
No barco que lentamente subia as águas barrentas do rio Purus, deitado em uma rede armada no convés, o Dr. Emílio Sucupira lia “O Alto Purus”, jornal datado de 15 de novembro de 1912, onde estava estampada a notícia do ataque dos índios cunibas à sede do seringal Icaraí, às margens do rio Jutaí, Amazonas, e que resultou na morte do Coronel Cornélio de Chaves e Mello e de sua esposa, além do rapto de cinco meninas, entre cinco e catorze anos, filhas do casal.
O jornal usava expressões fortes e adjetivos sensacionalistas, como: “lastimável obra de canibalismo”, “hedionda cena de selvageria”, “pequenas infelizes nas mãos dos ferozes cunibas” e “nosso coração se contrai amargurado ante esse horror”. Entretanto, notou o leitor, que o texto deixava de dar destaque ao fato de que, dias antes do ataque, quatro índias que trabalhavam na casa do coronel foram por ele fortemente castigadas. A matéria citava ainda o drama de Walder, filho do casal, que estudava em um colégio interno na antiga cidade imperial, Petrópolis, Rio de Janeiro, e lamentava a sorte desse “moço, cedo assim lanceado em seu coração”.
Pela terceira vez Sucupira voltava à região do Purus, depois de doze anos, após ter sido alvo de uma tragédia algo semelhante, quando sua filha de dois anos de idade, Mariana, desaparecera levada para o recesso da mata pelos índios nawas. Relembrou que, naquele dia, ele não se encontrava em casa, na sede do Seringal Desengano, propriedade que naquela época terminara de adquirir e onde depositara tantas esperanças! Ele saíra em uma curta viagem e ao regressar sua mulher, Izabel, contou-lhe em detalhes a tremenda ocorrência.
Sua esposa narrou-lhe que naquele dia a rotina do seringal seguia normal, a maioria dos homens estava trabalhando na mata após retirarem o látex da seringueira, enquanto a família do patrão, conforme o hábito, repousava após o almoço para fugir à hora do maior calor. Quando de repente, como um raio em céu azul, um empregado do seringal entra na casa esbaforido, aos gritos: “depressa, depressa, fujam, os bugres estão chegando”! Dona Izabel levantou-se aturdida da cama e correu para proteger a criança mais nova, que ainda mamava, enquanto berrava pelas empregadas implorando para que a ajudassem a retirar os outros filhos, apanhou o bebê e correu porta afora, não havia um minuto a perder! Ela viu os guerreiros nus e pintados para a guerra aproximando-se rapidamente com as bordunas na mão. Eles estavam tão perto! Em puro pânico, as famílias dos seringueiros e os moradores da casa do patrão, na maioria mulheres, correram e desceram a barranca em direção ao rio para salvar a vida. Realmente o tempo bastou apenas para chegar às canoas amarradas no atracadouro e porem-se a remar o mais depressa possível.
Durante a fuga pelo rio os filhos de Izabel ficaram distribuídos em três ou quatro barcos, mas somente quando os refugiados se reuniram após o desembarque no seringal Remate dos Males foi que a mãe notou a falta da pequena e penúltima filha, Mariana, esquecida na casa abandonada. Quase enlouquecida, entre brados e prantos, Izabel implorou ao proprietário vizinho para que mandasse homens armados recuperar a sua filha, contudo isso não foi considerado prudente pelo seringalista que alegou não haver mais tempo para reunir os seringueiros. A noite já se aproximava e na verdade ele não queria arriscar a vida dos seus rendeiros e parentes numa empreitada tão arriscada, que poderia além disso atrair a animosidade dos índios contra ele e sua propriedade.
No outro dia, pela manhã, uma turma de homens bem armados subiu o rio e encontrou apenas cinzas e ruínas na sede do Seringal Desengano, o qual naquele momento fazia jus ao seu nome. A casa dos patrões, os ranchos dos empregados, a capela, o depósito novo que guardava a seringa processada e o armazém velho que funcionava como venda das mercadorias aos seringueiros, tudo ardera! Enfim, todas as construções eram de madeira e tudo o que havia fora queimado ou saqueado. Foram encontrados também alguns cadáveres e um pequeno número de sobreviventes que se tinha escondido na mata, mas nem sinal da pequenina filha do patrão.
O Dr. Sucupira, logo após o retorno da sua viagem, organizou a primeira expedição de busca à sua menina, percorreu durante dois meses vasta região do Acre, chegando a ingressar em território peruano e nenhum sinal da pequena Mariana foi encontrado. Após esse fracasso e carente de recursos, resolveu levar a família de volta ao Ceará pois o estado de saúde da esposa começara a dar motivo de preocupação. Antes da partida, conversando com pessoas mais velhas e conhecedoras do lugar, soube que o antigo dono do seringal, Simplício Rodrigues, de quem a pouco tempo adquirira a propriedade, fora um feroz perseguidor da tribo nawa. Ao chegar do Nordeste propusera-se a fazer o que chamava de “limpar” o igarapé – pequeno afluente do Purus – afastando os indígenas para poder explorar a seringa sem sobressaltos e vender a borracha aos mercados da Europa e América do Norte. Durante anos o seringalista travou uma guerra sem trégua contra os índios.
A partir da foz do pequeno rio, optou por construir um rancho em todas as voltas do igarapé e em cada morada colocar um colono cearense. Alcunhados de “brabos”, os pobres sertanejos do Ceará nada sabiam sobre a região, nem sobre o destino que os aguardava. Abandonados à sua sorte, os recém-chegados eram colocados sozinhos, apenas com uma espingarda, utensílios para extrair seringa, uma rede de dormir, combustível para uma lamparina e sal. Isolados em meio tão adverso os brabos às vezes eram encontrados loucos quando o patrão vinha recolher o produto do seu trabalho. Contudo o progresso do seringalista era lento, a cada três voltas que Simplício conquistava para o seringal, os índios retornavam e destruíam os ranchos de uma ou duas curvas do rio e matavam ou afugentavam os colonos.
Diante da resistência e do recuo lento daquela nação indígena que se recusava a dobrar-se e a entregar-lhe a sua terra ancestral, Simplício organizou expedições punitivas às aldeias nawas. Os homens comandados por ele chegavam ao amanhecer, quando todos dormiam, cercavam as imensas malocas de palha, onde viviam os silvícolas e abriam fogo, eliminando inclusive mulheres, velhos e crianças. Assim, pensava ele, conseguiria dominar aquela gente irredutível! Até que, durante uma caçada, julgando tratar-se de um índio emboscado, atirou e matou acidentalmente o seu filho mais velho e preferido. Desiludido, vendeu "a preço de banana" tudo o que possuía no Acre e voltou com a família para o sertão de Sobral, Ceará, de onde era originário. Foi-se, mas atrás de si deixou plantadas as sementes do ódio e da violência e o fruto desse trabalho seria colhido pelo seu sucessor.
Sucupira, que a princípio só pensava na injustiça que sofrera pela mão dos nawas, passou também na medida em que o tempo decorria a refletir de modo mais amplo sobre atuações, como as de Simplício, geradoras de outros massacres. As quais eram ignoradas quase totalmente pela imprensa regional ou nacional e mesmo pelas autoridades. Os jornais só destacavam algum incidente do gênero quando havia alguma represália dos nativos que os jornais às vezes chamavam de “indiada selvagem, reacionária à maré civilizadora”.
Assim passaram-se doze anos e, nesse meio tempo, o Dr. Emílio fez algumas viagens à região seguindo pistas da possível localização de Mariana, as quais se revelaram na maioria das vezes falsas. Publicou também anúncios nos jornais de Manaus e Belém prometendo recompensas a qualquer informação útil sobre o paradeiro de sua menina e ficou atento a indícios que alimentassem suas esperanças e principalmente as de sua mulher, dona Izabel. Finalmente, recebeu a informação de que uma moça branca fora vista por índios aculturados em uma maloca de um grupo nawa que se deslocava habitualmente entre a região de “Madre de Dios”, no Peru, e a fronteira brasileira. A informação parecia verdadeira, contudo prometeu a si mesmo que aquela seria a última viagem que faria ao Acre, afinal aquelas idas e vindas representavam um afastamento das suas obrigações familiares e de trabalho, sem contar os perigos que eventualmente passava naquelas regiões selváticas, o desgaste emocional depois de cada esperança frustrada e o forte dispêndio financeiro no custeio daquelas expedições.
A fronteira entre o Brasil e Peru cruzava um vasto território deserto de mata virgem, sendo a fixação da linha demarcadora fruto do trabalho do Barão do Rio Branco, traçada de acordo com o princípio do “uti possidetis”, pelo qual a terra era Brasil até a última casa brasileira e era Peru a partir da primeira casa peruana.
Assim, com um barco cheio de presentes, panelas de metal, machados e facões, para a negociação com o tuxaua da tribo – cacique - e os mantimentos necessários para uma viagem do gênero, Sucupira, acompanhado de guias indígena e alguns homens corajosos e de confiança, chegou à fronteira e rumou para a maloca nawa, cujo chefe fora previamente avisado da sua vinda. Vale esclarecer que, nos últimos anos, aquele grupo aborígene, considerado até então como arredio, vinha se aproximando aos poucos de índios já aculturados, mantendo também contacto com seringueiros, exploradores peruanos do caucho - borracha de qualidade inferior - e caçadores.
A expedição de Sucupira foi bem recebida pelo tuxaua, sendo os visitantes convidados a acampar perto da maloca, onde repartiram mutuamente os suprimentos: a comitiva brasileira trouxe caça e sal e os nativos chegaram com frutas, cereais e legumes da sua roça, além de “caiçuma” - bebida fermentada em grandes panelas de barro com mandioca mastigada pelas mulheres velhas e a adição de frutos silvestres, apresentando uma aparência leitosa e um sabor forte. Enquanto o alimento era servido, bastou um olhar de Emílio para a jovem branca que vivia entre os nawas para reconhecer a sua filha. Ela tinha todos os traços familiares e nem precisava ser feita qualquer pergunta sobre a sua origem! Feliz e emocionado, considerou que a sua busca tinha chegado ao fim.
Durante os três dias em que ali esteve ele pôde conhecer na aldeia um pouco da posição da sua filha, que recebera o suave nome indígena de Ayani, personagem mítica que descobrira o símbolo da pintura tribal, a jiboia. Refletiu que essa escolha talvez tenha ocorrido pelo dom natural que a menina possuía para traçar os belos desenhos da arte indígena, aplicados principalmente na cerâmica e na pele humana. Sucupira reconheceu, não sem um certo desgosto, que ela estava totalmente integrada na aldeia, havendo casado há pouco tempo com um guerreiro nawa.
Ayani era plenamente feliz, fora criada e educada pelo conjunto das mulheres, que representavam juntas o papel de mães das crianças. A sua vivência infantil diária tinha sido de pura liberdade, aprendera a nadar muito cedo e até os sete anos a sua vida consistia em brincar e brincar: subir às árvores, pular dos galhos na água fresca e límpida dos igarapés, colher frutos silvestres e se divertir de esconder com os outros "curumins" - meninos índios. Aos sete anos começara aos poucos a acompanhar as mulheres à roça e a aprender alguns trabalhos de artesanato de palha, pena de pássaro, fabricação da cerâmica e preparação dos alimentos, além de se instruir com os idosos sobre a sabedoria ancestral dos mitos e da integração com a natureza que é transmitida de geração em geração.
Depois de alguns dias e de ter conquistado a confiança do tuxaua, Sucupira explicou o motivo da viagem e pediu autorização para levar a jovem consigo, oferecendo todos os presentes ao chefe, que surpreendentemente compreendeu os motivos do visitante e embora lamentasse, concordou com a partida de Ayani. Mas quando o chefe tribal chamou a moça e explicou-lhe a sua decisão, ela gritou horrorizada, ajoelhou-se e agarrada às pernas do marido implorou para ficar na maloca em uma crise de choro lancinante!
Pesaroso ao contemplar a cena o Dr. Emílio Sucupira compreendeu que aquela jovem, sua filha, era totalmente índia e seria infeliz no sertão nordestino, longe daquela natureza exuberante e daquela cultura tão distinta. Retirada dali ela seria sempre uma triste e estranha mulher, que o culparia por tê-la afastado do seu povo e do seu marido, onde era plenamente feliz. O olhar de horror que ela lhe lançava a todo momento já dizia tudo! O cearense então tomou a decisão que julgou certa, sem mais delongas, despediu-se para sempre da sua filha, abençoou-a e partiu. Ao deixar o Acre, preparou-se interiormente para a difícil conversa que teria com Izabel, pois sabia o quanto era difícil ter de dizer a uma mãe que ela jamais reveria a filha com quem sonhara durante tantos anos!
Nenhum comentário:
Postar um comentário