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quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Noiva

Do oitão da casa grande da fazenda acompanhávamos com interesse a passagem dos Mocororó, família numerosa com pele muito alva e sardenta, cabelos avermelhados, orelhas cabanas, postura tímida, diria mesmo quase amedrontada e uma semelhança física acentuada entre os membros do grupo, herança de sucessivos casamentos consanguíneos. Quando passavam ao lado do sobrado, os homens levantavam a aba do chapéu e cumprimentavam em uníssono a senhora dona da casa: "A bênção dona Selvina". Aos quais a fazendeira suavemente respondia: "Deus te abençoe" ou "Deus te cubra de fortuna e felicidade". As mulheres vestidas à moda antiga, com saias longas feitas do mesmo tecido estampado, e cabelo preso em coque, paravam um pouco para um dedo de prosa ou para tomar um copo d'água fresca de um pote colocado no alpendre do casarão, destinado a saciar os viajantes. Acompanhando a família vinha uma tropa de jumentos carregada com crianças pequenas, mantimento, galinhas, redes de dormir, sacos de feijão e milho para vender na feira, e finalmente os cães de guarda, companheiros inseparáveis do povo da roça.
Os Mocororó eram parentes afastados da proprietária da casa e costumavam parar ali quando vinham em julho à festa da padroeira Sant'Ana, na vila do Pelo Sinal, região do alto sertão cearense. Essa, era a única ocasião em que saíam do socavão de serra em que moravam, apropriadamente chamado de Cafundó. Lá, naquele vale afastado, cultivavam cana de açúcar, mandioca, plantavam muito feijão e milho e criavam vacas, cabras e ovelhas. Durante os festejos assistiam às novenas e aproveitavam a visita do padre para realizarem os casamentos, batizarem os filhos e reverem os amigos. Nessa ocasião compravam artigos de primeira necessidade, medicamentos e pequenos luxos, desde frascos de perfume a óleo de mutamba para amaciar o cabelo, jóias baratas e pentes ornamentais de casco de tartaruga ou chifre para firmar o penteado das mulheres.

Após uma dessas rápidas visitas daquela gente tão curiosa, avó Selvina narrou-nos a história do casamento do seu afilhado Joaquim, o Quincas Mocororó, o qual em certo dia chegou-se à madrinha e pediu um conselho. Ele era um homem trabalhador mas achava-se perto dos quarenta anos e ainda estava solteiro, numa situação que secretamente o afligia. A timidez que o dominava e não conseguia vencer o impedia de aproximar-se das moças, muito menos para falar em namoro! Pediu à fazendeira uma orientação para arranjar uma boa noiva e ela sugeriu que o afilhado observasse as jovens durante a festa e, por prudência, viesse ouvir a sua opinião quando encontrasse aquela que mais o agradasse.

Logo nos primeiros dias da festa, dentro da igreja lotada, ele viu duas moças, filhas do dono de uma venda - pequeno comércio que vendia principalmente alimentos e cachaça. A mais velha, Lídia, não lhe chamou a atenção, pois nela não via sinais aparentes de beleza. Tinha um rosto sereno mas comum, puxando para o meditativo, e olhos castanhos e francos. Já havia passado a idade comum para o casamento, sendo considerada pelo povo uma solteirona, embora tivesse apenas vinte e seis anos. Mas uma das suas principais virtudes era o senso de responsabilidade, pois enquanto o pai entretinha-se no jogo de baralho e no bate-papo com os amigos e a mãe atendia os fregueses ao balcão, Lídia cozinhava, limpava a casa, lavava a roupa e zelava pelos irmãos.

Entretanto, a irmã mais nova, Leolina, vaidosa ao extremo e mimada pelos pais, preferia gastar o tempo na ociosidade. Mas havia que se reconhecer, ela era uma flor de mulher: morena, cintura fina, olhos esverdeados, cabelos cacheados aos ombros e um sorriso brejeiro nos lábios. Enfim, tinha uma faceirice que fez com que o Quincas deixasse de notar qualquer outra moça. Quando a via, o seu coração de homem batia-lhe no peito como se quisesse sair. A escolha da sua noiva já estava feita, para ele era um caso resolvido, precisava apenas criar coragem para ir falar aos pais daquela jovem. 

Ele esqueceu até de ir conversar sobre a escolha feita com sua madrinha, conforme havia prometido. O certo é que antes do final dos dias de festa, bateu à porta do comerciante para pedir a jovem em noivado e manifestar suas corretas intenções de casamento com Leolina. O pai da moça recebeu o pretendente com todas as atenções, afinal a fama de rapaz trabalhador, honesto e amealhador de recursos, era bem conhecida na vila. Muito sagaz, como convém a um negociante, ele aceitou satisfeito o pedido do Quincas, embora ainda houvesse muitos pontos a refletir sobre o assunto! Contudo, fez questão de frisar que não queria namoro à sua porta pois era considerado um homem de respeito e não aceitava o nome da sua filha na boca do povo. 

Assim, ambos formalizaram o noivado e marcaram o casamento para as próximas festas a decorrerem no ano seguinte. Combinaram que Quincas encomendasse um terno de linho branco ao alfaiate da vila e o comerciante pediu que Joaquim fosse logo tirar as medidas da roupa do casório, afinal calculava interiormente o futuro sogro: "era necessário amarrar bem as coisas e não dar espaço para futuros arrependimentos". Ademais pediu ao genro que construísse uma casa nova para receber a sua filha, pois ela era acostumada ao conforto e como aconselha a sabedoria popular: "quem casa quer casa". Acertaram ambos que todas as providências na vila para a realização do casamento ficariam por conta da família da moça. Tudo resolvido, o noivo voltou feliz para o Cafundó, exibindo uma grossa aliança de ouro, comprada a um mascate árabe que percorria os sertões a vender artigos finos. Na viagem de volta, a felicidade era tanta que a ele parecia seu corpo estar flutuando!

Naquele ano Joaquim trabalhou como nunca o fizera, construiu uma boa casa caiada voltada para o sul, sobre um terreno elevado, e não muito longe da morada dos seus velhos pais. Antecipando-se ao crescimento da família mandou fazer uma grande mesa de aroeira para as refeições e meia dúzia de baús de couro com belos rebites de cobre onde guardariam as redes de dormir, toalhas de mesa e objetos de valor. Fez um curral novo para o gado bovino, um chiqueiro para as ovelhas, outro para as cabras, e a sua roça foi a maior de todas as que já fizera, causando admiração entre a parentela! Enquanto cavava o solo sob o calor ardente e o suor pingava-lhe do rosto ele sonhava com a moça dos olhos verdes. Até as chuvas naquele ano chegaram com abundância e o depósito para guardar grãos não foi suficiente para receber toda a fartura da colheita. Tudo parecia conspirar a favor da sua felicidade!

Finalmente chegou a época da festa de Santa Ana e Quincas partiu para a vila com quase toda a família, pois ninguém queria faltar ao esperado casamento. No Pelo Sinal, tudo já estava preparado pelo pai da noiva para a cerimônia nupcial. A única providência solicitada ao noivo foi que fosse receber a roupa no alfaiate, a qual por sinal caiu-lhe muito bem, embora o sertanejo desacostumado àquele traje de cerimônia ficasse incomodado com o aperto da gravata ao pescoço e a dureza dos sapatos novos apertando-lhe os dedos. Entrou na igreja repleta de parentes, amigos e curiosos, e enquanto esperava a noiva notou surpreendido como o tempo lhe custava a passar! Sentia-se tão fora de lugar, pois era difícil ser o alvo de tantos olhares curiosos e a timidez o fazia suar! Impaciente com a demora da jovem chegou a temer uma desistência de última hora, pois ainda lhe era difícil acreditar que tão linda mulher pudesse ter aceito o seu pedido de casamento! Finalmente ouviu o burburinho do povo com a chegada da noiva e sentiu o coração bater no peito igual a um tambor!

Quem estava atento na igreja notou a súbita palidez do noivo ao avistar a moça vestida de branco e de olhar cabisbaixo que adentrara no templo. Para ele algo estava profundamente errado, era um pesadelo! Aquela não era a jovem com quem sonhara o ano inteiro e para quem construíra uma casa nova. Era Lídia, a irmã mais velha de sua noiva, que caminhava com dificuldade e ar constrangido na sua direção. Sentimentos desencontrados chocaram-se dentro dele. O primeiro foi a raiva e com ela veio a vontade de levantar-se e denunciar aquela farsa, abandonando aquela moça ali, junto ao altar! Mas o seu modo próprio de ser e o receio de fazer um escândalo naquele lugar sagrado o contiveram. Lembrou-se também das palavras da sua madrinha, que sempre elogiara o caráter reto e a bondade daquela moça, sentindo-se então impossibilitado de desampará-la, submetendo-a à vergonha, galhofa e censura públicas. Vencendo o mal-estar, Quincas permaneceu impávido e disse o sim perante o sacerdote e toda a igreja.

Depois e aos poucos ele veio a saber tudo o que se passara na casa dos sogros. Compreendeu então que o casal de negociantes ficara dividido quanto às vantagens daquele pedido de casamento. Por um lado Quincas era um bom partido, um rapaz de médios recursos, mas eles julgavam que a filha mais nova merecia muito mais do que um lavrador pertencente a uma família obscura, achavam que Leolina tinha condição de arranjar um homem rico e poderoso. Além disso, Lídia estava absolutamente "encalhada", sem que nenhum candidato aparecesse para lhe pedir a mão! Enquanto isso a filha mimada e preferida não queria nem ouvir falar no casamento com um homem que dizia não ter importância, dinheiro suficiente ou educação refinada. Afinal, dizia ela com soberba: "não lhe faltariam pretendentes"! Assim, após muita pressão, ameaças e diz-se que até alguns empurrões, a filha mais velha foi submetida ao dever sagrado de obedecer aos pais, sendo obrigada a ir à igreja para casar-se com um homem a quem intimamente admirava, mas por quem sabia não ser amada! 

E quanto à outra, o que depois lhe aconteceu? O seu destino foi invulgar e aventuroso! Leolina, a que recusou Quincas, alcunhado pejorativamente por ela de "matuto do Cafundó", depois de desbaratar grande parte dos bens de um velho abastado com quem viera a casar, terminou por fugir para o Piauí com um trapezista de circo. Mesmo aquela nova união revelou-se passageira, seguindo-se uma terceira e uma quarta até que nada mais se soube sobre sua vida, porquanto desligou-se da família e parou totalmente de enviar notícias, sumindo no mundo.

Muitos anos depois Joaquim Mocororó, cercado de netos, gostava de falar da boa sorte e da felicidade gozados ao lado de Lídia, que lhe trouxe paz ao lar e deu-lhe filhos saudáveis e bem criados. O trabalho, dizia ele, nunca fez medo à sua mulher, desde a ordenha das vacas ao ensino das primeiras letras às crianças, desde a costura das roupas ao fabrico dos queijos, que ficaram afamados na região. Para qualquer lida ela estava disposta e ao lado do marido lutou muito para construir uma vida melhor, sabendo ganhar o respeito de todos, cuidando com desvelo de idosos e doentes, aconselhando e incentivando os jovens da sua nova família, à qual aprendeu a amar.

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