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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Oh Jerusalém!

"Oh! Jerusalém! Se eu me esquecer de ti que a minha mão direita seque e a minha língua se cole ao céu da boca." (Salmo 137) Olhando para as muralhas de Jerusalém pensei nesse juramento que os judeus, através dos séculos, espalhados de Lisboa a Kaifeng, China, passando pelas planícies da Polônia aos altiplanos da Etiópia, proferiram tantas vezes e que exprime tão bem o seu entranhado amor a essa antiga cidade e ao que ela representa. Esse sentimento forte também foi partilhado por Jesus de Nazaré, o rabi da Galiléia, e depois dele por milhões de peregrinos cristãos, reis e soldados, quando trilharam os caminhos que levam à capital de Israel.

Participando da eucaristia na igreja de "Dominus Flevit" (Jesus Chorou), no Monte das Oliveiras, voltado para beleza impressionante da esplanada do templo e a cúpula dourada do Domo da Rocha, situado sobre o local do antigo templo do rei Salomão e de Herodes, baixei a vista e vi um mosaico representando uma galinha e seus filhotes. A princípio surprendi-me! Depois lembrei-me da tocante passagem das lágrimas de Jesus contemplando a cidade, ali mesmo do Monte das Oliveiras: "Oh Jerusalém, tu que matas os profetas e lapidas aqueles que te são enviados. Quantas vezes eu quis juntar os teus filhos como uma galinha junta os pintainhos debaixo das suas asas...! (Mat 23,37)"
                                                                                                    

Assim foi a minha caminhada por Jerusalém, indo e voltando no tempo pois a cidade está cheia de monumentos e traços de um passado bíblico tão presente nas nossas vidas. Enfim, orando, meditando, trazendo à lembrança amigos e parentes, idosos ou doentes, observando espantado pessoas de tão diversas culturas e aproveitando momentos de pura diversão e companheirismo com os novos amigos da peregrinação.

Todas as construções da cidade devem ser por lei revestidas com a pedra creme e levemente dourada que lhe dá uma beleza ímpar e lhe permite ser chamada de "Jerusalém Dourada" , nome de uma belíssima música cantada em hebraico por Roberto Carlos, quando se apresentou na capital de Israel. A cidade, situada na fronteira do deserto, surpreendeu-me pela quantidade de jardins que existem e pelas belas avenidas modernas que rodeiam a Cidade Velha!

Essa cidade teve uma influência enorme na história do mundo e de uma maneira especial na formação do Ocidente, mas não só! Quero citar "O Hadith, palavras do Profeta Maomé:
Oh Jerusalém, terra eleita de Alá e pátria dos seus servidores, foi dos teus muros que o mundo se tornou mundo. Oh Jerusalém, o orvalho que cai sobre ti cura todos os males, pois vem dos Jardins do Paraíso." Por essa e outras leituras entendi que o mundo seria menos humano e consequentemente menos divino sem a enorme força espiritual da fé que brotou e espalhou-se a partir de Jerusalém.

Tive contudo algumas decepções e a maior delas foi com a Igreja do Santo Sepulcro, um enorme e caótico complexo de edifícios construído em diferentes séculos, com grutas, escadas, colunas, elementos arquitetónicos diversos e pouca iluminação. Dividido entre diversas denominações religiosas cristãs, torna-se difícil você fazer uma oração tranquila, pois ao lado do culto católico, ouve-se os cantos em grego da Igreja Ortodoxa, as litanias dos armênios, coptas egípcios e etíopes. Enfim uma babel de línguas estranhas e o constante passar de peregrinos, como nós ou os russos.
Aliviado saí de lá! Contudo refleti que ela talvez seja uma imagem da disparidade do mundo e das igrejas e de realidades tão complexas, onde apesar de tudo a Palavra de Deus têm que ser semeada.

Numa bela noite saímos de ônibus e estacionamos ao sul das muralhas de Jerusalém, onde descemos e atravessamos a Porta do Esterco, uma das mais bonitas apesar do nome, em uma área totalmente restaurada, e nos dirigimos para o Hakotel (o Muro), também chamado das lamentações e que fazia parte do antigo Templo de Israel. Deparei-me com uma grande praça, dividida entre o setor masculino e o feminino. Fui para a extrema esquerda onde penetramos em um alto túnel que acompanha o muro e foi restaurado com recursos da família Safra, judeus brasileiros e origem síria. Foi outro momento forte de oração, onde coloquei um papel dobrado entre as pedras com os nomes de familiares e amigos, pedindo a proteção de Deus e dizendo baixinho: "Baruch athá Adonai, Elohenu, Melech haolam" ( Bendito sejas tu oh Senhor, nosso Deus, Rei do Universo).

Na cidade velha visitamos no dia seguinte a Via Dolorosa e fui conhecer o Cardo, antiga rua romana situada no coração do bairro judeu da Cidade Velha, totalmente restaurada com as descobertas arqueológicas das antigas colunas, ressurgiu e tornou-se uma bela rua de lojas de peças artistícas, infelizmente com um valor demasiado alto para o meu bolso!

Após Jerusalém ainda fui passear em Jaffa e Tel-Aviv, mas para mim a viagem terminou quando tomamos a estrada que desce para o litoral, atravessando a região onde travou-se a batalha que livrou Jerusalém do cerco durante a guerra da independência de Israel. Posso dizer que essa viagem valeu a pena, misturando-se história, fé e emoção!



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