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domingo, 5 de julho de 2020

O Herdeiro da Esperança

Numa austera e grande sala do palácio papal, na Cidade Eterna, dois homens entretinham uma conversa em tom baixo e contido, o que para os altos funcionários e clérigos da Cúria Romana que transitavam constantemente diante da porta da sala era um motivo de curiosidade. Primeiramente pelo contraste entre eles, o primeiro um ancião que fora um atleta na juventude mas que o tempo já alquebrara, mostrava os cabelos muito brancos e expressão interessada, o outro, um homem maduro mas ainda jovem, na plenitude da força e tipo mediterrânico, olhava-o com respeito e emoção. Em segundo lugar pelo incomum tempo decorrido naquela conversa e que possivelmente estaria a atrasar outros compromissos do Santo Padre que tinha uma agenda sempre sobrecarregada, ademais para eles qualquer quebra da rotina era motivo de preocupação! Naquele diálogo usualmente tão improvável estavam frente a frente o Pontífice Máximo da Igreja Católica Romana e um rabino jovem de Israel que despontava como esperança de uma renovação no pensamento judaico e sua comunicação com um mundo tão distanciado das coisas de Deus! Contou brevemente ao papa que vivia nos subúrbios de Jerusalém, tinha uma esposa carinhosa e cinco filhos e falou sobre suas pesquisas de arqueologia na Universidade Hebraica onde lecionava! Além dos estudos de exegese bíblica e um ensaio que preparava  sobre o Talmud da Babilônia!
O homem mais novo era o que mais falava e transportou espiritualmente o ancião a uma das épocas mais difíceis da sua Polônia natal! Falavam sobre fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial e o rabi de Israel discorria sobre a história de uma jovem mulher cujo único crime para os seus algozes era ser israelita. O seu relato iniciou-se quando ela chegou quase no fim da tarde a uma casa camponesa na região de Cracóvia, sul da Polônia. Ela levava nos braços o seu maior tesouro, o seu menino com apenas dois meses de nascido. A angústia a devastava entretanto o amor ao filho a mantinha de pé. 
A judia chegou diante de  uma velha casa, bateu à porta, e esperou a chegada  da pessoa em quem depositava tanta esperança - Maria,  a dona da casa -, que geria sozinha a sua pequena fazenda, já que o marido tendo perdido uma perna durante os primeiros combates da invasão alemã fora em busca de trabalho no norte do país.
Maria recebeu Rivka com surpresa e um caloroso abraço, notando porém  sinais de fome e cansaço na recém-chegada logo ofereceu-lhe pão, leite quente e queijo numa boa mostra da hospitalidade camponesa. Conheciam-se desde os bons tempos da paz pois a pequena fazendeira costumava vender legumes, ovos  e leite na casa da abastada família sefardita de um médico famoso do Hospital Infantil São Luís, em Cracóvia, e sua filha mais nova sempre a recebia com simpatia e acolhimento. Agora a situação se invertera  e era a outra que precisava ser ouvida e se possível atendida.
A visitante finalmente disse o motivo da inesperada visita.
— Maria, posso chamar-te de amiga?
A outra sorriu e apertou-lhe a mão num gesto cálido que encheu Rivka de esperança. E continuou:
— Meu pai faz parte do Conselho Judaico e ajuda na administração da nossa comunidade. Ele é um homem bem informado e veio a saber  por oficiais alemães das tropas de ocupação que todos os israelitas da região serão deslocados para zonas delimitadas da cidade, chamadas guetos, adiantando que as condições de vida dos judeus deverão piorar severamente, tendo acrescentado também que as deportações iriam se intensificar trazendo medo e incertezas para todos. Após essa introdução, Rivka completou:
— Temo pela segurança do meu único tesouro, o pequeno Ari, e ponho a luz da minha vida nas tuas mãos. A sabedoria dos nossos pais ensina que “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Eu sei que o meu pedido é algo muito difícil de ser atendido pois implica riscos terríveis para quem esconde judeus mas imploro de coração que fiques com o meu filho até as condições melhorarem e eu possa voltar para recebê-lo. Sei o quanto é difícil atender este meu pedido e se é difícil para ti, podes então calcular o quanto é sofrido para mim propor o afastamento do meu filho! Mas neste momento, garantir a vida dele para mim é mais importante do que qualquer outra coisa.
Maria olhou para a angustiada mãe e para a bela criança, cujos olhos inteligentes a conquistaram para sempre, e ela sentiu que não poderia se furtar àquele dever que Deus ou o destino puseram à sua porta!
Prometeu a Rivka cuidar daquele menino como se fosse seu próprio filho e recebeu os documentos de identidade de Ari e alguns retratos dos pais e avós, bem como uma lembrança dela e do marido para um dia ser entregue a ele - uma estrela de seis pontas - a “Hamagen” do rei David, em prata! Maria deveria colocar aqueles papéis e objetos dentro de um frasco de vidro e enterrá-lo em lugar secreto para um dia serem entregues ao menino em caso da morte dos pais.
A jovem judia pôs a criança nos braços de Maria e despediu-se, pois deveria chegar a sua casa antes do toque de recolher. Apressou o passo e não olhou para trás com medo talvez  de perder a coragem, regressou sozinha para a escuridão da estrada que estava condizendo com o seu estado de espírito! Foi o último encontro das duas mulheres!
A camponesa cuidou de Ari com muito carinho juntamente com as duas crianças que tivera do seu casamento e sua presença amenizou a perda do marido que jamais retornou! Com o fim do conflito confirmou-se que nenhum dos parentes próximos de Ari sobrevivera à shoah, que exterminara milhões de judeus! Porém Maria estava diante de um nova situação, de um lado o medo de perder aquele menino tão querido e de outro a vontade irrefreável de batizá-lo na fé católica e assumir oficialmente a criança como filho! 
Diante de tantas interrogações e poucas respostas Maria decidiu ir à casa paroquial conversar com o jovem pároco recém-ordenado! Expôs-lhe a situação e pediu o batismo para aquele menino que Deus lhe dera!
O padre, para sua surpresa, opôs-se firmemente à sua pretensão e ao notar sinais de desobediência ameaçou-a com sanções canônicas! E foi bem claro:
— Este menino pertence ao povo de Israel que já perdeu um número incontável de crianças! Será um pecado terrível retirá-lo deles! Maria eu a proíbo terminantemente de tentar permanecer com o Ari! Reze e veja que deve completar o seu importante papel na vida dele quando entregá-lo à Agência Judaica, que percorre os escombros de toda a Europa procurando crianças judias que sobreviveram ao holocausto. Maria voltou para sua casa arrasada e chorou muito mas terminou por submeter-se à orientação do pároco.
O sacerdote logo entrou em contacto com os agentes da resistência judaica e passado pouco tempo eles vieram buscar o garotinho para levá-lo a Israel.
Finalmente o rabino concluiu: “ aquele padre era o senhor e o menino era eu!” 
                    
                               
   

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