Chovia sobre a cidade, noite escura com o fornecimento de
energia interrompido pela tempestade, e já passara a hora do toque de recolher,
comum a todas as cidades afetadas pela guerra. Alguém bate à porta da velha
casa do Seminário Menor do Espírito Santo, no Huambo, e pede guarida com uma
voz infantil, fraca e chorosa: “Opatele, opatele, kwatiseko!” - Padre, Padre me
ajude! Com cautela ela foi entreaberta, pois sempre poderia haver o risco de
alguma cilada, e o padre deparou-se com um garotinho pequeno: olhos grandes,
roupas rasgadas encharcadas pela chuva, descalço, braços sobre o peito,
tremendo de frio. Não havia como negar acolhida àquela criança exausta que já
trazia consigo uma história trágica. Providenciamos um prato quente de comida,
roupa enxuta e uma cama para dormir. O seu destino ficaria para ser resolvido
no dia seguinte, por enquanto deveria ficar conosco.
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quarta-feira, 27 de março de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
O Ataque
Aproximava-se a festa do Natal no final da minha estadia em Angola. Uma espécie de cansaço já tomava conta de mim e sentia a necessidade de uma parada para o descanso. Sentíamos que a cada ano que passava a situação piorava e o assédio apertava cada vez mais aquela cidade. Na época da minha chegada os trens trafegavam e conseguiam trazer com relativa regularidade o peixe seco e outros alimentos essenciais do porto do Lobito para Huambo. Porém, com a sucessão dos ataques à estrada de ferro, eles foram pouco a pouco parando de circular, até que houve a grande emboscada de Ovava Yela – Água Limpa - localidade situada na encosta do planalto central. A partir daí os trens pararam completamente e passamos a depender cada vez mais das colunas de camiões, que circulavam protegidas por soldados, armas e helicópteros. Na fase final da minha estadia, o transporte aéreo tornou-se vital, os aviões sob a ameaça dos foguetes americanos “Stinger” evitavam sobrevoar os subúrbios da cidade e pousavam fazendo círculos e soltando balões soviéticos de ar quente para desviar e enganar os foguetes inimigos atraídos pelo calor da carlinga das aeronaves.
segunda-feira, 18 de março de 2013
O Curso de Datilografia
No Huambo aprendi que uma pequena coisa, um diminuto conhecimento ou inesperado
acontecimento podem ter uma importância desproporcional na vida das pessoas,
podem até significar a diferença entre a vida e a morte. Foi assim que o acaso
ou a mão de Deus me conduziram uma tarde a um local onde eram ministradas aulas
de datilografia.
quarta-feira, 13 de março de 2013
O Filho do Soba
Em Angola, durante os anos em que lá vivi, tive poucas
oportunidades para conhecer as autoridades tradicionais, os "sobas" –
pequenos reis – de algumas aldeias. Em razão da guerra, da influência do
cristianismo e da modernidade o seu poder tinha decrescido bastante, mas
persistia nas áreas rurais mais recuadas. Eles eram considerados os guardiões
das tradições mais antigas do povo, incluindo o direito bantu, o legado oral da
história tribal, ritos de passagem e práticas religiosas ancestrais.
quarta-feira, 6 de março de 2013
O Cavalo Passou Selado
Após o meu retorno da
missão no exterior, depois de uma tentativa longa e frustrada para
adaptar-me à vida missionária no meu país e de um tempo sofrido de
discernimento resolvi formalizar o meu pedido de saída da minha
querida congregação. Além dos problemas de adaptação, que eu já
estava somatizando e que começaram a afetar a minha saúde, havia
apelos familiares não explicitamente formulados que eu não poderia
deixar sem resposta. Enfim, eu precisava "juntar os cacos da
minha vida" pois me sentia como alguém que estava se separando
de algo muito amado e que necessitava "virar a página"
para encontrar novos motivos para ser feliz e produzir. Isso não era
nada fácil para um homem da meia-idade como eu, afinal saíra da
congregação mas a congregação não saíra de mim. Eu não me
sentia preparado para enfrentar o mercado de trabalho.
domingo, 3 de março de 2013
A Rusga
Um dos maiores motivos para preocupação, quando morei em
Angola, foram as rusgas. Mas acho que dificilmente um brasileiro comum conhece
o significado dessa palavra! Esclarecendo pois, rusga é o nome que se dá em
Angola às batidas feitas pela polícia ou exército para identificar e deter
homens ou rapazes e incorporá-los à tropa. No Huambo eram feitas
inesperadamente e consistiam quase sempre em um cerco a um setor da cidade ou
local de aglomeração de jovens, onde era exigida a apresentação dos documentos
pessoais com a consequente detenção dos considerados refratários ao serviço
militar. Geralmente essas operações são realizadas em tempo de guerra, quando
muitos rapazes e homens jovens procuram de algum modo furtar-se à incorporação
ao exército por temor das consequencias da guerra, mutilação ou morte, ou
porque buscam desenvolver planos pessoais de estudo ou trabalho.
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