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quarta-feira, 13 de março de 2013

O Filho do Soba

Em Angola, durante os anos em que lá vivi, tive poucas oportunidades para conhecer as autoridades tradicionais, os "sobas" – pequenos reis – de algumas aldeias. Em razão da guerra, da influência do cristianismo e da modernidade o seu poder tinha decrescido bastante, mas persistia nas áreas rurais mais recuadas. Eles eram considerados os guardiões das tradições mais antigas do povo, incluindo o direito bantu, o legado oral da história tribal, ritos de passagem e práticas religiosas ancestrais.

Certo dia, porém, logo após a minha chegada ao Huambo, vieram avisar-me de que um homem que falava um umbundo muito puro – língua do povo do planalto central angolano – desejava conversar conosco e, como meu colega havia saído, chamei um dos rapazes para servir de tradutor e fui recebê-lo.
O visitante era um homem alto, precocemente envelhecido, via-se que estava acostumado a exercer autoridade, mas no seu modo um tanto distante revelava uma cortesia e sinceridade surpreendentes. Principalmente porque, como em todos os países em guerra, ali as pessoas costumavam assumir um tipo de linguagem cautelosa e um padrão de conversação dúbio que variava conforme os interlocutores que tinham pela frente.
Disse-me ser o soba de três ou quatro aldeias daquela província e apresentou-me o filho, um adolescente inteligente e de boa aparência. O homem sem muitos preâmbulos revelou logo ao que viera dizendo: "Perdi três rapazes nesta guerra. Só me resta este. Eu quero salvá-lo e sei que nesta casa ele estará mais protegido do que na nossa aldeia." Entendi a situação, toda a área rural no planalto central era disputada pelos beligerantes e os rapazes costumavam ser alvo das rusgas, capturados e incorporados compulsoriamente à tropa, às vezes antes da idade legal. A sua principal preocupação era a vida daquele rapaz.
Falei-lhe da finalidade daquela instituição - uma casa de formação religiosa missionária – e, também, do nosso estilo de vida. Desde o princípio percebi que aquele jovem não se enquadrava totalmente dentro dos padrões do recrutamento vocacional para a vida religiosa, que sempre privilegiou jovens de boas famílias cristãs. Aquele soba era provavelmente polígamo e também guardião da sabedoria ancestral da tribo. Respondeu-me que sabia que éramos "bons e sábios" e que esperava que eu conversasse com meu colega e chegássemos a uma decisão sobre a admissão do seu filho ao seminário. Qualquer que fosse a nossa decisão só restaria a ele aceitar, "mas aquela era sua última esperança". Sem ter estudado psicologia o homem estava usando comigo a técnica aplicada em entrevistas, consistente em "encher a bola" do interlocutor. Entretanto percebi a sinceridade por trás da preocupação daquele pai, sabendo o quanto a situação de guerra era difícil para as famílias.
Restava aguardar o retorno do meu colega de Luanda, quando haveria uma nova entrevista com o pai do rapaz. Então discutimos a situação, que para mim era nova pois chegara a pouco, e resolvemos abrir uma excessão para aquele caso acolhendo o jovem. Eu nunca acreditei muito que o rapaz se tornaria algum dia um missionário como nós, pois suas contingências familiares eram quase determinantes. Porém fiquei feliz em acolhê-lo. O certo é que nós o recebemos e o jovem , durante os anos que passou conosco, não foi brilhante, mas também não destoou muito do comportamento do conjunto dos alunos.
Certo dia ele chegou preocupado e me disse que a sua irmã de dezesseis anos, postulante de uma comunidade de irmãs religiosas, estava regressando das férias em um comboio de camiões pela perigosa estrada do Bié e que a coluna havia sido atacada pela guerrilha. Acrescentou que havia dezenas de cadáveres no hospital ao qual ele não pudera ter acesso para tentar identificar o corpo da jovem pois tinha sido impedido pelos militares que guardavam o local. Pediu-me que solicitasse a intervenção de um amigo, o dentista cubano Dr. Orestes Yera.
Reuni forças para aquilo que sabia não ia ser fácil! Falei com o meu amigo que conduziu a mim e ao jovem até a porta do corredor onde estavam depositados os corpos das vítimas do massacre, enfileirados no chão lado a lado. Fui andando devagar, olhando todo o tipo de ferimento e laceração, cada um mais horripilante do que o outro. O odor de morte também era muito forte e invasivo, além das moscas! O rapaz foi andando para a frente na sua busca ansiosa e eu, atrás, cada vez mais devagar e quase parando. Até que me deparei com um homem jovem degolado com um pedaço de pau enfiado no pescoço para manter a cabeça ligada ao tronco. Aí parei, era demais para mim! Dei as costas à cena e voltei-me para a janela. As minhas pernas pareciam estar virando geléia. Deixei o rapaz seguir sozinho e voltei como pude. Pela postura daquele jovem, quase um menino, vi como os angolanos eram fortes!
Felizmente a moça não estava entre os mortos, havia ainda um pouco de esperança. Alguns meses depois ele me disse ter sabido que a sua irmã , uma menina muito bonita, havia sido capturada pelo chefe do bando e deveria também, juntamente com outras mulheres, transportar minas e outras armas à cabeça, nas constantes viagens do grupo através do país, além de servir-lhe de companhia no leito .
Ele seguiu conosco durante vários anos e após os estudos preparatórios, antes do ingresso no noviciado, saiu para ingressar na vida leiga. Assim vivíamos, tínhamos sempre de tomar decisões, procurando respeitar as leis e regulamentos humanos, sem esquecer de examinar cada caso à luz da lei de Deus e das necessidades da luta diária pela sobrevivência.


2 comentários:

  1. É, Pedro, você foi muito feliz em criar esse blog enós os beneficiários diretos mais felizes ainda.

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  2. Nada como um estímulo tão bem exposto para nos levar à frente.

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