"Oh!
Jerusalém! Se eu me esquecer de ti que a minha mão direita seque e
a minha língua se cole ao céu da boca." (Salmo 137) Olhando
para as muralhas de Jerusalém pensei nesse juramento que os judeus,
através dos séculos, espalhados de Lisboa a Kaifeng, China,
passando pelas planícies da Polônia aos altiplanos da Etiópia,
proferiram tantas vezes e que exprime tão bem o seu entranhado amor
a essa antiga cidade e ao que ela representa. Esse sentimento forte
também foi partilhado por Jesus de Nazaré, o rabi da Galiléia, e
depois dele por milhões de peregrinos cristãos, reis e soldados,
quando trilharam os caminhos que levam à capital de Israel.
Participando
da eucaristia na igreja de "Dominus Flevit" (Jesus Chorou),
no Monte das Oliveiras, voltado para beleza impressionante da
esplanada do templo e a cúpula dourada do Domo da Rocha, situado
sobre o local do antigo templo do rei Salomão e de Herodes, baixei a
vista e vi um mosaico representando uma galinha e seus filhotes. A
princípio surprendi-me! Depois lembrei-me da tocante passagem das
lágrimas de Jesus contemplando a cidade, ali mesmo do Monte das
Oliveiras: "Oh Jerusalém, tu que matas os profetas e lapidas
aqueles que te são enviados. Quantas vezes eu quis juntar os teus
filhos como uma galinha junta os pintainhos debaixo das suas asas...!
(Mat 23,37)"
Assim foi
a minha caminhada por Jerusalém, indo e voltando no tempo pois a
cidade está cheia de monumentos e traços de um passado bíblico tão
presente nas nossas vidas. Enfim, orando, meditando, trazendo à
lembrança amigos e parentes, idosos ou doentes, observando espantado
pessoas de tão diversas culturas e aproveitando momentos de pura
diversão e companheirismo com os novos amigos da peregrinação.
Todas as
construções da cidade devem ser por lei revestidas com a pedra
creme e levemente dourada que lhe dá uma beleza ímpar e lhe permite
ser chamada de "Jerusalém Dourada" , nome de uma belíssima
música cantada em hebraico por Roberto Carlos, quando se apresentou
na capital de Israel. A cidade, situada na fronteira do deserto,
surpreendeu-me pela quantidade de jardins que existem e pelas belas
avenidas modernas que rodeiam a Cidade Velha!
Essa
cidade teve uma influência enorme na história do mundo e de uma
maneira especial na formação do Ocidente, mas não só! Quero citar
"O Hadith, palavras do Profeta Maomé:
Oh
Jerusalém, terra eleita de Alá e pátria dos seus servidores, foi
dos teus muros que o mundo se tornou mundo. Oh Jerusalém, o orvalho
que cai sobre ti cura todos os males, pois vem dos Jardins do
Paraíso." Por essa e
outras leituras entendi que o mundo seria menos humano e
consequentemente menos divino sem a enorme força espiritual da fé
que brotou e espalhou-se a partir de Jerusalém.
Tive
contudo algumas decepções e a maior delas foi com a Igreja do Santo
Sepulcro, um enorme e caótico complexo de edifícios construído em
diferentes séculos, com grutas, escadas, colunas, elementos
arquitetónicos diversos e pouca iluminação. Dividido entre
diversas denominações religiosas cristãs, torna-se difícil você
fazer uma oração tranquila, pois ao lado do culto católico,
ouve-se os cantos em grego da Igreja Ortodoxa, as litanias dos
armênios, coptas egípcios e etíopes. Enfim uma babel de línguas
estranhas e o constante passar de peregrinos, como nós ou os
russos.
Aliviado
saí de lá! Contudo refleti que ela talvez seja uma imagem da
disparidade do mundo e das igrejas e de realidades tão complexas,
onde apesar de tudo a Palavra de Deus têm que ser semeada.
Numa
bela noite saímos de ônibus e estacionamos ao sul das muralhas de
Jerusalém, onde descemos e atravessamos a Porta do Esterco, uma das
mais bonitas apesar do nome, em uma área totalmente restaurada, e
nos dirigimos para o Hakotel (o Muro), também chamado das
lamentações e que fazia parte do antigo Templo de Israel.
Deparei-me com uma grande praça, dividida entre o setor masculino e
o feminino. Fui para a extrema esquerda onde penetramos em um alto
túnel que acompanha o muro e foi restaurado com recursos da família
Safra, judeus brasileiros e origem síria. Foi outro momento forte de
oração, onde coloquei um papel dobrado entre as pedras com os nomes
de familiares e amigos, pedindo a proteção de Deus e dizendo
baixinho: "Baruch athá Adonai, Elohenu, Melech
haolam" ( Bendito sejas tu
oh Senhor, nosso Deus, Rei do Universo).
Na
cidade velha visitamos no dia seguinte a Via Dolorosa e fui conhecer
o Cardo, antiga rua romana situada no coração do bairro judeu da
Cidade Velha, totalmente restaurada com as descobertas arqueológicas
das antigas colunas, ressurgiu e tornou-se uma bela rua de lojas de
peças artistícas, infelizmente com um valor demasiado alto para o
meu bolso!
Após
Jerusalém ainda fui passear em Jaffa e Tel-Aviv, mas para mim a
viagem terminou quando tomamos a estrada que desce para o litoral,
atravessando a região onde travou-se a batalha que livrou Jerusalém
do cerco durante a guerra da independência de Israel. Posso dizer
que essa viagem valeu a pena, misturando-se história, fé e emoção!
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