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quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Médico Cubano

Ultimamente tenho visto na rede social muitos ataques à falta de competência dos médicos cubanos, questionando-se principalmente a sua ética, despreparo nas novas tecnologias e o desconhecimento dos modernos exames clínicos de que dispõe a medicina. E isso tomou vulto após a notícia de que o governo brasileiro tencionava trazer seis mil médicos de Cuba para atender à carência de profissionais nas áreas mais pobres do nosso país. Eu não nutro simpatia pelo regime de Havana, entretanto passei por uma experiência, em Angola, que contradiz muito o que as pessoas estão falando, talvez motivadas por questões ideológicas ou corporativas.

Lembrei-me de um episódio ocorrido na década de oitenta, durante a guerra travada no planalto central angolano, quando fui visitar uma comunidade de freiras brasileiras que residiam na pequena cidade da Kaala, próxima do Huambo. As irmãs acolheram-me calorosamente e fiquei feliz por ouvir a língua portuguesa falada de um modo tão familiar aos meus ouvidos e em ser recebido com aquele jeito carinhoso próprio da nossa gente.

Mas, infelizmente, durante a tarde daquele dia fui acometido por dores no corpo, febre alta, tremores, sudorese acentuada e um frio insuportável. Tive que ir para a cama e pedi para que telefonassem avisando ao meu colega, o Pe. Gaspar, que eu estava doente e não ia poder retornar à casa naquele dia. Aflitas as irmãs chamaram um jovem médico, um cubano, que veio trazendo apenas um estetoscópio e um aparelho para medir a pressão. Examinou-me e disse que eu estava tendo um acesso muito forte de malária. Acrescentou que iria retirar sangue para fazer um exame em Luanda, mas que o resultado demoraria entre quinze e vinte dias para sair. Em decorrência desse prazo alongado ele receitou injeções e comprimidos para combater o que parecia ser uma infestação do “plasmodium falciparum”, a forma mais temível de impaludismo, a terçã maligna. Felizmente, reagi bem e poucos dias depois eu estava curado, o exame veio apenas confirmar o diagnóstico do médico.

Apesar do respeito que eu nutria por aquele médico, não convinha manter amizade estreita com um internacionalista cubano, naquela situação de guerra, nem a ele era  conveniente manter vínculos com um missionário católico. Afinal aquela região era o centro da resistência contra o governo marxista de Luanda e era fácil haver um comprometimento político com todas as suas consequências negativas para o nosso trabalho. Isso sem falar nas restrições da hierarquia da Arquidiocese do Huambo. Entretanto fiz questão de manter um contato regular com o doutor até o seu retorno para Havana.

Fui despedir-me dele e nas vésperas da sua viagem eu o acompanhei à feira do Canhe, grande mercado popular, onde as feirantes, chamadas “candongueiras”, expunham suas pobres mercadorias no chão lamacento, depositando-as sobre sacos estendidos ou pedaços de papelão. Cada mulher vendia cebolas e batatas doces em pequenos montes de três ou quatro unidades ou expunham apenas um sapato, enquanto o outro era cuidadosamente guardado para evitar um possível furto. Também observei as pequenas panelas de barro do tamanho de uma xícara de chá , vendidas a viúvas pobres, onde podiam cozinhar o seu escasso alimento. Ali, naquela feira precária, o médico ficou feliz em comprar lâminas de barbear, cuecas e alguns poucos objetos de primeira necessidade. Dei-me conta da carência do abastecimento em Cuba e pensei: “Que brasileiro iria comprar coisas como essas antes de regressar ao Brasil?!”

Pouco após a sua partida eu fui transferido para Portugal, de onde retornei a São Paulo, e perdi totalmente o contato com o médico. Até que passados cerca de quatro anos e, para minha surpresa, recebi uma carta do Quebec. Tratava-se de uma missionária canadense que a pedido do médico me repassara o seu brado de socorro. Ele implorava ajuda! Dizia-me que estava psicologicamente exausto, precisava visitar-me e comigo conversar para desabafar. Informou-me que chegara ao limite da sua capacidade de resistência e temia vir a ser preso. Como dizemos no Brasil "estava de saco cheio"! Queria que eu lhe enviasse um convite para ser apresentado às autoridades cubanas e desta forma poder receber um visto e conseguir viajar a São Paulo. Eu precisaria enviar-lhe também uma passagem aérea Havana-São Paulo, ida e volta, e isso era o mais difícil! Pois eu não tinha dinheiro para comprar aquelas passagens.

Entretanto para ficar em paz com a minha consciência e, embora sem acreditar muito no sucesso da minha diligência, mandei uma cópia daquela carta a um amigo português, que se sensibilizou com o problema e resolveu ajudar o médico. Foi uma grata surpresa!  Pude então pagar a viagem e o doutor chegou ao Brasil. Estava muito cansado e tenso! Tudo lhe causava um choque até as coisas pequenas como o tamanho dos bifes que comíamos ao almoço. Lembrava-se então dos dois filhos que ficaram em Cuba e não podiam saborear um simples prato como aquele! Acho que se sentia culpado por estar comendo tão bem.

Fomos passear de ônibus e ele assustou-se com a agressividades dos jovens torcedores do Palmeiras e ficou surpreso com a juventude dos soldados da polícia que vieram controlar a desordem dos torcedores. Finalmente, entramos num supermercado para fazer compras. Ele ficou espantado com aquele paraíso do consumo! Fez questão que eu lhe batesse uma foto mostrando sua imagem e ao fundo as peças de carne ali penduradas. Aquilo era inusitado! Achei-me ridículo mas fiz o que ele pediu. Isso provocou uma atuação inesperada dos guardas de segurança do estabelecimento que vieram deter e interrogar o médico por não entenderem que alguém quisesse tirar uma foto no meio da carne. Aquilo lhes era muito estranho! Ele tentou explicar-se mas o sotaque espanhol e a palavra Cuba, citada por ele, amedrontaram ainda mais os homens da empresa. Acho que o viram como um assaltante ou terrorista, não sei! Enfim, tive com muita paciência de explicar-lhes o que se passava e deixar meu endereço e nome anotados para quaisquer posteriores esclarecimentos.

Quando se aproximou a hora do retorno à sua ilha natal, senti que a tensão do meu amigo aumentava. Entendi a situação, afinal seus filhos e a mulher haviam ficado lá na ilha do Caribe e o futuro profissional estava fora de Cuba. Pensou em morar no Brasil, mas as dificuldades burocráticas eram bem grandes e ele precisava começar logo a trabalhar para poder ajudar a família. Cheguei a levá-lo a um centro de assistência a menores carentes mantido pela Igreja, onde ele poderia prestar uma colaboração, mas ele assustou-se com a violência daqueles meninos, muitos deles menores infratores.

Somente no dia da sua partida tomou a decisão que mudaria a sua vida. Ele iria pedir asilo no Panamá, onde o avião fazia escala. Perguntou-me sobre a possibilidade de lhe ser negado o pedido de asilo. Aconselhei-o a entrar em contato com organizações de apoio ao exílio cubano e ele assim o fez. Indagou sobre a possibilidade de o prenderem e quererem devolvê-lo a Cuba contra a sua vontade. Respondi-lhe que isso era improvável, mas se ocorresse tal coisa que ele não ficasse passivo, mas fizesse um escândalo, pedisse socorro aos gritos e se agarrasse a uma coluna. Se possível chamasse a atenção da imprensa, afinal era quase um assunto de vida ou morte. Graças Deus, ao desembarcar na capital panamenha já havia um advogado e conterrâneos à sua espera e tudo lhe correu bem.

Ficou morando e trabalhando naquele país, onde passado certo tempo sua mulher e filhos foram reunir-se a ele, e por meio de muito trabalho conseguiu que os meninos pudessem estudar nos Estados Unidos. Meu amigo, contudo, sabe que carrega sempre consigo a dor de viver fora de Cuba, seu amado país, e longe dos seus pais idosos. Ele me prometeu uma nova visita ao Brasil e ainda estou esperando por isso.




















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