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domingo, 3 de março de 2013

A Rusga


Um dos maiores motivos para preocupação, quando morei em Angola, foram as rusgas. Mas acho que dificilmente um brasileiro comum conhece o significado dessa palavra! Esclarecendo pois, rusga é o nome que se dá em Angola às batidas feitas pela polícia ou exército para identificar e deter homens ou rapazes e incorporá-los à tropa. No Huambo eram feitas inesperadamente e consistiam quase sempre em um cerco a um setor da cidade ou local de aglomeração de jovens, onde era exigida a apresentação dos documentos pessoais com a consequente detenção dos considerados refratários ao serviço militar. Geralmente essas operações são realizadas em tempo de guerra, quando muitos rapazes e homens jovens procuram de algum modo furtar-se à incorporação ao exército por temor das consequencias da guerra, mutilação ou morte, ou porque buscam desenvolver planos pessoais de estudo ou trabalho.

Os nossos estudantes possuiam documento de adiamento do serviço militar, porém várias vezes esses documentos eram invalidados, ficando os moços inesperadamente em situação irregular. Nesse caso o jovem podia ser preso em um quartel, feita a incorporação, e pouco depois ser transferido para uma província distante, onde era muito mais difícil ao seminário ou a família conseguir o seu retorno. Isso, como é de se compreender, causava prejuízo severo aos objetivos da nossa instituição que investira em trabalho, dinheiro e esperança na formação daqueles rapazes.
Dentro deste contexto, certo dia, fui avisado que uma rusga apanhara dez dos nossos estudantes a caminho da escola e meu colega ou eu deveria ir o quanto antes ao local onde estavam detidos os jovens e tentar solicitar a sua liberação aos militares. Nessa vez coube a mim realizar aquele que era o tipo do trabalho desagradável e de resultado incerto.
Cheguei ao local onde os rapazes estavam detidos e pedi para falar ao oficial de dia. Recebi um "chá de cadeira" – espera prolongada - de quase três horas antes de ser encaminhado ao gabinete. Lá comecei a falar e fui calado aos gritos por um colérico militar. Berrou-me que "eu era um brasileiro, um estrangeiro", que estava a intrometer-me ao tentar impedir o cumprimento do serviço militar daqueles rapazes. Disse ainda que o País estava em guerra e precisava dos seus filhos e que não era cabível a minha intervenção, faltou só me expulsar da sala!
Julguei prudente calar-me pois a qualquer tentativa de argumentar eu era emudecido por mais gritos e submetido a outra humilhação, além de que eventualmente poderia piorar a situação dos rapazes detidos que já não era boa. Tentei abafar a raiva e compreender que aquele homem, afinal, também cumpria o seu dever e que ademais era submetido a um nível alto de pressão, com todas aquelas famílias tentando retirar seus filhos, em razão do temor de perdê-los na guerra. Embora eu questionasse interiormente a forma de tratamento ao qual ele me submetia.
Após o seu desabafo e tendo visto que o estrangeiro, no caso eu, calara-se avisou que iria estudar a documentação, determinando que eu esperasse o resultado em casa, mas que seria muito difícil algum daqueles jovens ser liberado.
Voltei para casa e a caminho encontrei outro estudante detido por um soldado. Fui conversar com ele e disse-lhe, "este rapaz só tem catorze anos e está fora da idade do serviço militar!" Olhou-me e argumentou: "mas ele é maior do que eu". Era verdade, o soldado não passava de um adolescente miúdo e subnutrido. Enfim, consegui a liberação do moço mas voltei desanimado pensando nos outros que ficaram no quartel.
Em casa já tínhamos entrado em contacto com a nossa procuradoria de Luanda para que tentassem fazer algo por lá e telefonado à Irmã Conceição, representante da Caritas – organização caritativa católica -, e que em muitas situações difíceis nos ajudava e aconselhava. A noite chegou sem nenhuma novidade, nenhum dos jovens retornara. Que tristeza e que sensação de impotência!
No dia seguinte três dos moços retornaram e trouxeram o pedido dos que lá ficaram para que lhes mandássemos roupas e objetos pessoais pois iriam partir logo. Depois de quase dez dias o Pe. Duchêne, Superior Provincial, veio de Luanda trazendo mais três rapazes que conseguira recuperar na capital. Mas os outros quatro foram definitivamente incorporados ao exército. Sobre esses, só silêncio! Até que alguns meses depois recebi a notícia de que dois deles haviam morrido quando o seu camião militar de transporte avançando numa ofensiva detonou uma poderosa mina de estrada. Durante muito tempo a lembrança daquelas duas jovens vidas cortadas não me saiu da mente e passados tantos anos às vezes ainda retorna e fico pensando se teria havido algum meio de salvá-los ao qual eu não tenha atinado na época.
O futuro porém iria nos trazer uma surpresa positiva que ajudaria a evitar que outros jovens sofressem o mesmo destino se eventualmente fossem incorporados à tropa. Mas isso fica para quando falarmos do curso de datilografia.


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