No Huambo aprendi que uma pequena coisa, um diminuto conhecimento ou inesperado
acontecimento podem ter uma importância desproporcional na vida das pessoas,
podem até significar a diferença entre a vida e a morte. Foi assim que o acaso
ou a mão de Deus me conduziram uma tarde a um local onde eram ministradas aulas
de datilografia.
Caminhando pelas ruas do Huambo, encontrei um instrutor
ministrando um curso de datilografia a um grupo de alunos. Parei para observar
e logo descobri que as máquinas usadas ali pertenciam a três diferentes
sistemas de colocação de letras nos teclados. Havia o sistema francês, AZERT; o
sistema anglófono QWERT e, ainda, em menor número, um sistema só usado em
Portugal. Cada sistema busca privilegiar a maior frequência de cada letra no
seu idioma, colocando-as nos locais mais favoráveis, que possibilitam uma melhor
mobilidade para a movimentação dos dedos.
A falta, portanto, de uma uniformidade de sistema nas
máquinas daquela escola fazia com que os alunos não fixassem na mente a
localização exata de cada sinal tipográfico, pois a cada aula trabalhavam em
máquinas com diferentes teclados. Desta forma eles ficavam "catando
milho", isto é: procurando as letras com os olhos, uma a uma, em lugar de
levarem os dedos automaticamente ao lugar certo, o que os fazia perder tempo e
a escrever muito lentamente.
Voltando para casa conversei com um dos jovens da nossa
casa, o Angelino Tchivandja, moço inteligente e dotado de muito senso prático!
Disse-lhe despercebidamente que se eu tivesse máquinas em condição e dotadas de
um sistema uniforme eu poderia dar à nossa turma um curso melhor do que aquele
que eu visitara. Então fiz uma pequena demonstração escrevendo um texto na
minha máquina, uma pequena Lorenzetti cinzenta que trouxera do Brasil. Ele
ficou calado e espantado com a minha velocidade, que afinal nem era tanta, e mais
ainda pela fato de eu escrever sem olhar para o teclado.
No outro dia o Angelino voltou a falar comigo já com meio
caminho andado no sentido da montagem de um curso. Informou-me que havia cinco
velhas máquinas empoeiradas no porão da nossa casa, as quais poderiam ser
recuperadas numa oficina ali perto. Acrescentou que um mecânico da cidade
afirmara ser capaz de trocar os tipos e adequá-los ao sistema que eu desejasse.
Algumas das máquinas eram "jurássicas" - muito antigas - e uma teve
que ser desfeita para fornecer peças às demais. Mas aceitei o desafio de
ministrar o curso, optando pelo sistema azert que era o mais comum em Angola.
Consegui mais algumas máquinas em outras casas de religiosos
e com a Procuradoria de Luanda e mandei-as consertar e lubrificar. Preparei as
lições conforme o modelo que eu tinha aprendido ainda adolescente, em
Fortaleza, na antiga Escola Remington de Dactilografia.
Recobri as letras das máquinas com uma fita adesiva preta –
fita cola - e convoquei os interessados entre os nossos estudantes. Não houve
vagas para todos, formando-se logo uma outra turma e uma lista de espera. A
partir de então, todas as tardes, o tic-tac das máquinas ressoava pela casa.
Depois de duas semanas passamos a cronometrar o tempo de execução das lições. As
aprovações para uma nova etapa do curso levavam em conta a correção do texto,
limpo e sem erros, e o tempo gasto na execução. Ah, você nem imagina o
entusiasmo dos jovens com aquele modesto e despretencioso curso, logo começaram
a escrever cartas datilografadas para suas famílias e amigos. Também as
superioras das comunidades de freiras vieram pedir para que eu abrisse vagas
para as suas jovens em formação e até os militares queriam aprender a
dactilografia.
Tive que limitar o atendimento à demanda em face do escasso
número de máquinas que eu dispunha. Naturalmente privilegiei os nossos jovens,
embora tivesse aberto algumas vagas para as madres. No final do curso houve
entrega solene dos diplomas aos orgulhosos alunos em tarde festiva com música e
poesia. Montaram inclusive uma paródia cômica sobre alunos desesperados para
finalizar a lição no tempo determinado e um caricato instrutor de datilografia
com sotaque brasileiro encerrando o período cronometrado e gritando um sonoro
"já!"
Os conhecimentos adquiridos logo se revelaram úteis no final
do ano, quando os nossos alunos fizeram um trabalho final de Metodologia
Científica bem mais apresentável e até o nosso bispo me chamou pedindo auxílio
para explicar-lhe o funcionamento de uma nova máquina que recebera da Alemanha.
Felizmente consegui resolver o problema que era muito simples.
Contudo a importância da datilografia revelou-se num aspecto
inesperado. Quando alguns daqueles jovens foram incorporados ao exército, em
lugar de terem de arriscar a vida em ferozes combates foram aproveitados nos
gabinetes do comando militar como datilógrafos. Refleti, então, que poderia não
ser o acaso que dirigiu os meus passos naquela tarde até uma escola de
datilografia no Huambo. Mas que a inspiração de Deus aliada a criatividade
humana levaram aqueles jovens a terem mais uma oportunidade de vida.
Como pode se aprender tanto com coisas aparentemente tão simples.
ResponderExcluirÉ isso aí Pedão.
Acredito que as coisas chamadas simples nos ensinam mais do que os imensos e empolados discursos.
ResponderExcluir