No mês passado, após regressar de uma viagem a Mato Grosso, fui surpreendido por um convite para ir ao batismo do meu sobrinho Kenzo Mori, um inteligente e vivaz "japonesinho" com três anos de idade. Confesso que relutei. Afinal os pais do garoto não têm vivência de igreja e eu temia ir a um tipo de "teatro religioso", como eu já vi tantos, principalmente em solenidades de casamento. Além disso, tinha mais um motivo para vacilar: "não gosto de viagens de avião", ou dizendo melhor, "gosto mas tenho medo de viagem aérea".
Porém, tanto os padrinhos como os pais, Tiemi e Guilherme, são pessoas pelas quais tenho um especial carinho, sem falar do garoto. Assim, nesse clima de dúvida, manifestei as ressalvas à minha irmã caçula, Graziela, e fui surpreendido por suas palavras: "Pedro venha! Deus tem os seus próprios critérios de julgamento, que não coincidem necessariamente com os seus".
A mensagem foi curta e direta, assim criei coragem e comprei uma passagem Fortaleza-Brasília. Adquiri outra para a Dira - cuidadora da minha mãe –, que enviuvara recentemente. Ela trabalha há mais de trinta anos na nossa família e estava precisando de algo como um passeio-prêmio para levantar o espírito, abatido após a partida do companheiro. Também minha sobrinha Juliana, possuidora do dom da culinária, viajou conosco para ajudar na festa. Enchemos duas grandes caixas de isopor (poliestireno) com peixe fresco do mar - pargo, arraia - e camarão e fomos para o aeroporto.
Foi uma alegria chegar na bonita e hospitaleira casa da minha irmã Izabel, avó do Kenzo, e no dia seguinte estávamos todos prontos para ir à Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, onde haveria o batismo das crianças daquele bairro do Lago Sul. A igreja me surpreendeu pela sua beleza! Um templo moderno e cheio de luz! O pároco, Pe. Godwin, é um nigeriano carismático, irradiando simpatia, e que, mesmo vindo de uma cultura tão distinta, soube conquistar a comunidade com aquela espontaneidade tão africana.
A cerimônia foi alegre e acolhedora com todas aquelas crianças presentes! O Kenzo me surpreendeu, estava atento e feliz, quando o sacerdote levantou-o bem alto para apresentá-lo aos paroquianos o menino sorriu satisfeito. Depois que o padre aplicou o óleo santo no seu corpo ele indagou o significado daquele gesto e o celebrante, que já tinha passado por ele, voltou e explicou-lhe o sentido do sinal sacramental. À saída , o garotinho voltou-se para os primos Hiroshi e Hideki e disse bem alto "agora eu sou batizado, eu tenho a força de Deus"! Só aquilo me fez ver o quanto eu teria perdido se não tivesse vindo àquele batismo.
Chegamos em casa e fomos para o jardim, as mesas colocadas na varanda e numa plataforma de pedra voltada para o lago Paranoá com uma bela vista: uma grande espelho de água, pássaros pairando no céu azul e a cidade ao fundo, destacando-se a torre dupla do Congresso Nacional.
Foi a hora de encontrar amigos e parentes que fazia tempo eu não via, alguns muito especiais. Em primeiro lugar a Ambrosina, irmã do dono da casa, mostrando a fisionomia abatida por uma severa doença mas trazendo consigo raça e coragem. Como guerreira que é, fez questão de estar ali junto aos rebentos mais novos da família. Afinal tratava-se de mostrar o caminho e deixar claro a importância daquela reunião. Que exemplo!
Vieram também o Hugo, Marisa e família, que há tanto tempo convivem conosco, em todos os bons e maus momentos, que já nem sabemos onde termina o sentimento de amizade e começa o amor fraterno. Outros amigos, mais novos é verdade, contribuíram com a sua presença. Destaco as mulheres da família Mori e os homens afortunados que com elas se casaram.Chamou a atenção, naquela festa, o traço oriental daquelas nisseis, tão bonitas e delicadas! Ponho em relevo a beleza espiritual da Hitomi, coluna forte da Igreja Evangélica de Brasília. Finalmente, a Graça Falcão, a prima que foi também amiga de infância e continua nossa companheira na maturidade. Mas vou parar por aqui pois temo cometer injustiça com tantos que vou deixar de citar, mas não de esquecer.
Aí foi a hora de chegarem os pratos da culinária praiana do Ceará, delícias de deixar água na boca: moqueca de arraia, peixada cearense e peixe ao molho de camarão. Enfim o tempo correu leve naquela tarde feliz e sentimos que os nossos laços de família e amizade foram fortalecidos. Obrigado Kenzo Mori Wanderley, porque por seu intermédio, naquele dia abençoado, com certeza ficamos todos um pouquinho mais perto de Deus.
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