Um dos maiores motivos para preocupação, quando morei em
Angola, foram as rusgas. Mas acho que dificilmente um brasileiro comum conhece
o significado dessa palavra! Esclarecendo pois, rusga é o nome que se dá em
Angola às batidas feitas pela polícia ou exército para identificar e deter
homens ou rapazes e incorporá-los à tropa. No Huambo eram feitas
inesperadamente e consistiam quase sempre em um cerco a um setor da cidade ou
local de aglomeração de jovens, onde era exigida a apresentação dos documentos
pessoais com a consequente detenção dos considerados refratários ao serviço
militar. Geralmente essas operações são realizadas em tempo de guerra, quando
muitos rapazes e homens jovens procuram de algum modo furtar-se à incorporação
ao exército por temor das consequencias da guerra, mutilação ou morte, ou
porque buscam desenvolver planos pessoais de estudo ou trabalho.
Os nossos estudantes possuiam documento de adiamento do
serviço militar, porém várias vezes esses documentos eram invalidados, ficando
os moços inesperadamente em situação irregular. Nesse caso o jovem podia ser
preso em um quartel, feita a incorporação, e pouco depois ser transferido para
uma província distante, onde era muito mais difícil ao seminário ou a família
conseguir o seu retorno. Isso, como é de se compreender, causava prejuízo
severo aos objetivos da nossa instituição que investira em trabalho, dinheiro e
esperança na formação daqueles rapazes.
Dentro deste contexto, certo dia, fui avisado que uma rusga
apanhara dez dos nossos estudantes a caminho da escola e meu colega ou eu
deveria ir o quanto antes ao local onde estavam detidos os jovens e tentar
solicitar a sua liberação aos militares. Nessa vez coube a mim realizar aquele
que era o tipo do trabalho desagradável e de resultado incerto.
Cheguei ao local onde os rapazes estavam detidos e pedi para
falar ao oficial de dia. Recebi um "chá de cadeira" – espera
prolongada - de quase três horas antes de ser encaminhado ao gabinete. Lá
comecei a falar e fui calado aos gritos por um colérico militar. Berrou-me que
"eu era um brasileiro, um estrangeiro", que estava a intrometer-me ao
tentar impedir o cumprimento do serviço militar daqueles rapazes. Disse ainda
que o País estava em guerra e precisava dos seus filhos e que não era cabível a
minha intervenção, faltou só me expulsar da sala!
Julguei prudente calar-me pois a qualquer tentativa de
argumentar eu era emudecido por mais gritos e submetido a outra humilhação,
além de que eventualmente poderia piorar a situação dos rapazes detidos que já
não era boa. Tentei abafar a raiva e compreender que aquele homem, afinal,
também cumpria o seu dever e que ademais era submetido a um nível alto de
pressão, com todas aquelas famílias tentando retirar seus filhos, em razão do
temor de perdê-los na guerra. Embora eu questionasse interiormente a forma de
tratamento ao qual ele me submetia.
Após o seu desabafo e tendo visto que o estrangeiro, no caso
eu, calara-se avisou que iria estudar a documentação, determinando que eu
esperasse o resultado em casa, mas que seria muito difícil algum daqueles
jovens ser liberado.
Voltei para casa e a caminho encontrei outro estudante
detido por um soldado. Fui conversar com ele e disse-lhe, "este rapaz só
tem catorze anos e está fora da idade do serviço militar!" Olhou-me e argumentou:
"mas ele é maior do que eu". Era verdade, o soldado não passava de um
adolescente miúdo e subnutrido. Enfim, consegui a liberação do moço mas voltei
desanimado pensando nos outros que ficaram no quartel.
Em casa já tínhamos entrado em contacto com a nossa
procuradoria de Luanda para que tentassem fazer algo por lá e telefonado à Irmã
Conceição, representante da Caritas – organização caritativa católica -, e que
em muitas situações difíceis nos ajudava e aconselhava. A noite chegou sem
nenhuma novidade, nenhum dos jovens retornara. Que tristeza e que sensação de
impotência!
No dia seguinte três dos moços retornaram e trouxeram o
pedido dos que lá ficaram para que lhes mandássemos roupas e objetos pessoais
pois iriam partir logo. Depois de quase dez dias o Pe. Duchêne, Superior
Provincial, veio de Luanda trazendo mais três rapazes que conseguira recuperar
na capital. Mas os outros quatro foram definitivamente incorporados ao
exército. Sobre esses, só silêncio! Até que alguns meses depois recebi a notícia
de que dois deles haviam morrido quando o seu camião militar de transporte
avançando numa ofensiva detonou uma poderosa mina de estrada. Durante muito
tempo a lembrança daquelas duas jovens vidas cortadas não me saiu da mente e
passados tantos anos às vezes ainda retorna e fico pensando se teria havido
algum meio de salvá-los ao qual eu não tenha atinado na época.
O futuro porém iria nos trazer uma surpresa positiva que
ajudaria a evitar que outros jovens sofressem o mesmo destino se eventualmente
fossem incorporados à tropa. Mas isso fica para quando falarmos do curso de
datilografia.
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