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quarta-feira, 6 de março de 2013

O Cavalo Passou Selado

Após o meu retorno da missão no exterior, depois de uma tentativa longa e frustrada para adaptar-me à vida missionária no meu país e de um tempo sofrido de discernimento resolvi formalizar o meu pedido de saída da minha querida congregação. Além dos problemas de adaptação, que eu já estava somatizando e que começaram a afetar a minha saúde, havia apelos familiares não explicitamente formulados que eu não poderia deixar sem resposta. Enfim, eu precisava "juntar os cacos da minha vida" pois me sentia como alguém que estava se separando de algo muito amado e que necessitava "virar a página" para encontrar novos motivos para ser feliz e produzir. Isso não era nada fácil para um homem da meia-idade como eu, afinal saíra da congregação mas a congregação não saíra de mim. Eu não me sentia preparado para enfrentar o mercado de trabalho.
Logo ao chegar em casa, comecei a tentar melhorar a situação da minha mãe enferma, adquirindo um carro e um apartamento, e a amparar um irmão que perdera o rumo. Mas, e eu? Como ficava a minha situação profissional? Quem me garantiria uma aposentadoria digna? Quando as pessoas me perguntavam: -- Em que o senhor trabalha? Eu via ou julgava ver nos seus rostos o desgosto diante da resposta: -- Estou desempregado. Quase que lhes via na face o pensamento que guardavam consigo: "Esse velho cinquentão desempregado, pobre fracassado, nem merece atenção." Sabia que para eles era como se tudo o que eu fizera antes na vida nada mais valesse, pois terminara em fracasso, e o que eu agora representava não tinha importância alguma. Era angustiante e humilhante!
Comecei a procurar uma saída, mas não era fácil encontrá-la! Conseguir trabalho novo aos cinquenta anos, no Brasil, nós todos sabemos, é quase impossível. Poderia talvez fazer um concurso na área jurídica, porém o meu conhecimento estava bastante defasado após décadas sem ler ou estudar a ciência do Direito. Sem contar que eu não gostaria de voltar ao passado, pois teria que fazer um novo curso jurídico e não tinha mais tempo, dinheiro ou disposição para tal.
Nas minhas preces ao Senhor eu implorava para que pelo menos mandasse a mim "um cavalo selado", ou seja: uma última oportunidade oferecida a alguém e que não poderia ser desprezada, pois não haveria outra na vida. Para não perder essa chance, eu deveria, sem vacilação e com rapidez, pular na sela, segurar as rédeas da minha vida e galopar em frente!
E foi assim que me surgiu à frente um edital de um concurso público com um programa bastante amplo e difícil, mas que tinha a vantagem de ser dificultoso também para os meus concorrentes. Resolvi inscrever-me sem dizer nada a ninguém e, no dia marcado, cheguei para fazer as provas no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, casarão com três andares de salas em volta de um grande pátio, situado no bairro de Jacarecanga. Em todo o Brasil havia treze mil inscritos nesse concurso, disputando cerca de cem vagas. Olhando para os meus concorrentes, centenas deles, ali naquele colégio, cheguei a desanimar. Afinal quase todos eles eram tão jovens, com as mentes tão frescas! Eu me senti gasto e solitário! Mas pensei -- "Afinal Pedro! Quem além de Deus sabe que tu estás aqui?" Recobrei o ânimo e aceitei o desafio, Não era hora para ter medo.     
As provas, eu as achei estimulantes e em poucos dias a aprovação no concurso me chegou como uma grata surpresa. Quase nem acreditava naquele presente! Era uma esperança, uma luz no fundo do túnel! Havia, porém, algumas providências a tomar. A primeira delas era conversar com a minha mãe, dizer-lhe que havia sido aprovado no concurso mas que precisava fazer o curso de formação de cinco meses na capital federal, Brasília. Tinha dúvidas sobre a sua aceitação daquela viagem. A minha chegada lhe dera tanto conforto e agora eu já teria que partir novamente. Além disso ela fôra acometida naquela época de um câncer e estava bastante fragilizada. Entretanto Dona Lola, como sempre foi o seu feitio, reagiu muito positivamente, insistindo para que eu fôsse a Brasília. Disse-me que permaneceria bem e ficaria rezando por mim. Foi uma lição de coragem recebida antes daquela viagem.
Parti e encarei a luta, afinal só havia uma vaga no concurso para Fortaleza, a minha cidade. Esse lugar não seria conquistado sem muito esforço, pois tratava-se de uma capital regional muito procurada pelos candidatos a empregos por suas belezas naturais e clima saudável. As minhas notas nas diversas disciplinas é que definiriam a minha vinda ou não para a capital cearense. Eu precisava daquela vaga para poder dar assistência à minha mãe e irmãos.Uma outra cidade não era hipótese viável a ser aceita por mim.
Chegado em Brasília, mergulhei nos estudos, que todos os dias entravam pela madrugada, era um esforço sem descanso. Estava concorrendo com jovens muito inteligentes, com a memória muito viva e "a minha nem tanto assim!" Eu, para competir em igualdade, precisava estudar mais do que aqueles meninos. Portanto eu dormia o mínimo indispensável e acordava muito cedo, entre quatro e cinco horas para nadar e fazer caminhada. Pois de outro modo não suportaria a sobrecarga das aulas que duravam o dia inteiro, complementadas às vezes com atividades noturnas.
Entre os diversos desafios do curso incluía-se até o tiro ao alvo, mas houve um que se destacou pelo grau de dificuldade: todos nós deveríamos estudar e fazer uma prova final em uma nova língua, sobre a qual não tivéssemos qualquer conhecimento. Tínhamos então de optar entre o russo, o árabe e o hebraico moderno.
Escolhi o último idioma e foi essa escolha que definiu a minha vitória - a vinda para a terra natal. Consegui tirar a nota máxima na língua de Israel e logrei superar o meu mais próximo concorrente, que ficou meio ponto abaixo na prova da língua russa por ele escolhida. Mas não foi fácil! Tive que aprender um alfabeto completamente diferente. Aprender a ler da direita para a esquerda. Compreender as palavras sem o uso de vogais escritas, apenas as consoantes. Mas mesmo assim foi gratificante, pois tratava-se da língua da Bíblia e dos profetas.
Voltei para Fortaleza exausto do esforço, mas feliz e com a sensação do dever cumprido. Logo depois da minha chegada fui à praia e nas ondas do nosso mar agradeci a Deus e lá deixei todo aquele sofrimento, insegurança e fadiga.


4 comentários:

  1. Seu sobrinho Breno tem visão,tantas histórias exemplares, não devem ficar só na linguagem falada.
    Belo texto primo.Aguardo o próximo!

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  2. Obrigado Socorro, finalmente até eu tenho gostado de escrever. Fiquei surpreso com isso.

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  3. Passei a gostar do hebraico moderno, se não fosse ele, provavelmene, não teria tido a oportunidade de conviver com um profissional de tão.elevado quilate

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  4. A certeza que tenho Mourão é que se fosse outra língua talvez eu não teria o mesmo empenho que tive em estudar o hebraico.

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