, ela fez uma planta que se adaptou bem em três níveis: garagem, varanda com sala de estar e finalmente cozinha. Posso dizer meus amigos, que realmente  não foi fácil, durante oito meses não tivemos nenhum fim de semana com folga, todo o tempo livre era utilizado  para fazer compras e subirmos a serra levando material. Foi cansativo mas valeu a pena!

 Hoje temos um lugar tranquilo e bonito para nos retirar e gozar do silêncio,  da beleza da mata e do canto dos pássaros, alguns deles de belíssima penugem como o "saí azul" de tonalidade verde azulada e o "uirapuru laranja" (pipra fasciicauda) que faz parte de uma sub-espécie ameaçada que naquela mata têm seu último refúgio e também serviu para dar nome à região: Guaramiranga - pássaro vermelho em tupi-guarani. Ali podemos receber os amigos gaúchos e comer um churrasco debaixo das árvores. Nós, que somos da terra do sol, onde a luminosidade e o calor às vezes são excessivos, podemos também gozar da suavidade de uma manhã de nevoeiro, das noites estreladas, do resplendor do luar e o friozinho da madrugada
                                         
                                        
                                

Alguns dos nossos sobrinhos de Brasília muitas vezes sobem a serra para o sítio que batizamos de São Pedro dos Freires, ali podem parar e descansar a cabeça dos árduos estudos e das lutas profissionais. Mas além do descanso temos também os passeios pelas trilhas na mata, banhos de cachoeiras, descidas desembaladas numa tirolesa e passeio de pedalinho no belo lago de Pacoti. Outra opção é a ida noturna à pequenina cidade de Guaramiranga, onde há bons restaurantes, festivais de teatro, música ao vivo na praça, enquanto se toma um chocolate quente ou um bom vinho e aprecia-se a gente bonita que passeia pelo local. Enfim, valeu a pena o esforço gasto na aquisição e construção do nosso sítio. Até primos e tios que moram longe, lá na outra ponta do Brasil, no Acre, têm tido oportunidade de ir ao São Pedro e conviver conosco em temporadas que não dão para esquecer. Tio Carlos e a saudosa tia Mimi estiveram por lá e nos deixaram tantas saudades, mas com certeza um pouco da sua serenidade e alegria ficou conosco!

                                                                              
Uirapuru-Laranja (foto de Ciro Albano)
Foto de Pedro Falcão.
Saí-Azul - (Foto de Raul Carneiro)
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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Maria Stela Bezerra

Maria Stela Bezerra.




Numa noite do último mês de junho acordei com o toque do telefone e fiquei surpreso ao ouvir a voz da Maristela, uma grande amiga que não via há alguns anos. Com sua voz clara e lúcida a anciã disse-me que estava sem sono e que ao abrir a agenda telefônica deparara com os nomes de tantos amigos distantes, a saudade havia chegado, vindo então uma vontade forte de falar com todos eles. Por isso ela estava a me ligar. Fiquei deveras comovido e com vontade de revê-la.
No outro dia fui à casa dos primos filhos da Maria José Câncio e convidei a Telma e o Fernando para irmos lá fazer-lhe uma visita. Marcamos logo o dia e partimos para a Independência, há mais de trezentos quilômetros de Fortaleza. Ao chegarmos na pequena cidade fomos à sua casa e tivemos uma recepção alegre e calorosa que nos aqueceu a alma. Saímos de lá revigorados pela aura de bondade e luz daquela grande amiga.
Hoje, passados apenas dois meses, recebi a notícia da sua partida definitiva. Confesso que me senti abalado, lembrei-me daquele telefonema, naquela ocasião cheguei a pensar que a Maristela poderia estar se despedindo das pessoas queridas. Resolvi publicar então a nota de seu falecimento no meu blog para que amigos e parentes tomassem conhecimento da passagem de alguém que honrou o seu povo, a sua Igreja e a sua família e que deixou um vazio no coração dos seus amigos.
Nota de falecimento de dona Maria Stela Bezerra.
MARIA STELA BEZERRA - UMA VIDA DEDICADA À EDUCAÇÃO
Personalidade do Ano - 2009

É com enorme pesar que comunicamos o falecimento de dona Maria Stela Bezerra, 96 anos, ocorrido hoje, na tarde do dia 13 de agosto.

Conheça a história dessa educadora e ser humano maravilhoso.
Maria Stela Bezerra Pereira nasceu no dia 18 de novembro de 1918, em Independência/CE, era filha do casal Francisco Pereira Chagas e Isabel Rodrigues de Melo, foi a primeira de nove irmãos. Sua vida sempre foi direcionada dentro dos ensinamentos da Igreja Católica e foi aluna de outra grande professora, Maria Júlia Fialho, aos 16 anos ingressou no magistério fazendo um concurso público.

Começou a lecionar em escolas rurais na Fazenda Floresta e na Cachoeirinha do Pai Senhor, em Tauá, às vezes fazia o trajeto montada em cavalo, eram tempos difíceis mas nunca desistiu de lecionar. Em 18 de agosto de 1965 aposentou-se do magistério, porém continuou a ensinar no Ginásio Santana.

Maria Stela Bezerra Pereira nunca casou, dedicando-se integralmente ao ensino, aos irmãos e às atividades sociais, como educadora contribuiu para a alfabetização em nosso município. Em 2009 foi eleita a Personalidade do Ano, recebendo o “Prêmio Saci – 2009”, através da ONG História Viva. O Prêmio tem por objetivo agraciar personalidades que se destaca, nas áreas da Educação, Judiciária, Empresarial, Política, Jornalística, Esporte e outras áreas.

A ONG História Viva tem orgulho de homenagear a educadora Maria Stela:  heroína, guerreira e batalhadora. Um belo exemplo de vida para todos e especificamente para os educadores.
Fonte: ONG História Viva.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Varanda



                                                                            



O sítio está mergulhado no silêncio. A cozinheira já terminou de limpar a cozinha e conversa baixinho com outros empregados, sentados à sombra das mangueiras. São duas majestosas mangueiras que cobrem de sombra o oitão oeste da casa. Não se sabe ao certo a idades das mangueiras do sítio, mas Seo Zé Paulino, o antigo proprietário, que beira os noventa, conta que quando criança já brincava embaixo dessas velhas árvores e garante que elas já eram desse porte.

Do lado nascente, Don'Ana dorme na varanda em sua rede cor-de-rosa. Mais parece um hibisco que abriga em seu seio uma abelhinha, ou quem sabe uma abelha rainha. É... talvez seja mesmo uma abelha rainha, que cansada de sua labuta dorme mansamente. Todos no sítio sabem que é um sono curto, muito leve, e que é preciso parar toda atividade para que ela consiga dormir. É nessa hora meridiana, a hora da sesta, que o sítio revela toda a sua essência, a sua capacidade regeneradora das energias perdidas.

Parece que se volta à infância e que a varanda não é mais a varanda, e sim o alpendre; o sítio não é mais a Quinta do Pomar, mas a Fazenda Traviata, onde Don'Ana nasceu e onde o descanso depois do almoço era uma lei. Quem conheceu a Traviata, nos seus áureos tempos, no tempo do Major Horácio Falcão e da Dona Selvina, sabe que lá, como na Quinta do Pomar, a vida parecia mais leve. Não é por acaso que os hóspedes do sítio, geralmente pessoas da família ou amigos de infância da dona da casa, fazem esse paralelo transpondo a distância temporal de dezenas de anos entre a Traviata e a Quinta do Pomar.

As lembranças afluem ou são evocadas nas embaladas conversas da varanda, onde cada balanço de rede, cada rangido de armador reforça esse clima de recordação. O sofá de cipó-de-fogo, de almofadas floridas, bem ao gosto de Don'Ana e com almofadas apenas nos acentos (para não aquecer as costas), permanece desprezado, reduzido a simples objeto de decoração. O que todos preferem é o suave balanço das redes, num vai-e-vem constante.

É também nesse ritmo que é rezado o terço do rosário, que Don'Ana puxa a cada noite, na varanda, em companhia dos, eventuais hóspedes e empregados. É um terço longo, com todos os mistérios encomendados e oferecidos na intenção de alguém ou de alguma causa. Ora são os netos que precisam ser aprovados no exame vestibular para a universidade, ora é a saúde de um membro da família que não anda bem. Por vezes , é a notícia de alguma desavença entre entes queridos, que a faz pedir que a paz e a harmonia voltem a reinar na família. Don'Ana pede com as mãos levantadas para o alto.

Nesses momentos, impressiona a sua fé. Parece que ela está em sintonia direta com Deus. Pede pelos que já morreram, e que não são poucos, e pelos que estão vivos. E pede saúde, pois ainda tem muita vontade de viver, de festejar com imensa alegria cada bisneto que nasce, de fazer planos e comemorar com festas as datas importantes. Don'Ana é assim! Uma mulher de muita fé e que aos oitenta e três anos (quase oitenta e quatro!), revela uma imensa confiança de que Deus continua a ouvi-la.

Este texto foi escrito pela minha irmã Izabel onze anos atrás e como costuma ocorrer na vida as coisas mudam. Algumas amigas queridas como a Hosana Pires e sua irmã Rosa que sempre nos visitavam já faleceram, também a centenária tia Marita e a prima-irmã Maria José Câncio, e minha mãe acometida por um acidente cárdio-vascular foi morar no apartamento da família para melhor receber auxílio médico, em  Fortaleza. Entretanto, três de seus filhos continuam a morar na Quinta do Pomar, mantendo a tradição de hospitalidade da sua velha mãe e não há um só dia em que a sua lembrança não se torne de algum modo presente.


                                                                                                                                                                             

sábado, 27 de dezembro de 2014

Ponto de Vista: O Reencontro

Ponto de Vista: O Reencontro: Pouco antes do meu último aniversário, enquanto passeava pelo Shopping Iguatemi e aproveitava para adquirir um novo livro, deparei-me com...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Brincadeira de Criança

        

                             Igreja de Nossa Senhora do Ó - Icó, Ceará, Brasil.

Nos anos cinquenta do século passado, durante uma severa seca que atingiu o Ceará, vivia meus dias de infância despreocupadamente na fazenda dos meus avós no alto sertão. Nessa época a sede da comarca estava cheia de pessoas famintas, “os retirantes”, famílias inteiras que procuravam desesperadamente algum trabalho, alimento, ou pelo menos o dinheiro suficiente para uma passagem do trem que partia de Crateús e chegaria às terras molhadas e longínquas do Maranhão.

Durante esse período eu e meus irmãos conhecemos a Chaguinha, nome pelo qual era conhecida a Maria das Chagas, menina morena e raquítica e que iria se tornar a nossa irmã de criação. Ela entrou na nossa vida quando a minha mãe soube que uma criança estava sendo oferecida à venda na feira pelos seus próprios pais em troca de uma cabra e um saco de farinha de mandioca. Contristada, Dona Lola foi conversar com o casal e eles disseram que tinham muitos filhos passando fome e a menina estava doente do pulmão, sem remédio e alimentação adequada não iria resistir até que conseguissem sair da nossa região. Pediram a ajuda dos meus pais e eles concordaram em ficar com a criança até o retorno daquela família  quando voltasse a chover no sertão. Minha mãe ajudou com o dinheiro da passagem e aquelas pessoas perderam-se no mundo, sem que deles tivéssemos mais notícia por muitos anos.
No ano seguinte meu pai foi transferido para uma cidade no centro-sul do estado, bem longe do nosso municipio. Fôramos morar em Icó, uma antiga cidade colonial de ruas estreitas, cheia de velhas construções, sobradões dos antigos barões do tempo da monarquia e igrejas centenárias do estilo barroco luso-brasileiro. Nossa casa era um casarão de dois andares na Rua Grande, próxima à igreja de Nossa Senhora do Ó, e Chaguinha era a nossa companheira inseparável de travessuras. Amávamos ouvir as histórias saídas daquela imaginação fértil!
No Icó, a energia elétrica só perdurava por duas horas após a caída da noite. Depois a cidade ficava totalmente às escuras e as pessoas recolhiam-se cedo às suas casas. Pois bem, numa dessas noites em que nossos pais haviam saído para uma visita ou outro qualquer compromisso social nós ficamos enfastiados em casa sem ter o que fazer. Naquele tempo não havia televisão ou mesmo rádio para ajudar a passar o tempo. Então Chaguinha teve a ideia original de sairmos para brincar na rua escura.
Ela colocou às costas uma grande pele de onça pintada que servia de tapete no gabinete de trabalho do meu pai, fôra um presente do tio Falcão – militar em Mato Grosso -. Animada a menina mais velha disse para nós:
- Sou uma onça feroz e vou matar vocês, tratem de correr para salvar a vida!

Que aventura! Saímos todos à rua perseguidos por ela em desabalada corrida pela escuridão, em direção à Rua Larga, e rodeamos a igreja da padroeira. Ocorreu então algo muito estranho e assustador! Parecia que o mundo inteiro vinha abaixo! Todos os cães das redondezas começaram a ladrar, uivar e a correr na rua escura. O alarido era impressionante! O nosso medo aumentou e aí corríamos mais depressa sem entender o que se passava com os animais. As poucas casas em que se entrevia a luz das lamparinas nas janelas foram rapidamente fechadas pelos moradores alarmados pelo barulho. Aquilo tornou o ambiente ainda mais sombrio, pensamos então que algo poderia estar nos perseguindo. Passamos pela velha cadeia da cidade e seguimos até o Teatro da Ribeira dos Icós  e tratamos de regressar o mais depressa que podíamos. Chegamos exaustos em casa. Subimos para o andar de cima e logo Chaguinha nos fez prometer que não contaríamos nada aos nossos pais.

No outro dia soubemos da repercussão na cidade sobre alguma coisa que correra na escuridão da noite e provocara tanto pânico entre os cães, os quais procuraram refúgio no interior das casas, ganindo, a urinarem e a liberarem os esfíncteres, sujando tapetes e salas de visitas das velhas casas senhoriais.
Nós, mudos e temerosos de uma possível represália dos nossos pais, ouvíamos as especulações sobre um lobisomem, louco ou animal selvagem que perseguira crianças e cães. Somente nós sabíamos a verdade! Que o cheiro da pele da onça, predadora e inimiga ancestral dos cães, fora o causador de toda aquela confusão. Mas era hora de manter o bico calado. Nunca esquecemos aquela aventura e, hoje, o episódio é motivo de risadas quando nos encontramos para falar da infância!