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segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Panela de Sopa

Pessoas há que cruzam conosco na vida e nos deixam uma impressão que não se apaga. Para mim, uma delas foi o Padre Schumacher. Quando o conheci ele já era maduro, um alemão forte e alto com um vozeirão de barítono e uma presença impactante. Gostava de cantar velhas canções em russo, daquelas dolentes que mexem com as cordas do coração. Trabalhava em Salete, uma pequena cidade do sul do Brasil, habitada principalmente por filhos de imigrantes alemães, italianos e polacos.


Na década de setenta eu tinha ido passar um ano do meu noviciado à vida religiosa em uma bela casa de retiros situada no alto de um morro com uma bela vista para a cidade. Na época, estávamos no auge da confrontação ideológica da guerra fria e a União Soviética para uns era símbolo da esperança por um mundo novo e para outros um sinal ameaçador de escravidão e falta de liberdade.

Levávamos uma vida isolada, mas certo dia recebemos a visita do prefeito acompanhado de algumas pessoas importantes de Salete.  Após conhecerem a casa sentamos na sala e a conversação derivou naturalmente para o perigo do comunismo russo, que na opinião da maioria " tentava dominar o mundo". Quiseram então ouvir a opinião do Padre Afonso Schumacher, pois sabiam que o mesmo conhecera a Rússia durante o período da invasão alemã àquele país na segunda grande guerra.

O padre antes do conflito era um jovem que se preparava em um seminário religioso para ser um missionário católico e sonhava em trabalhar na África ou na Amazônia Brasileira quando recebeu a temida convocação para apresentar-se às forças armadas e unir-se ao esforço de guerra da pátria no campo de batalha. Não lhe restava, como a tantos milhões de homens, outra opção senão obedecer.

No dia 08 de janeiro de 1943, ele era um jovem soldado dos exércitos alemães, que ao longo de 2.900 quilômetros de fronteira avançaram sobre a Mãe Rússia e, a princípio, quase não encontraram resistência, foram de vitória em vitória. Quando o inverno chegou com o seu frio terrível e com linhas de abastecimento demasiado estendidas a sorte da guerra mudou, vieram as consequentes derrotas até a rendição final.
Os soldados alemães estavam morrendo à míngua, sem combustível, sem alimento e roupa apropriada para enfrentar o frio terrível. E assim, como tantos outros, Schumacher caiu prisioneiro de outros jovens que lutavam para defender o seu país. Viu-se caminhando rumo ao desconhecido naquela fila imensa de vários quilômetros de prisioneiros maltrapilhos, esgotados pela fome e pela derrota, quase sem nenhuma esperança. Os guardas eram muito poucos pois não havia para onde os prisioneiros pudessem fugir, sair da linha significava morrer nas mãos dos camponeses que os odiavam, com justa razão.

Calcula-se que, até o final da Segunda Guerra Mundial, 5,7 milhões de alemães foram capturados pelos soviéticos, sendo que 3,3 milhões morreram, em geral nos primeiros dias do cativeiro. Eles eram obrigados a longas marchas a pé, muitas vezes sob a neve ou sob sol forte, sem roupas apropriadas e alimentos suficientes. Quem caísse no caminho, por doença ou exaustão, era executado.

Chegado ao campo de trabalho, Afonso começou a luta pela sobrevivência, lá o alimento era escasso e de baixa qualidade, dispunham de um tipo de mingau que se jogado à parede nela ficava grudado ou de uma sopa rala de ossos e peles de peixe. Todos as manhãs daquele inverno, dizia ele, via o monte de cadáveres dos companheiros que haviam morrido durante as gélidas noites. O trabalho não era tão pesado, mas qualquer esforço para homens exauridos, mal alimentados e doentes era demasiado esgotante.

Apegou-se à fé na sua luta para sobreviver e, na falta da Bíblia ou de qualquer outro livro, todos confiscados, descobriu na reza do rosário um consolo e um apoio, partilhando essa descoberta com os companheiros. Destarte, fabricou um pequeno mistério do terço com dez bolinhas ressequidas de pão ligadas em um barbante e ensinou seus companheiros de desdita a levantar os olhos para Deus.

Mais de trinta anos depois, Afonso sentado naquela bela sala da casa do Morro da Salete escutava as críticas fortes contra os russos e seu regime, até que foi convidado a opinar. Ficou algum tempo em silêncio, voltando em pensamento àquele terrível ano em que os prisioneiros alemães foram convocados para irem reconstruir as cidades que haviam destruído durante o seu avanço. Recordando o tempo em que, dia após dia, a sua brigada de trabalho dirigia-se para reparar o calçamento de uma cidade semi-arrasada. Falou-nos então como era difícil cavar aquela terra endurecida pelo clima gelado e transportar montanhas de entulho das ruínas com a fome a roer-lhe o estômago. O frio cortante, a alimentação fraca e as pneumonias iam derrubando e matando pouco a pouco os prisioneiros. A esperança de sobreviver diminuía a cada dia!

Então o Padre Schumacher disse algo surpreendente para aquele grupo de visitantes e para nós, os noviços, que o ouvíamos: "o regime comunista pode ser ruim, mas o povo russo é bom"! As palavras inesperadas fizeram calar os visitantes. Então ele continuou dizendo que para ele e os demais prisioneiros alemães não havia saída senão continuar a trabalhar até o limite da exaustão. Mas, em certo dia, quando a esperança parecia haver morrido, o soldado Schumacher começara a acreditar que com aquela alimentação, baseada no que ele chamava de "sopa de espinhas de peixe", não lhe seria possível chegar ao fim do inverno. Foi então que viu algo que lhe chamou a atenção. Observou que, à porta de uma casa meio arruinada, todos os dias postava-se uma mulher russa olhando dissimuladamente para os trabalhadores da brigada. Como estavam sempre atentos a qualquer coisa que pudesse representar ameaça ou ganho na luta pela vida, perguntou-se a si mesmo o que ela poderia querer com aqueles maltrapilhos?!

Ele e um amigo dirigiram-se curiosos à casa sem portas e entraram. A mulher não falou ou acenou, silenciosamente foi para um outro aposento e voltou com uma panela fumegante cheia de uma grossa e rica sopa de batatas e toucinho. Serviram-se ambos com uma tigela cheia. "Oh! Deus! Como aquilo lhes caiu bem!" Schumacher não se lembrava de haver na vida tomado uma sopa tão boa! Saíram reconfortados e aos poucos e disfarçadamente os outros membros do seu grupo de trabalho foram avisados e vieram fortalecer-se com aquele forte alimento. Naquela noite depois de muito tempo tiveram um sono reparador!

Durante o inverno, nos dias  em que o seu grupo trabalhou naquela restauração, a mulher serviu-lhes uma panela de sopa. Aquele espesso e quente caldo permitiu-lhes sobreviver ao inverno cruel e  a receber na primavera a esperada notícia do acordo para a repatriação dos prisioneiros para a Alemanha. Entretanto, eles nunca souberam o nome da sua benfeitora silenciosa, que se arriscava diariamente e poderia ter sido condenada à morte, acusada de confraternização com o inimigo! Afonso gostava de pensar que talvez a russa poderia ter um filho prisioneiro na Alemanha e na sua fé em Deus ela esperasse que uma mulher daquele país inimigo retribuísse e tivesse misericórdia do seu menino.

Pe. Schumacher foi ordenado e enviado às missões no Brasil e disse nunca ter deixado de orar pela Rússia e por aquela misteriosa mulher que lhe salvara a vida e da qual nem o nome ele jamais soube.

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