Após o meu retorno da
missão no exterior, depois de uma tentativa longa e frustrada para
adaptar-me à vida missionária no meu país e de um tempo sofrido de
discernimento resolvi formalizar o meu pedido de saída da minha
querida congregação. Além dos problemas de adaptação, que eu já
estava somatizando e que começaram a afetar a minha saúde, havia
apelos familiares não explicitamente formulados que eu não poderia
deixar sem resposta. Enfim, eu precisava "juntar os cacos da
minha vida" pois me sentia como alguém que estava se separando
de algo muito amado e que necessitava "virar a página"
para encontrar novos motivos para ser feliz e produzir. Isso não era
nada fácil para um homem da meia-idade como eu, afinal saíra da
congregação mas a congregação não saíra de mim. Eu não me
sentia preparado para enfrentar o mercado de trabalho.
Logo ao chegar em casa,
comecei a tentar melhorar a situação da minha mãe enferma,
adquirindo um carro e um apartamento, e a amparar um irmão que
perdera o rumo. Mas, e eu? Como ficava a minha situação
profissional? Quem me garantiria uma aposentadoria digna? Quando as
pessoas me perguntavam: -- Em que o senhor trabalha? Eu via ou
julgava ver nos seus rostos o desgosto diante da resposta: -- Estou
desempregado. Quase que lhes via na face o pensamento que guardavam
consigo: "Esse velho cinquentão desempregado, pobre fracassado,
nem merece atenção." Sabia que para eles era como se tudo o
que eu fizera antes na vida nada mais valesse, pois terminara em
fracasso, e o que eu agora representava não tinha importância
alguma. Era angustiante e humilhante!
Comecei a procurar uma
saída, mas não era fácil encontrá-la! Conseguir trabalho novo aos
cinquenta anos, no Brasil, nós todos sabemos, é quase impossível.
Poderia talvez fazer um concurso na área jurídica, porém o meu
conhecimento estava bastante defasado após décadas sem ler ou
estudar a ciência do Direito. Sem contar que eu não gostaria de
voltar ao passado, pois teria que fazer um novo curso jurídico e não
tinha mais tempo, dinheiro ou disposição para tal.
Nas minhas preces ao
Senhor eu implorava para que pelo menos mandasse a mim "um
cavalo selado", ou seja: uma última oportunidade oferecida a
alguém e que não poderia ser desprezada, pois não haveria outra na
vida. Para não perder essa chance, eu deveria, sem vacilação e
com rapidez, pular na sela, segurar as rédeas da minha vida e
galopar em frente!
E foi assim que me
surgiu à frente um edital de um concurso público com um programa
bastante amplo e difícil, mas que tinha a vantagem de ser
dificultoso também para os meus concorrentes. Resolvi inscrever-me
sem dizer nada a ninguém e, no dia marcado, cheguei para fazer as
provas no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, casarão com três
andares de salas em volta de um grande pátio, situado no bairro de
Jacarecanga. Em todo o Brasil havia treze mil inscritos nesse
concurso, disputando cerca de cem vagas. Olhando para os meus
concorrentes, centenas deles, ali naquele colégio, cheguei a
desanimar. Afinal quase todos eles eram tão jovens, com as mentes
tão frescas! Eu me senti gasto e solitário! Mas pensei -- "Afinal
Pedro! Quem além de Deus sabe que tu estás aqui?" Recobrei o
ânimo e aceitei o desafio, Não era hora para ter medo.
As provas, eu as achei
estimulantes e em poucos dias a aprovação no concurso me chegou
como uma grata surpresa. Quase nem acreditava naquele presente! Era
uma esperança, uma luz no fundo do túnel! Havia, porém, algumas
providências a tomar. A primeira delas era conversar com a minha
mãe, dizer-lhe que havia sido aprovado no concurso mas que precisava
fazer o curso de formação de cinco meses na capital federal,
Brasília. Tinha dúvidas sobre a sua aceitação daquela viagem. A
minha chegada lhe dera tanto conforto e agora eu já teria que partir
novamente. Além disso ela fôra acometida naquela época de um
câncer e estava bastante fragilizada. Entretanto Dona Lola, como
sempre foi o seu feitio, reagiu muito positivamente, insistindo para
que eu fôsse a Brasília. Disse-me que permaneceria bem e ficaria
rezando por mim. Foi uma lição de coragem recebida antes daquela
viagem.
Parti e encarei a luta,
afinal só havia uma vaga no concurso para Fortaleza, a minha cidade. Esse
lugar não seria conquistado sem muito esforço, pois tratava-se de
uma capital regional muito procurada pelos candidatos a empregos por
suas belezas naturais e clima saudável. As minhas notas nas diversas
disciplinas é que definiriam a minha vinda ou não para a capital
cearense. Eu precisava daquela vaga para poder dar assistência à
minha mãe e irmãos.Uma outra cidade não era hipótese viável a
ser aceita por mim.
Chegado em Brasília,
mergulhei nos estudos, que todos os dias entravam pela madrugada, era
um esforço sem descanso. Estava concorrendo com jovens muito
inteligentes, com a memória muito viva e "a minha nem tanto
assim!" Eu, para competir em igualdade, precisava estudar mais
do que aqueles meninos. Portanto eu dormia o mínimo indispensável e
acordava muito cedo, entre quatro e cinco horas para nadar e fazer
caminhada. Pois de outro modo não suportaria a sobrecarga das aulas
que duravam o dia inteiro, complementadas às vezes com atividades
noturnas.
Entre os diversos
desafios do curso incluía-se até o tiro ao alvo, mas houve um que
se destacou pelo grau de dificuldade: todos nós deveríamos estudar
e fazer uma prova final em uma nova língua, sobre a qual não tivéssemos qualquer conhecimento. Tínhamos então de optar entre o russo, o árabe e o
hebraico moderno.
Escolhi o último
idioma e foi essa escolha que definiu a minha vitória - a vinda para
a terra natal. Consegui tirar a nota máxima na língua de Israel e
logrei superar o meu mais próximo concorrente, que ficou meio ponto
abaixo na prova da língua russa por ele escolhida. Mas não foi
fácil! Tive que aprender um alfabeto completamente diferente.
Aprender a ler da direita para a esquerda. Compreender as palavras
sem o uso de vogais escritas, apenas as consoantes. Mas mesmo assim
foi gratificante, pois
tratava-se da língua da Bíblia e dos profetas.
Voltei para Fortaleza
exausto do esforço, mas feliz e com a sensação do dever cumprido.
Logo depois da minha chegada fui à praia e nas ondas do nosso mar
agradeci a Deus e lá deixei todo aquele sofrimento, insegurança e
fadiga.
Seu sobrinho Breno tem visão,tantas histórias exemplares, não devem ficar só na linguagem falada.
ResponderExcluirBelo texto primo.Aguardo o próximo!
Obrigado Socorro, finalmente até eu tenho gostado de escrever. Fiquei surpreso com isso.
ResponderExcluirPassei a gostar do hebraico moderno, se não fosse ele, provavelmene, não teria tido a oportunidade de conviver com um profissional de tão.elevado quilate
ResponderExcluirA certeza que tenho Mourão é que se fosse outra língua talvez eu não teria o mesmo empenho que tive em estudar o hebraico.
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