Logo após chegar à África fui surpreendido ao receber um
documento chamado "convocatória", pelo qual éramos intimados pelas
autoridades a comparecer a uma reunião que ia tratar da atividade religiosa
segundo a ótica do Partido. Além da determinação, sob a forma de convite, para
participarmos em um comício. Perguntei ao meu colega se deveria ir,
respondeu-me que sim, que não havia escolha senão a obediência.
No dia determinado, as aulas foram suspensas e fui pela manhã
à reunião. O salão estava cheio de freiras, padres, pastores protestantes e
alguns irmãos leigos como eu. No tablado uma mesa com os dirigentes partidários
que discursaram destacando além do obscurantismo da religião, o fenômeno
sociológico do surgimento da fé em Deus, o sentido da expressão "ópio do povo"
em Marx e a construção do socialismo. Eu, ali, só escutando, remoendo
intimamente tantos argumentos que acreditava poderiam, se expressados, derrubar
boa parte do que era sustentado. Mas, na condição de recém-chegado, não era conveniente
me expor, isso poderia até comprometer o nosso trabalho. Além disso em África, ao contrário do Brasil,
segue-se rigidamente a hierarquia e a minha posição dentro do clero estava
longe de ser das mais destacadas.
Depois foi dada a palavra a um padre diocesano que discursou
em linguagem cautelosa, pinçando frases e colocações dos dirigentes maiores da
Nação, nas quais fora reconhecido, em alguma ocasião, o papel positivo das
instituições religiosas em Angola, principalmente no campo da saúde. Achei o
discurso fraco, pois tratava-se de usar argumentos de autoridades do próprio Partido para defender as igrejas, sem responder diretamente aos argumentos filosóficos. Mas, naquele contexto, compreendi que era o que poderia ser
dito. Afinal de contas aquilo era como um ritual preestabelecido, ninguém
arredava pé da sua posição, nem nós, nem eles, os campos já estavam bem
delimitados. Contudo saí triste, sentindo-me humilhado por ter participado
naquela reunião.
À tarde, fui com os nossos estudantes ao comício em um
grande descampado perto de um bosque de eucaliptos para os lados do Bairro de
Fátima. Ali fora construído um grande palanque elevado, diante do qual e à
frente da multidão postavam-se os jovens da juventude do Partido (JMPLA), a
Organização das Mulheres de Angola (OMA) e outras organizações militantes.
Postei-me bem mais atrás para poder ver o tablado e também o povo.
Foram gritadas palavras de ordem e refrões para serem
repetidas pela multidão, tipo: "o partido é o povo e o povo é o
partido", "abaixo os contra-revolucionários", "viva a
revolução", "vivam os internacionalistas cubanos" e por aí vai!
As pessoas repetiam o refrão e levantavam o punho. Eu me senti estranho por
manter os braços abaixados enquanto a multidão gritava e alçava os braços.
A pauta do discurso era a luta contra os inimigos que
destruiam os bens do povo e matavam os cidadãos, condenando principalmente os
que sorrateiramente punham bombas na cidade ou minavam os caminhos. Logo após
foram apresentados três dos chamados bombistas – dois homens e uma mulher –
acusados de terem praticado atentados terroristas no Huambo. A mulher e um dos
homens ouviram cabisbaixos as acusações que lhes eram assacadas pelo promotor.
Mas notei uma atitude diferente no outro homem, como se a ele já nada mais
importasse nesta vida, como se soubesse que o seu destino já estava traçado.
O portavoz e animador do julgamento popular perguntou à
multidão o que aqueles três mereciam. A multidão gritou: "Morte. Morte.
Morte". Uma infinidade de punhos levantou-se para o céu. Espantado com o
espetáculo a que me era dado assistir reparei em um dos jovens que entusiasmado
levantava o punho e gritava o trágico refrão condenatório. Ele era um dos
nossos alunos mais jovens!
Enquanto decorria o veredito popular, sem que ninguém se
manifestasse de maneira oposta. Aliás nem era possível opor-se àquele
julgamento. Ouvi pessoas comentando que aqueles bombistas seriam fuzilados logo
após o final do comício. Já comovido pelo julgamento e também pela descoberta
da participação do nosso aluno resolvi sair do local para não ver o
fuzilamento, se realmente acontecesse, e vagarosamente fui-me afastando do
comício, regressando à casa.
No meu quarto fiquei pensando no que deveria falar aos
nossos jovens quando nos reuníssemos na capela naquela noite. A cautela me mandava
calar, afinal estava em um país em guerra, uma simples denúncia poderia
acarretar consequências graves, com possível comprometimento para a
existência futura da nossa casa ou uma possível prisão. Por outro lado eu sabia
que não poderia me calar pois a formação cristã que procurávamos transmitir
àqueles jovens poderia ser destruída.
Assim à noite, depois de pesar cada palavra que eu iria
falar, disse aos jovens que eu fora ao comício e que vira um deles todo
entusiasmado com o punho cerrado e pedindo a morte daquelas três pessoas.
Acrescentei que não me cabia discutir os crimes que teriam sido cometidos por
elas e muito menos a justiça da sua sentença. Mas que eu estava certo de que alguém
que se diz cristão não pode pedir a morte do seu semelhante daquela maneira e concluí que o
próprio Jesus de Nazaré, apesar de inocente, passou por situação semelhante no
Pretório de Jerusalém. Depois, alguns dos alunos vieram a mim para dizer que não
tinham outra opção, pois se não erguessem o braço poderiam levantar suspeitas de
serem simpatizantes do inimigo. Entendi a situação deles mas fiquei feliz
por esclarecer a todos a minha posição, esperando que a semente ali lançada criasse raízes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário