Durante o concurso que eu fiz, após deixar a minha
congregação, ao tentar conseguir um trabalho que pudesse me assegurar um futuro
mais seguro deparei-me com algumas surpresas e descobri habilidades em mim com
as quais jamais contara. Naquela ocasião tive que deslocar-me à capital
federal, Brasília e "dar um duro" – trabalhar forte - como nunca
pensei. Entre os desafios ao qual fui confrontado um deles muito me surpreendeu
e, para o qual, me julgava completamente despreparado. Tratava-se de submeter-me
a uma prova de tiro ao alvo e receber instruções para uso de arma de fogo.
Afinal, na minha vida, a caça me era uma atividade completamente estranha e nem
usara espingardas de chumbinho, mesmo para ganhar pequenos prêmios nas
quermesses das festas do interior do Ceará. Na verdade eu temia muito fracassar
e sofrer uma vergonha perante todos os meus instrutores e jovens concorrentes,
sem contar o prejuízo que isso poderia me trazer na avaliação final do curso de
formação!
Estava bastante pessimista no dia em que nos dirigimos para
o galpão de tiro, onde se realizariam as primeiras instruções. Ali fomos
apresentados ao instrutor, um jovem e garboso capitão do exército, e ao seu
ajudante, um "cabo velho", de aparência humilde e com os ombros meio
caídos. O capitão pavoneou-se um pouco durante a apresentação e, após uma
explicação técnica sobre o uso da arma, colocou-nos em fila e explicou o
sistema de pontuação do alvo – a silhueta de uma figura humana. De princípio
aquilo chocou-me, afinal tratava-se mesmo simbolicamente em atirar numa pessoa.
Mas tive que vencer as resistências e pruridos morais, prevalecendo o argumento
da razão interior de que a arma era apenas um artefacto mecânico mirando um
rabisco mal-feito numa cartolina. Ali não se tratava de atirar num ser humano,
embora eu preferisse que o alvo fosse a tradicional série de círculos
concêntricos.
Eu era o terceiro a atirar, segurei a arma com excessiva
força e mirei. Os tiros sairam rapidamente e espantei-me com o barulho! Olhei
para o alvo e vi que os meus piores temores já estavam se concretizando, todos
os tiros ficaram enfileirados ao lado direito, bem fora do alvo. Errara tudo!
Tive vontade de me "enterrar no chão", esconder-me! O capitão passou
pela frente dos alunos olhando os resultados e balançou levemente a cabeça
quando olhou para o meu trabalho, como se dissesse: "que desastre, esse aí
não tem jeito!" Mas nada falou para mim. Dirigiu-se a uma jovem ao meu
lado, parou, levantou-lhe os braços e orientou a sua postura, apontando o que
estivera errado durante o seu teste e incentivando-a a prosseguir.
Fiquei envergonhado e meio desnorteado. Pensei em chamar o
capitão mas a timidez me impediu. Olhei para o cabo velho que estava parado a
um canto, calado, assistindo à exibição de proeminência do seu superior.
Acenei, ele veio logo, e eu, procurando uma saída para aquela enrascada na qual
estava metido, falei-lhe: "Honorato, porque as balas ficaram todas do lado
direito, distantes do alvo?" E aquele homem simples respondeu-me: – Porque
você fez uma "gatilhada" – um erro de posicionamento da mão no
gatilho . Retruquei logo, "como foi isso?"
Então o cabo me explicou que eu, quando apertava o gatilho
com o indicador, também movimentava os outros três dedos e isso desfocava a
mira. Seria necessário movimentar unicamente o dedo indicador deixando os
outros totalmente imobilizados. Entendi a "dica" – informação útil -
e agradeci. Quando o capitão voltou para a segunda sessão, encaixei todas as
balas no centro do alvo para surpresa do militar. Saí dali com "o dia
ganho e com a alma lavada" - minha auto-confiança lá encima.
Depois vieram as outras aulas com outros tipos de armas e
posições mas eu já estava tranquilo, a tensão desaparecera e no dia da prova
final de tiro sai-me com brilhantismo e consegui o primeiro lugar. Meus colegas
brincaram comigo dizendo que com certeza eu aprendera a atirar durante a guerra
em Angola e que não se podia acreditar que eu fosse um iniciante conforme
afirmava. Ri da piada e assim venci mais uma barreira dentro daquele curso de
formação, no qual eu disputava uma vaga, a única existente, para a minha
cidade, Fortaleza, onde me esperava a minha velha mãe, doente mas confiante e
cheia de fé.
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