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quarta-feira, 27 de março de 2013

O Órfão

Chovia sobre a cidade, noite escura com o fornecimento de energia interrompido pela tempestade, e já passara a hora do toque de recolher, comum a todas as cidades afetadas pela guerra. Alguém bate à porta da velha casa do Seminário Menor do Espírito Santo, no Huambo, e pede guarida com uma voz infantil, fraca e chorosa: “Opatele, opatele, kwatiseko!” - Padre, Padre me ajude! Com cautela ela foi entreaberta, pois sempre poderia haver o risco de alguma cilada, e o padre deparou-se com um garotinho pequeno: olhos grandes, roupas rasgadas encharcadas pela chuva, descalço, braços sobre o peito, tremendo de frio. Não havia como negar acolhida àquela criança exausta que já trazia consigo uma história trágica. Providenciamos um prato quente de comida, roupa enxuta e uma cama para dormir. O seu destino ficaria para ser resolvido no dia seguinte, por enquanto deveria ficar conosco.

 Isaac Kapoko, assim se chamava aquele menino, era um sobrevivente! Contou que vira toda a sua família ser trucidada quando a aldeia em que nascera fora invadida. Fugindo à carnificina o menino chegou a uma estrada e conseguiu que os militares de uma coluna de camiões o levassem até Huambo, capital provincial. Lá chegando foi abandonado nas ruas de uma cidade já apinhada de deslocados, onde até a menor esmola era difícil de conseguir. Vagou à toa, perdido e faminto, até que alguém o encaminhou: “vá para a casa dos padres, lá eles lhe darão qualquer coisa.”

Foi o que ele fez e, depois de alimentado, o exausto Isaac dormiu como uma pedra. Enquanto o jovem sacerdote que o acolhera pensava no que fazer com ele, afinal, bem sabia que todos os abrigos de órfãos e crianças perdidas ou separadas da família estavam lotados. As freiras vez ou outra pediam-lhe inclusive para ficar com algum daqueles miúdos! Era complicado, pois qualquer boca a mais já fazia diferença num lugar em que era tão difícil adquirir alimentos.

As expectativas foram confirmadas, ninguém podia ou queria ficar com o Isaac. Consultado, o Pe. Moreira, um português vigário do Bailundo, homem de feição heroica, confirmou a história do menino: a mencionada povoação, uma aldeia protestante, fora riscada do mapa, ela havia sido palco de um dos maiores massacres ocorridos na região do Bailundo, ressaltando que não foram encontrados outros sobreviventes na família do pequeno refugiado.

Quando conheci o Kapoko lembrei-me logo do personagem de um filme mexicano, que eu assistira na infância. Nessa película, o “Marcelino Pão e Vinho”, como o Isaac, vivia em uma comunidade de religiosos sem ocupar institucionalmente lugar algum. Isaac não era um estudante do Seminário Menor ou empregado da casa, mas aos pouquinhos, com seu sorriso enorme e prestimosidade para qualquer trabalho, ia conquistando espaço próprio e a todos nós. Os moradores da casa ficaram sendo a sua família! Embora o Pe. Gaspar fosse o escolhido por ele para ser o seu conselheiro, uma espécie de diretor espiritual, e por quem guardava um enorme respeito.

Isaac foi matriculado na escola e desempenhava algumas pequenas tarefas da nossa casa. Nela foi alimentado, instruído e às vezes disciplinado como toda criança que sai da linha. Aprendeu muita coisa e era atento a tudo o que pudesse nos por em risco. Um dia chegou-se a mim e disse: - “Irmão, em frente à nossa casa há um botijão de gás vazio. É estranho! Será que não é conveniente chamar a polícia para retirá-lo, poderia ser uma bomba!” Aceitei o conselho, telefonei e os guardas vieram retirar o recipiente de aspecto ameaçador. Havia algo dentro dele!? Acredito que não, mas até hoje estou por saber com certeza. Entretanto, registrei na mente o interesse do garoto!

Ele crescia rápido, certo dia um estudante mais velho chegou a mim e disse que o Isaac não tinha sido ainda circuncidado, conforme o costume do seu povo, e que por isso se sentia inferiorizado em relação aos outros estudantes. Como eu não entendia nada do assunto procurei informar-me sobre o assunto com algumas pessoas respeitáveis. Finalmente com relutância concordei, desde que fizesse a microcirurgia com um médico ou enfermeiro do hospital para evitar alguma infecção.

Isaac era muito observador, particularmente em tudo o que se referia à mecânica e à eletricidade. Entre nós, ele cresceu, transformou-se em um rapaz forte, aprendeu uma profissão digna e finalmente casou e constituiu família. Hoje é um cidadão pacífico e trabalhador na Angola que surgiu após o final da guerra.



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