O sítio está mergulhado no
silêncio. A cozinheira já terminou de limpar a cozinha e conversa
baixinho com outros empregados, sentados à sombra das mangueiras. São
duas majestosas mangueiras que cobrem de sombra o oitão oeste da casa.
Não se sabe ao certo a idades das mangueiras do sítio, mas Seo Zé
Paulino, o antigo proprietário, que beira os noventa, conta que quando
criança já brincava embaixo dessas velhas árvores e garante que elas já
eram desse porte.
Do
lado nascente, Don'Ana dorme na varanda em sua rede cor-de-rosa. Mais
parece um hibisco que abriga em seu seio uma abelhinha, ou quem sabe uma
abelha rainha. É... talvez seja mesmo uma abelha rainha, que cansada de
sua labuta dorme mansamente. Todos no sítio sabem que é um sono curto,
muito leve, e que é preciso parar toda atividade para que ela consiga
dormir. É nessa hora meridiana, a hora da sesta, que o sítio revela toda
a sua essência, a sua capacidade regeneradora das energias perdidas.
Parece
que se volta à infância e que a varanda não é mais a varanda, e sim o
alpendre; o sítio não é mais a Quinta do Pomar, mas a Fazenda Traviata,
onde Don'Ana nasceu e onde o descanso depois do almoço era uma lei. Quem
conheceu a Traviata, nos seus áureos tempos, no tempo do Major Horácio
Falcão e da Dona Selvina, sabe que lá, como na Quinta do Pomar, a vida
parecia mais leve. Não é por acaso que os hóspedes do sítio, geralmente
pessoas da família ou amigos de infância da dona da casa, fazem esse
paralelo transpondo a distância temporal de dezenas de anos entre a
Traviata e a Quinta do Pomar.
As
lembranças afluem ou são evocadas nas embaladas conversas da varanda,
onde cada balanço de rede, cada rangido de armador reforça esse clima de
recordação. O sofá de cipó-de-fogo, de almofadas floridas, bem ao gosto
de Don'Ana e com almofadas apenas nos acentos (para não aquecer as
costas), permanece desprezado, reduzido a simples objeto de decoração. O
que todos preferem é o suave balanço das redes, num vai-e-vem
constante.
É
também nesse ritmo que é rezado o terço do rosário, que Don'Ana puxa a
cada noite, na varanda, em companhia dos, eventuais hóspedes e
empregados. É um terço longo, com todos os mistérios encomendados e
oferecidos na intenção de alguém ou de alguma causa. Ora são os netos
que precisam ser aprovados no exame vestibular para a universidade, ora é
a saúde de um membro da família que não anda bem. Por vezes , é a
notícia de alguma desavença entre entes queridos, que a faz pedir que a
paz e a harmonia voltem a reinar na família. Don'Ana pede com as mãos
levantadas para o alto.
Nesses
momentos, impressiona a sua fé. Parece que ela está em sintonia direta
com Deus. Pede pelos que já morreram, e que não são poucos, e pelos que
estão vivos. E pede saúde, pois ainda tem muita vontade de viver, de
festejar com imensa alegria cada bisneto que nasce, de fazer planos e
comemorar com festas as datas importantes. Don'Ana é assim! Uma mulher
de muita fé e que aos oitenta e três anos (quase oitenta e quatro!),
revela uma imensa confiança de que Deus continua a ouvi-la.
Este
texto foi escrito pela minha irmã Izabel onze anos atrás e como costuma
ocorrer na vida as coisas mudam. Algumas amigas queridas como a Hosana
Pires e sua irmã Rosa que sempre nos visitavam já faleceram, também a centenária tia Marita e a prima-irmã Maria José Câncio, e minha mãe
acometida por um acidente cárdio-vascular foi morar no apartamento da
família para melhor receber auxílio médico, em Fortaleza. Entretanto, três de seus filhos continuam a morar na Quinta do Pomar, mantendo a tradição de hospitalidade da sua velha mãe e não há um só dia em que a sua lembrança não
se torne de algum modo presente.
A vida aqui na Quinta do Pomar apresenta um paradoxo: Se por um lado os dias parecem correr lentos e tranquilos, os anos passam velozes!
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