Em Angola, durante os anos em que lá vivi, tive poucas
oportunidades para conhecer as autoridades tradicionais, os "sobas" –
pequenos reis – de algumas aldeias. Em razão da guerra, da influência do
cristianismo e da modernidade o seu poder tinha decrescido bastante, mas
persistia nas áreas rurais mais recuadas. Eles eram considerados os guardiões
das tradições mais antigas do povo, incluindo o direito bantu, o legado oral da
história tribal, ritos de passagem e práticas religiosas ancestrais.
Certo dia, porém, logo após a minha chegada ao Huambo,
vieram avisar-me de que um homem que falava um umbundo muito puro – língua do
povo do planalto central angolano – desejava conversar conosco e, como meu
colega havia saído, chamei um dos rapazes para servir de tradutor e fui
recebê-lo.
O visitante era um homem alto, precocemente envelhecido,
via-se que estava acostumado a exercer autoridade, mas no seu modo um tanto
distante revelava uma cortesia e sinceridade surpreendentes. Principalmente
porque, como em todos os países em guerra, ali as pessoas costumavam assumir um
tipo de linguagem cautelosa e um padrão de conversação dúbio que variava
conforme os interlocutores que tinham pela frente.
Disse-me ser o soba de três ou quatro aldeias daquela
província e apresentou-me o filho, um adolescente inteligente e de boa
aparência. O homem sem muitos preâmbulos revelou logo ao que viera dizendo:
"Perdi três rapazes nesta guerra. Só me resta este. Eu quero salvá-lo e
sei que nesta casa ele estará mais protegido do que na nossa aldeia."
Entendi a situação, toda a área rural no planalto central era disputada pelos
beligerantes e os rapazes costumavam ser alvo das rusgas, capturados e
incorporados compulsoriamente à tropa, às vezes antes da idade legal. A sua principal
preocupação era a vida daquele rapaz.
Falei-lhe da finalidade daquela instituição - uma casa de
formação religiosa missionária – e, também, do nosso estilo de vida. Desde o
princípio percebi que aquele jovem não se enquadrava totalmente dentro dos
padrões do recrutamento vocacional para a vida religiosa, que sempre
privilegiou jovens de boas famílias cristãs. Aquele soba era provavelmente
polígamo e também guardião da sabedoria ancestral da tribo. Respondeu-me que
sabia que éramos "bons e sábios" e que esperava que eu conversasse
com meu colega e chegássemos a uma decisão sobre a admissão do seu filho ao
seminário. Qualquer que fosse a nossa decisão só restaria a ele aceitar,
"mas aquela era sua última esperança". Sem ter estudado psicologia o homem
estava usando comigo a técnica aplicada em entrevistas, consistente em
"encher a bola" do interlocutor. Entretanto percebi a sinceridade por
trás da preocupação daquele pai, sabendo o quanto a situação de guerra era
difícil para as famílias.
Restava aguardar o retorno do meu colega de Luanda, quando
haveria uma nova entrevista com o pai do rapaz. Então discutimos a situação,
que para mim era nova pois chegara a pouco, e resolvemos abrir uma excessão
para aquele caso acolhendo o jovem. Eu nunca acreditei muito que o rapaz se
tornaria algum dia um missionário como nós, pois suas contingências familiares
eram quase determinantes. Porém fiquei feliz em acolhê-lo. O certo é que nós o
recebemos e o jovem , durante os anos que passou conosco, não foi brilhante,
mas também não destoou muito do comportamento do conjunto dos alunos.
Certo dia ele chegou preocupado e me disse que a sua irmã de
dezesseis anos, postulante de uma comunidade de irmãs religiosas, estava
regressando das férias em um comboio de camiões pela perigosa estrada do Bié e
que a coluna havia sido atacada pela guerrilha. Acrescentou que havia dezenas
de cadáveres no hospital ao qual ele não pudera ter acesso para tentar
identificar o corpo da jovem pois tinha sido impedido pelos militares que
guardavam o local. Pediu-me que solicitasse a intervenção de um amigo, o
dentista cubano Dr. Orestes Yera.
Reuni forças para aquilo que sabia não ia ser fácil! Falei
com o meu amigo que conduziu a mim e ao jovem até a porta do corredor onde
estavam depositados os corpos das vítimas do massacre, enfileirados no chão
lado a lado. Fui andando devagar, olhando todo o tipo de ferimento e laceração,
cada um mais horripilante do que o outro. O odor de morte também era muito
forte e invasivo, além das moscas! O rapaz foi andando para a frente na sua
busca ansiosa e eu, atrás, cada vez mais devagar e quase parando. Até que me
deparei com um homem jovem degolado com um pedaço de pau enfiado no pescoço
para manter a cabeça ligada ao tronco. Aí parei, era demais para mim! Dei as
costas à cena e voltei-me para a janela. As minhas pernas pareciam estar
virando geléia. Deixei o rapaz seguir sozinho e voltei como pude. Pela postura
daquele jovem, quase um menino, vi como os angolanos eram fortes!
Felizmente a moça não estava entre os mortos, havia ainda um
pouco de esperança. Alguns meses depois ele me disse ter sabido que a sua irmã , uma
menina muito bonita, havia sido capturada pelo chefe do bando e deveria também,
juntamente com outras mulheres, transportar minas e outras armas à cabeça, nas
constantes viagens do grupo através do país, além de servir-lhe de companhia no leito .
Ele seguiu conosco durante vários anos e após os estudos
preparatórios, antes do ingresso no noviciado, saiu para ingressar na vida
leiga. Assim vivíamos, tínhamos sempre de tomar decisões, procurando respeitar
as leis e regulamentos humanos, sem esquecer de examinar cada caso à luz da lei
de Deus e das necessidades da luta diária pela sobrevivência.
É, Pedro, você foi muito feliz em criar esse blog enós os beneficiários diretos mais felizes ainda.
ResponderExcluirNada como um estímulo tão bem exposto para nos levar à frente.
ResponderExcluir