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sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Tiro ao Alvo

 Durante o concurso que eu fiz, após deixar a minha congregação, ao tentar conseguir um trabalho que pudesse me assegurar um futuro mais seguro deparei-me com algumas surpresas e descobri habilidades em mim com as quais jamais contara. Naquela ocasião tive que deslocar-me à capital federal, Brasília e "dar um duro" – trabalhar forte - como nunca pensei. Entre os desafios ao qual fui confrontado um deles muito me surpreendeu e, para o qual, me julgava completamente despreparado. Tratava-se de submeter-me a uma prova de tiro ao alvo e receber instruções para uso de arma de fogo. Afinal, na minha vida, a caça me era uma atividade completamente estranha e nem usara espingardas de chumbinho, mesmo para ganhar pequenos prêmios nas quermesses das festas do interior do Ceará. Na verdade eu temia muito fracassar e sofrer uma vergonha perante todos os meus instrutores e jovens concorrentes, sem contar o prejuízo que isso poderia me trazer na avaliação final do curso de formação!

Estava bastante pessimista no dia em que nos dirigimos para o galpão de tiro, onde se realizariam as primeiras instruções. Ali fomos apresentados ao instrutor, um jovem e garboso capitão do exército, e ao seu ajudante, um "cabo velho", de aparência humilde e com os ombros meio caídos. O capitão pavoneou-se um pouco durante a apresentação e, após uma explicação técnica sobre o uso da arma, colocou-nos em fila e explicou o sistema de pontuação do alvo – a silhueta de uma figura humana. De princípio aquilo chocou-me, afinal tratava-se mesmo simbolicamente em atirar numa pessoa. Mas tive que vencer as resistências e pruridos morais, prevalecendo o argumento da razão interior de que a arma era apenas um artefacto mecânico mirando um rabisco mal-feito numa cartolina. Ali não se tratava de atirar num ser humano, embora eu preferisse que o alvo fosse a tradicional série de círculos concêntricos.

Eu era o terceiro a atirar, segurei a arma com excessiva força e mirei. Os tiros sairam rapidamente e espantei-me com o barulho! Olhei para o alvo e vi que os meus piores temores já estavam se concretizando, todos os tiros ficaram enfileirados ao lado direito, bem fora do alvo. Errara tudo! 
Tive vontade de me "enterrar no chão", esconder-me! O capitão passou pela frente dos alunos olhando os resultados e balançou levemente a cabeça quando olhou para o meu trabalho, como se dissesse: "que desastre, esse aí não tem jeito!" Mas nada falou para mim. Dirigiu-se a uma jovem ao meu lado, parou, levantou-lhe os braços e orientou a sua postura, apontando o que estivera errado durante o seu teste e incentivando-a a prosseguir.


Fiquei envergonhado e meio desnorteado. Pensei em chamar o capitão mas a timidez me impediu. Olhei para o cabo velho que estava parado a um canto, calado, assistindo à exibição de proeminência do seu superior. Acenei, ele veio logo, e eu, procurando uma saída para aquela enrascada na qual estava metido, falei-lhe: "Honorato, porque as balas ficaram todas do lado direito, distantes do alvo?" E aquele homem simples respondeu-me: – Porque você fez uma "gatilhada" – um erro de posicionamento da mão no gatilho . Retruquei logo, "como foi isso?"

Então o cabo me explicou que eu, quando apertava o gatilho com o indicador, também movimentava os outros três dedos e isso desfocava a mira. Seria necessário movimentar unicamente o dedo indicador deixando os outros totalmente imobilizados. Entendi a "dica" – informação útil - e agradeci. Quando o capitão voltou para a segunda sessão, encaixei todas as balas no centro do alvo para surpresa do militar. Saí dali com "o dia ganho e com a alma lavada" - minha auto-confiança lá encima.

Depois vieram as outras aulas com outros tipos de armas e posições mas eu já estava tranquilo, a tensão desaparecera e no dia da prova final de tiro sai-me com brilhantismo e consegui o primeiro lugar. Meus colegas brincaram comigo dizendo que com certeza eu aprendera a atirar durante a guerra em Angola e que não se podia acreditar que eu fosse um iniciante conforme afirmava. Ri da piada e assim venci mais uma barreira dentro daquele curso de formação, no qual eu disputava uma vaga, a única existente, para a minha cidade, Fortaleza, onde me esperava a minha velha mãe, doente mas confiante e cheia de fé.

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