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terça-feira, 16 de abril de 2013

O Comício


Logo após chegar à África fui surpreendido ao receber um documento chamado "convocatória", pelo qual éramos intimados pelas autoridades a comparecer a uma reunião que ia tratar da atividade religiosa segundo a ótica do Partido. Além da determinação, sob a forma de convite, para participarmos em um comício. Perguntei ao meu colega se deveria ir, respondeu-me que sim, que não havia escolha senão a obediência.


No dia determinado, as aulas foram suspensas e fui pela manhã à reunião. O salão estava cheio de freiras, padres, pastores protestantes e alguns irmãos leigos como eu. No tablado uma mesa com os dirigentes partidários que discursaram destacando além do obscurantismo da religião, o fenômeno sociológico do surgimento da fé em Deus, o sentido da expressão "ópio do povo" em Marx e a construção do socialismo. Eu, ali, só escutando, remoendo intimamente tantos argumentos que acreditava poderiam, se expressados, derrubar boa parte do que era sustentado. Mas, na condição de recém-chegado, não era conveniente me expor, isso poderia até comprometer o nosso trabalho. Além disso em África, ao contrário do Brasil, segue-se rigidamente a hierarquia e a minha posição dentro do clero estava longe de ser das mais destacadas.

Depois foi dada a palavra a um padre diocesano que discursou em linguagem cautelosa, pinçando frases e colocações dos dirigentes maiores da Nação, nas quais fora reconhecido, em alguma ocasião, o papel positivo das instituições religiosas em Angola, principalmente no campo da saúde. Achei o discurso fraco, pois tratava-se de usar argumentos de autoridades do próprio Partido para defender as igrejas, sem responder diretamente aos argumentos filosóficos. Mas, naquele contexto, compreendi que era o que poderia ser dito. Afinal de contas aquilo era como um ritual preestabelecido, ninguém arredava pé da sua posição, nem nós, nem eles, os campos já estavam bem delimitados. Contudo saí triste, sentindo-me humilhado por ter participado naquela reunião.

À tarde, fui com os nossos estudantes ao comício em um grande descampado perto de um bosque de eucaliptos para os lados do Bairro de Fátima. Ali fora construído um grande palanque elevado, diante do qual e à frente da multidão postavam-se os jovens da juventude do Partido (JMPLA), a Organização das Mulheres de Angola (OMA) e outras organizações militantes. Postei-me bem mais atrás para poder ver o tablado e também o povo.

Foram gritadas palavras de ordem e refrões para serem repetidas pela multidão, tipo: "o partido é o povo e o povo é o partido", "abaixo os contra-revolucionários", "viva a revolução", "vivam os internacionalistas cubanos" e por aí vai! As pessoas repetiam o refrão e levantavam o punho. Eu me senti estranho por manter os braços abaixados enquanto a multidão gritava e alçava os braços.
A pauta do discurso era a luta contra os inimigos que destruiam os bens do povo e matavam os cidadãos, condenando principalmente os que sorrateiramente punham bombas na cidade ou minavam os caminhos. Logo após foram apresentados três dos chamados bombistas – dois homens e uma mulher – acusados de terem praticado atentados terroristas no Huambo. A mulher e um dos homens ouviram cabisbaixos as acusações que lhes eram assacadas pelo promotor. Mas notei uma atitude diferente no outro homem, como se a ele já nada mais importasse nesta vida, como se soubesse que o seu destino já estava traçado.

O portavoz e animador do julgamento popular perguntou à multidão o que aqueles três mereciam. A multidão gritou: "Morte. Morte. Morte". Uma infinidade de punhos levantou-se para o céu. Espantado com o espetáculo a que me era dado assistir reparei em um dos jovens que entusiasmado levantava o punho e gritava o trágico refrão condenatório. Ele era um dos nossos alunos mais jovens!
Enquanto decorria o veredito popular, sem que ninguém se manifestasse de maneira oposta. Aliás nem era possível opor-se àquele julgamento. Ouvi pessoas comentando que aqueles bombistas seriam fuzilados logo após o final do comício. Já comovido pelo julgamento e também pela descoberta da participação do nosso aluno resolvi sair do local para não ver o fuzilamento, se realmente acontecesse, e vagarosamente fui-me afastando do comício, regressando à casa.

No meu quarto fiquei pensando no que deveria falar aos nossos jovens quando nos reuníssemos na capela naquela noite. A cautela me mandava calar, afinal estava em um país em guerra, uma simples denúncia poderia acarretar consequências graves, com possível comprometimento para a existência futura da nossa casa ou uma possível prisão. Por outro lado eu sabia que não poderia me calar pois a formação cristã que procurávamos transmitir àqueles jovens poderia ser destruída.

Assim à noite, depois de pesar cada palavra que eu iria falar, disse aos jovens que eu fora ao comício e que vira um deles todo entusiasmado com o punho cerrado e pedindo a morte daquelas três pessoas. Acrescentei que não me cabia discutir os crimes que teriam sido cometidos por elas e muito menos a justiça da sua sentença. Mas que eu estava certo de que alguém que se diz cristão não pode pedir a morte do seu semelhante daquela maneira e concluí que o próprio Jesus de Nazaré, apesar de inocente, passou por situação semelhante no Pretório de Jerusalém. Depois, alguns dos alunos vieram a mim para dizer que não tinham outra opção, pois se não erguessem o braço poderiam levantar suspeitas de serem simpatizantes do inimigo. Entendi a situação deles mas fiquei feliz por esclarecer a todos a minha posição, esperando que a semente ali lançada criasse raízes.

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