Chovia sobre a cidade, noite escura com o fornecimento de
energia interrompido pela tempestade, e já passara a hora do toque de recolher,
comum a todas as cidades afetadas pela guerra. Alguém bate à porta da velha
casa do Seminário Menor do Espírito Santo, no Huambo, e pede guarida com uma
voz infantil, fraca e chorosa: “Opatele, opatele, kwatiseko!” - Padre, Padre me
ajude! Com cautela ela foi entreaberta, pois sempre poderia haver o risco de
alguma cilada, e o padre deparou-se com um garotinho pequeno: olhos grandes,
roupas rasgadas encharcadas pela chuva, descalço, braços sobre o peito,
tremendo de frio. Não havia como negar acolhida àquela criança exausta que já
trazia consigo uma história trágica. Providenciamos um prato quente de comida,
roupa enxuta e uma cama para dormir. O seu destino ficaria para ser resolvido
no dia seguinte, por enquanto deveria ficar conosco.
Isaac Kapoko, assim se chamava aquele menino, era um
sobrevivente! Contou que vira toda a sua família ser trucidada quando a aldeia
em que nascera fora invadida. Fugindo à carnificina o menino chegou a uma
estrada e conseguiu que os militares de uma coluna de camiões o levassem até
Huambo, capital provincial. Lá chegando foi abandonado nas ruas de uma cidade
já apinhada de deslocados, onde até a menor esmola era difícil de conseguir.
Vagou à toa, perdido e faminto, até que alguém o encaminhou: “vá para a casa
dos padres, lá eles lhe darão qualquer coisa.”
Foi o que ele fez e, depois de alimentado, o exausto Isaac
dormiu como uma pedra. Enquanto o jovem sacerdote que o acolhera pensava no que
fazer com ele, afinal, bem sabia que todos os abrigos de órfãos e crianças
perdidas ou separadas da família estavam lotados. As freiras vez ou outra
pediam-lhe inclusive para ficar com algum daqueles miúdos! Era complicado, pois
qualquer boca a mais já fazia diferença num lugar em que era tão difícil
adquirir alimentos.
As expectativas foram confirmadas, ninguém podia ou queria
ficar com o Isaac. Consultado, o Pe. Moreira, um português vigário do Bailundo,
homem de feição heroica, confirmou a história do menino: a mencionada povoação,
uma aldeia protestante, fora riscada do mapa, ela havia sido palco de um dos
maiores massacres ocorridos na região do Bailundo, ressaltando que não foram
encontrados outros sobreviventes na família do pequeno refugiado.
Quando conheci o Kapoko lembrei-me logo do personagem de um
filme mexicano, que eu assistira na infância. Nessa película, o “Marcelino Pão
e Vinho”, como o Isaac, vivia em uma comunidade de religiosos sem ocupar
institucionalmente lugar algum. Isaac não era um estudante do Seminário Menor
ou empregado da casa, mas aos pouquinhos, com seu sorriso enorme e
prestimosidade para qualquer trabalho, ia conquistando espaço próprio e a todos
nós. Os moradores da casa ficaram sendo a sua família! Embora o Pe. Gaspar
fosse o escolhido por ele para ser o seu conselheiro, uma espécie de diretor
espiritual, e por quem guardava um enorme respeito.
Isaac foi matriculado na escola e desempenhava algumas
pequenas tarefas da nossa casa. Nela foi alimentado, instruído e às vezes
disciplinado como toda criança que sai da linha. Aprendeu muita coisa e era
atento a tudo o que pudesse nos por em risco. Um dia chegou-se a mim e disse: -
“Irmão, em frente à nossa casa há um botijão de gás vazio. É estranho! Será que
não é conveniente chamar a polícia para retirá-lo, poderia ser uma bomba!”
Aceitei o conselho, telefonei e os guardas vieram retirar o recipiente de
aspecto ameaçador. Havia algo dentro dele!? Acredito que não, mas até hoje estou
por saber com certeza. Entretanto, registrei na mente o interesse do garoto!
Ele crescia rápido, certo dia um estudante mais velho chegou
a mim e disse que o Isaac não tinha sido ainda circuncidado, conforme o costume
do seu povo, e que por isso se sentia inferiorizado em relação aos outros
estudantes. Como eu não entendia nada do assunto procurei informar-me sobre o
assunto com algumas pessoas respeitáveis. Finalmente com relutância concordei,
desde que fizesse a microcirurgia com um médico ou enfermeiro do hospital para
evitar alguma infecção.
Isaac era muito observador, particularmente em tudo o que se
referia à mecânica e à eletricidade. Entre nós, ele cresceu, transformou-se em
um rapaz forte, aprendeu uma profissão digna e finalmente casou e constituiu
família. Hoje é um cidadão pacífico e trabalhador na Angola que surgiu após o
final da guerra.
Emocionante.
ResponderExcluirÉ verdade a cada vez que relembro as passagens da vida do Isaac sinto a emoção e a tristeza daquele jovem.
ResponderExcluir