Ao regressar de Portugal comecei um lento e doloroso
processo de "descer a ladeira" em termos de vida comunitária
religiosa. Por mais que tentasse não conseguia me readaptar à convivência nem
entender os objetivos dos meus confrades no Brasil! Sentia como se estivesse em
um processo de choque cultural, apesar de amar e respeitar profundamente a minha
congregação como um todo. Eu não compreendia o que estava acontecendo comigo e me
interrogava sobre algo que lembrava um choque cultural, que normalmente pode
ocorrer para quem mora no estrangeiro. Porém eu estava no meu país, apesar de
residir em São Paulo, e distante milhares de quilômetros da minha terra natal.
Mas já ouvi alguém comentar que o Brasil é semelhante a uma comunidade de
países dentro de um só.
Nesse período, após o meu retorno, em que fiquei morando em São Paulo, a única coisa que me deu satisfação foi um
trabalho que comecei a fazer na Prisão do Carandiru, um complexo prisional que abrigava
milhares de presos, na maioria jovens. Ali, passei a integrar a equipe do Pe.
Chico da pastoral carcerária, um homem extraordinário, totalmente dedicado aos
prisioneiros do nosso país. Ali cheguei a conhecer o atualmente famoso Dr.
Dráusio Varela, médico dos internos, possuidor de uma abnegação fora de série e
merecedor de grande respeito pelos detentos. Mas aquele foi o meu canto de
cisne na minha vida religiosa missionária, a hora da despedida era chegada.
Não quero descer a detalhes, mas confesso que tentei superar
aquela sensação terrível de não me sentir mais no meu lugar. Tudo foi inútil e
eu não consegui afastar a sensação de desconforto existêncial! Comecei então a
somatizar o problema com crises fortes de labirintite.
Por outro lado, nessa mesma época, a situação da minha mãe
começou a piorar e, por recomendação médica, ela deveria sair o quanto antes de
Brasília e retornar ao Ceará, nossa terra de origem. Para tal, deveriamos
vender e comprar imóveis, adquirir carro e fazer outras diligências. Enfim,
reorganizar a vida em Fortaleza, devendo dona Lola, minha mãe, iniciar um
tratamento de saúde, então seriamente comprometida.
Senti que estava sendo um peso para os meus confrades, não
estava mais sendo útil, e havia um convite para fazer algo por quem me dera a
vida. Eu não queria romper e sair da minha congregação, queria evitar a opção
radical de reverter o rumo da minha vida como já o fizera ao ingressar na vida
missionária. Aquela situação de indecisão era muito desagradável. Havia
sentimentos fortes mandando-me ficar e outros mandando-me sair. Porém certo dia
resolvi em um rompante regressar de imediato à minha família. Então um homem
manso e humilde, com quem eu nunca tivera muito contacto, chegou a mim, pôs a
mão no meu ombro, e falou calmamente: "Pedro não é assim que se faz!
Apresente um pedido de exclaustração. Depois você viaja." Pe. Bernardo
Hanisch me surpreendeu e sempre me lembro dele com gratidão, pois permitiu que
eu saísse como um homem e mantivesse meus vínculos de amizade com os
missionários. Foi dele a última recordação fortemente positiva que guardei ao deixar a Congregação.
Ao chegar em Fortaleza não posso dizer que imediatamente me
senti feliz, contudo um inegável alívio tomou conta de mim. Comecei a plantar
árvores frutíferas e construir uma casa entre cajueiros, coqueiros e
mangueiras. A nossa chácara, denominada Quinta do Pomar, fez-me um enorme bem e
com o tempo incorporei o meu passado missionário à minha história atual e só
tenho a agradecer por ter vivido o que vivi, pois os fatos positivos são muito
maiores do que aquilo que foi negativo. Agora lembro com gratidão e saudade
tanta gente que conheci nos três continentes: Europa, África e América do Sul.
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