A ousadia dos kwatchas – guerrilheiros da Unita – só aumentava e os ataques se sucediam. Nem a tropa cubana conseguia mais lhes impor respeito e afastá-los do perímetro urbano, enfim a guerra ganhava força! Foi pois em certa tarde, nessa época de insegurança, que uma grande coluna de camiões com destino ao Bié chegou do litoral com muito óleo e manteiga e acampou num grande descampado, situado depois do setor reservado aos internacionalistas cubanos, na direção da fábrica de cerveja Cuca. A noite caiu, os passageiros da coluna abrigaram-se para dormir embaixo dos camiões procurando se proteger do frio e da chuva, enquanto os militares achando-se talvez fora de perigo relaxaram a vigilância. Disseram-me depois que muitos soldados aproveitaram a parada no Huambo para visitar namoradas e familiares.
Alta madrugada começou um ataque ao acampamento da coluna. Parecia até que o mundo vinha abaixo! As paredes, felizmente grossas, da nossa casa tremiam e caía pó do telhado. Levantei-me e já encontrei o meu colega, Pe. Gaspar vistoriando o dormitório dos alunos para ver se tudo estava bem com os meninos, ordenadamente alguns já se tinham abrigado embaixo dos leitos. Voltei e meti-me também sob a cama, conforme medida recomendada para as horas de ataques mais fortes! Deitado ali no chão não havia como não pensar que a morte podia estar iminente, pedi a Deus que nos protegesse a todos e acima de tudo que não me deixasse ficar mutilado ou incapacitado.
Dava para ouvir o barulho surdo das metralhadoras AK - Kalashnikov – de fabricação soviética, fornecidas à tropa do governo, e, contrapondo-se a elas, escutava-se o latido fino das Galil israelenses trazidas pela guerrilha. A luta dos dois grandes impérios mundiais se fazia ali presente, os obuses passavam acima da nossa casa e a artilharia cubana respondia do outro lado. Dava a impressão que todos os militares do Huambo atiravam ao mesmo tempo. A noite era escura, sem energia elétrica, mas intermitentemente iluminada pelo clarão das explosões, das bengalas de luz e os riscos no céu das balas tracejantes.
Após uma noite sem sono e cheia de sobressaltos, em que se ouviam os gritos das pessoas em fuga e os berros dos militares, levantamos e aos poucos fomos sabendo das informações, o cozinheiro que chegou com atraso nos disse que o óleo e a manteiga liquefeitos correram ardendo pelas coxias da rua em declive. A captação de água canalizada para a cidade também fora destruída. Depois alguém nos informou que os passageiros da coluna procuraram abrigo nas primeiras casas do bairro próximo e os moradores, julgando ser a guerrilha a chegar, fugiram também para a outra rua, criando-se uma onda de pânico. Tudo isso acontecia na escuridão e em meio aos tiros dos defensores que não conseguiam distinguir quem era quem.
Demo-nos conta, então, de que o nosso gerador de energia havia sido danificado, precisava ser reparado e talvez fosse necessário adquirir um novo em Lisboa. Vimos que era necessário tentar comprar algumas telhas retiradas de casas em ruínas para substituir as nossas, que tinham sido quebradas pelas balas, assim ficaríamos livres das goteiras na próxima chuva. Na saída para procurar as telhas desviei-me do local onde estavam as carcaças dos camiões queimados a fim de evitar o perigo de acionar alguma mina eventualmente ali deixada.
Foi nesse clima tenso que chegamos à festa do Natal do Senhor. Mais um grande ataque ocorrera, não fora o primeiro nem acreditávamos ser o último. Eu pensava como seria aquele natal, com tão pouca comida, sem peru ou bacalhau, nem rabanada havia! Mas os estudantes prepararam o presépio e a Procuradoria de Luanda conseguiu nos mandar por via aérea umas caixas de geleia de laranja. As comunidades de irmãs lembraram-se também de nós e mandaram alguns regalos, mas nem sonhar com trocas de presentes. Enfim, as coisas começaram a melhorar um pouquinho e o Tchikambi, seminarista da Teologia, alegrava o ambiente com os ensaios dos cantos para a celebração de natal.
Caída a noite e com o nosso gerador ligado, nos reunimos para a missa do galo na capela enfeitada com algumas flores e o altar coberto por uma tolha branca bordada adquirida no meu Ceará. Os alunos vestidos com suas melhores roupas e alguns vizinhos chegados após terem saltado o muro do quintal, impedidos que estavam de passar pela rua devido as restrições do toque de recolher, encheram nossa capela. A noite estava escura, sem iluminação pública, e muito estrelada, ouviam-se muitos tiros e viam-se as balas tracejantes de sempre. Mas dentro da capela havia luz, conforto, apoio mútuo, oração e os mais belos cantos de natal que já ouvi. O Pe. Gaspar se superou naquela celebração, mas se alguém me perguntar o que ele falou naquela noite, responderia tranquilamente: “Não me lembro!” A comunicação parece que se dava ao nível do coração, não da razão e estou ainda convicto de que aquele foi o mais belo Natal da minha vida. Sentia que estávamos junto a Ele e era tão bom estar ali! Lá fora na escuridão, em meio aos tiros e ao ódio, com certeza “havia choro e ranger de dentes”.
Magnífica narração. Embora fiel plenamente aos acontecimentos, por vezes parece romanceada tanto é a leveza do texto.
ResponderExcluirMeus parabéns, você é foooooorte.
O comentário estava duplicado, excluí um deles. A base do texto é verdadeira, mas a tua visão inclui a tua subjetividade. Outra pessoa talvez vivesse o mesmo fato de um modo diferente e o sentisse de um outro modo!
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ResponderExcluirOutra coisa que descobri esses dias foi que à narrativa do historiador falta aquela dose de emoção, do medo, do ódio, da alegria. Enfim de todos os sentimentos que são reais, porém invisíveis. Assim falo de como o meu eu viu e refletiu os acontecimentos que passaram pela minha vida! Procuro transmiti-los aos outros, mas sou consciente que outros escreveriam os mesmos fatos de modo bem diferente.
ResponderExcluirO que eu acho muito interessante é saber narrar com equlíbrio e ao mesmo tempo emoção, o que inclui objetividade e, ao mesmo tempo, inspirada subjetividade.
ResponderExcluirVou procurar seguir esse conselho. Acho que ele é bom. Valeu!
ResponderExcluirEu comentei baseado na forma como você relata os fatos. Eu é que tenho aprendido... e muito.
ExcluirEu procuro dosar, não sei até onde consigo, a objetividade histórica com um pouco da linguagem jornalística e da subjetividade literária. Assim tento evitar a pura aridez do relato científico ou que o texto se transforme em poesia em prosa, estilo José de Alencar.
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