Em 2005, durante uma consulta ao dentista, o meu amigo Dr. João Paulo Holanda indagou-me se não gostaríamos de possuir um sítio na serra de Guaramiranga. Fiquei surpreso, afinal quem não apreciaria esse regalo?! Respondi-lhe prontamente que sim, mas que tal oportunidade nunca surgira, afinal essas terras serranas eram muito procuradas, o preço era proibitivo e quem tinha ali uma propriedade dificilmente queria dela se desfazer.
Adiantou-me, então, que a ocasião chegara pois sua sogra, a médica Dra. Yara Sidrim, estava interessada em vender o seu sítio no município de Pacoti, pois resolvera priorizar uma fazenda de gado que possuía nos sertões dos Inhamuns. Cabia então a mim dar o primeiro passo, ou seja, visitar o sítio que tinha a extensão de sete hectares a uma altitude situada entre 820 e 900 metros. Juntamente com o Bira, meu irmão mais novo, partimos para Pacoti, município situado dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA), um dos últimos trechos de mata atlântica ainda preservada no Ceará.
Lá chegamos e foi amor a primeira vista, embora a única construção então existente no sítio fosse uma pequena e deteriorada casa de caseiro. Enfim, havia muito a ser feito! Mas a paisagem era belíssima, além de uma pequena plantação de café e banana havia algumas mangueiras antigas e jaqueiras. Porém, a maior parte do terreno era constituída pela mata nativa. A cada visita que fazíamos ficávamos extasiados pelo canto dos pássaros, o ar puro, a temperatura suave que contrastava com o calor do litoral e finalmente pelo cheiro do mato verde. Sempre havia alguma novidade a descobrir, desde as diferentes flores até os berros roucos e alarmados das raposas no cio. A hora de partir era o momento da tristeza pois não tínhamos a possibilidade de dormir no local.
Passados poucos meses, chegamos à conclusão de que precisávamos tomar uma decisão: vendíamos o sítio ou enfrentávamos as dificuldades para construir uma casa. No entanto a serra já nos conquistara totalmente e a construção era a única opção que nos restava. A primeira dificuldade consistia nas exigências dos órgãos de proteção ambiental que eram muitas e complexas, mas encaramos o desafio, demos entrada no pedido de licença para construir e fomos à luta. Eu não contei as vezes em que fui à Secretaria do Meio Ambiente somente para saber que o nosso processo na sua caminhada burocrática apenas mudara de uma sala para outra. Foram dois anos de espera, mas pouco antes de haver uma proibição geral para novas construções na APA, minha mãe, Don'Ana, recebeu a esperada autorização para construir a nossa casa.
Havia vários passos a serem dados antes de começarmos a levantar as paredes da casa e o primeiro deles foi a construção de um pavimento na estrada pois quando chovia a ladeira virava uma superfície muito escorregadia, um autêntico sabão, e os carros deslizavam descontrolados pela argila molhada. Tivemos que construir trezentos metros de revestimento de pedra para a estrada, coisa que a Prefeitura de Pacoti prometia fazer a vinte anos e ficava só na promessa. Depois foi preciso levar eletricidade até a fonte e bombear a água por meio de tubulações até o local da construção. Isso foram apenas as ações preliminares, outra providência foi, para evitar o risco de deslizamentos, retirar uma parte da plantação de bananeiras que ficava numa ladeira íngreme abaixo da casa e plantar árvores nativas como ipês roxos e amarelos, acácias rosa, aroeira e algumas outras espécies nativas. Elas já estão florescendo e prometem mais beleza para o entorno da morada!
Depois de escolher uma arquiteta amiga, professora da Universidade de Fortaleza, começamos o esforço da construção da casa. Face ao desnível do terreno, ela fez uma planta que se adaptou bem em três níveis: garagem, varanda com sala de estar e finalmente cozinha. Posso dizer meus amigos, que realmente não foi fácil, durante oito meses não tivemos nenhum fim de semana com folga, todo o tempo livre era utilizado para fazer compras e subirmos a serra levando material. Foi cansativo mas valeu a pena!
Hoje temos um lugar tranquilo e bonito para nos retirar e gozar do silêncio, da beleza da mata e do canto dos pássaros, alguns deles de belíssima penugem como o "saí azul" de tonalidade verde azulada e o "uirapuru laranja" (pipra fasciicauda) que faz parte de uma sub-espécie ameaçada que naquela mata têm seu último refúgio e também serviu para dar nome à região: Guaramiranga - pássaro vermelho em tupi-guarani. Ali podemos receber os amigos gaúchos e comer um churrasco debaixo das árvores. Nós, que somos da terra do sol, onde a luminosidade e o calor às vezes são excessivos, podemos também gozar da suavidade de uma manhã de nevoeiro, das noites estreladas, do resplendor do luar e o friozinho da madrugada
Hoje temos um lugar tranquilo e bonito para nos retirar e gozar do silêncio, da beleza da mata e do canto dos pássaros, alguns deles de belíssima penugem como o "saí azul" de tonalidade verde azulada e o "uirapuru laranja" (pipra fasciicauda) que faz parte de uma sub-espécie ameaçada que naquela mata têm seu último refúgio e também serviu para dar nome à região: Guaramiranga - pássaro vermelho em tupi-guarani. Ali podemos receber os amigos gaúchos e comer um churrasco debaixo das árvores. Nós, que somos da terra do sol, onde a luminosidade e o calor às vezes são excessivos, podemos também gozar da suavidade de uma manhã de nevoeiro, das noites estreladas, do resplendor do luar e o friozinho da madrugada
Alguns dos nossos sobrinhos de Brasília muitas vezes sobem a serra para o sítio que batizamos de São Pedro dos Freires, ali podem parar e descansar a cabeça dos árduos estudos e das lutas profissionais. Mas além do descanso temos também os passeios pelas trilhas na mata, banhos de cachoeiras, descidas desembaladas numa tirolesa e passeio de pedalinho no belo lago de Pacoti. Outra opção é a ida noturna à pequenina cidade de Guaramiranga, onde há bons restaurantes, festivais de teatro, música ao vivo na praça, enquanto se toma um chocolate quente ou um bom vinho e aprecia-se a gente bonita que passeia pelo local. Enfim, valeu a pena o esforço gasto na aquisição e construção do nosso sítio. Até primos e tios que moram longe, lá na outra ponta do Brasil, no Acre, têm tido oportunidade de ir ao São Pedro e conviver conosco em temporadas que não dão para esquecer. Tio Carlos e a saudosa tia Mimi estiveram por lá e nos deixaram tantas saudades, mas com certeza um pouco da sua serenidade e alegria ficou conosco!
