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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Varanda



                                                                            



O sítio está mergulhado no silêncio. A cozinheira já terminou de limpar a cozinha e conversa baixinho com outros empregados, sentados à sombra das mangueiras. São duas majestosas mangueiras que cobrem de sombra o oitão oeste da casa. Não se sabe ao certo a idades das mangueiras do sítio, mas Seo Zé Paulino, o antigo proprietário, que beira os noventa, conta que quando criança já brincava embaixo dessas velhas árvores e garante que elas já eram desse porte.

Do lado nascente, Don'Ana dorme na varanda em sua rede cor-de-rosa. Mais parece um hibisco que abriga em seu seio uma abelhinha, ou quem sabe uma abelha rainha. É... talvez seja mesmo uma abelha rainha, que cansada de sua labuta dorme mansamente. Todos no sítio sabem que é um sono curto, muito leve, e que é preciso parar toda atividade para que ela consiga dormir. É nessa hora meridiana, a hora da sesta, que o sítio revela toda a sua essência, a sua capacidade regeneradora das energias perdidas.

Parece que se volta à infância e que a varanda não é mais a varanda, e sim o alpendre; o sítio não é mais a Quinta do Pomar, mas a Fazenda Traviata, onde Don'Ana nasceu e onde o descanso depois do almoço era uma lei. Quem conheceu a Traviata, nos seus áureos tempos, no tempo do Major Horácio Falcão e da Dona Selvina, sabe que lá, como na Quinta do Pomar, a vida parecia mais leve. Não é por acaso que os hóspedes do sítio, geralmente pessoas da família ou amigos de infância da dona da casa, fazem esse paralelo transpondo a distância temporal de dezenas de anos entre a Traviata e a Quinta do Pomar.

As lembranças afluem ou são evocadas nas embaladas conversas da varanda, onde cada balanço de rede, cada rangido de armador reforça esse clima de recordação. O sofá de cipó-de-fogo, de almofadas floridas, bem ao gosto de Don'Ana e com almofadas apenas nos acentos (para não aquecer as costas), permanece desprezado, reduzido a simples objeto de decoração. O que todos preferem é o suave balanço das redes, num vai-e-vem constante.

É também nesse ritmo que é rezado o terço do rosário, que Don'Ana puxa a cada noite, na varanda, em companhia dos, eventuais hóspedes e empregados. É um terço longo, com todos os mistérios encomendados e oferecidos na intenção de alguém ou de alguma causa. Ora são os netos que precisam ser aprovados no exame vestibular para a universidade, ora é a saúde de um membro da família que não anda bem. Por vezes , é a notícia de alguma desavença entre entes queridos, que a faz pedir que a paz e a harmonia voltem a reinar na família. Don'Ana pede com as mãos levantadas para o alto.

Nesses momentos, impressiona a sua fé. Parece que ela está em sintonia direta com Deus. Pede pelos que já morreram, e que não são poucos, e pelos que estão vivos. E pede saúde, pois ainda tem muita vontade de viver, de festejar com imensa alegria cada bisneto que nasce, de fazer planos e comemorar com festas as datas importantes. Don'Ana é assim! Uma mulher de muita fé e que aos oitenta e três anos (quase oitenta e quatro!), revela uma imensa confiança de que Deus continua a ouvi-la.

Este texto foi escrito pela minha irmã Izabel onze anos atrás e como costuma ocorrer na vida as coisas mudam. Algumas amigas queridas como a Hosana Pires e sua irmã Rosa que sempre nos visitavam já faleceram, também a centenária tia Marita e a prima-irmã Maria José Câncio, e minha mãe acometida por um acidente cárdio-vascular foi morar no apartamento da família para melhor receber auxílio médico, em  Fortaleza. Entretanto, três de seus filhos continuam a morar na Quinta do Pomar, mantendo a tradição de hospitalidade da sua velha mãe e não há um só dia em que a sua lembrança não se torne de algum modo presente.


                                                                                                                                                                             

Um comentário:

  1. A vida aqui na Quinta do Pomar apresenta um paradoxo: Se por um lado os dias parecem correr lentos e tranquilos, os anos passam velozes!

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