O lugar onde recuperei plenamente a paz após voltar de São Paulo, deixando para trás muitos anos de vida religiosa, é uma propriedade da minha família acertadamente chamada de Quinta do Pomar. Nela, minha mãe e eu, buscamos e conseguimos a cura física e espiritual. Donana procurava recuperar-se de dois cânceres, um deles agressivo, e para isso precisava de paz de espírito, frutas colhidas no pé, aves criadas livres sem o uso de ração industrializada nem manipulação hormonal e finalmente peixes frescos comprados diretamente aos pescadores da praia próxima. Para a sua recuperação era importante o aconchego familiar e acima de tudo a oração elevada diariamente ao Pai. Enquanto eu, precisava ultrapassar a dor de um rompimento com um ideal e um trabalho aos quais prometera ser fiel até a morte e não conseguira. Precisava livrar-me da mágoa de um fracasso e do olhar amargo sobre o passado, teria que começar a fitar serenamente o futuro e preservar no coração tantas coisas boas dos tempos vividos na minha congregação missionária, precisava parar de achar que eu desperdiçara anos de vida e, mais do que tudo, precisava guardar a fé. Essa não poderia de forma alguma ser perdida em razão de coisas menores.
Ao tentar escrever sobre a Quinta do Pomar procurei inspirar-me em um texto que minha irmã Izabel escreveu sobre a casa onde tantas crianças, hoje adultas, passaram suas férias e que já acolheu tantos amigos e familiares! O seu espaço deve estar marcado por ondas de felicidade e nós esperamos que este lugar continue a ser um local de encontro. Pois esta casa, durante mais de duas décadas, vem cumprindo
esse papel de
acolhimento, vencendo todas as barreiras que se opuseram a isso! Quanta gente aqui chegou cansada e triste, pôde
refazer-se e voltou para o seu lar distante alegre e reanimada! Aqui os meninos brincaram com os pés descalços na areia debaixo da sombra das
mangueiras, saciaram-se com as mangas e cajus colhidos ali mesmo, fartaram-se dos banhos de piscina e nas ondas mornas do oceano. Hoje,
essas crianças ,já adultas, trazem os seus filhos para
repetir o processo renovador de alegria das férias em família. Á tarde cansados das brincadeiras, do sol e do sal marinhos, todos restauram as energias com um sono pesado nas redes de dormir armadas nas varandas da vivenda.
Izabel, falando das fruteiras que dão nome ao sítio, começa assim: “As enormes mangueiras, os cajueiros, o imponente jamelão, as pitombeiras, alguns coqueiros, o pé de cajá já estavam no local antes de nós adquirirmos o terreno em 1968. A estes, juntaram-se as gravioleiras, goiabeiras e as mais doces carambolas, sem falar nos cítricos de todo o tipo e os mamoeiros, que eram uma tentação constante ao paladar!”
As pessoas que vieram trabalhar conosco têm algo dessas árvores: não saem fácil do lugar. A maioria chega aqui e continua conosco. Houve gente que ficou até o fim, falo do motorista Barreto, um amigo e um apoio. Dira, sua viúva, trabalha na família há mais de trinta anos. Marlene, a cozinheira, há mais de dez. Não existe aqui aquele troca-troca de empregados tão comum em muitas casas. Quem chega e se adapta termina por ficar. Na medida que vão envelhecendo eles mudam apenas de função, para exercer o que está mais de acordo com suas forças e capacidade. E não existe, também, aquela coisa tão brasileira de dizer: “Ah! Ela é como se fosse da família”! Mas um tipo de familiar que deve executar determinado trabalho doméstico e a quem não se paga o salário correto, negando-se até os direitos trabalhistas. Aqui não, nós queremos que todos recebam o que é justo e que vivam satisfeitos e dignamente.
Minha irmã deu-me seu belo texto sobre a Quinta do Pomar e autorizou-me a modificá-lo, adaptá-lo, enfim aproveitar dele o quanto pudesse e quisesse para a confecção de um novo trabalho escrito para o blogg. Mas senti grande dificuldade em fazer isso! Só após dois meses de tentativas frustradas foi que descobri a razão de não conseguir utilizar aquela matéria como base de um novo trabalho. Aquele teor foi escrito quando a mamãe morava aqui e, como alma deste lugar, ela motivou cada parágrafo do seu conteúdo. Mas atualmente Dona Ana já não está na Quinta do Pomar, doente de Alzheimer e precisando de assistência médica permanente, foi transferida para o nosso apartamento em Fortaleza, onde há melhores condições de atendimento especializado. Destarte a realidade atual da nossa vida e da nossa casa difere da situação descrita no texto da minha irmã, sendo por esse motivo que eu não pude, como o fez minha irmã, escrever algo mais alegre.
Minha mãe saiu e não deve retornar à Quinta do Pomar! Ficou-nos um vazio no peito e parafraseando o grande compositor de música popular Jacó do Bandolim, quando fala da saudade do pai, cada um dos filhos e netos de Dona Ana pode dizer: “E nessa mesa está faltando ela e a saudade dela está doendo em mim.”
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