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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A Casa de Praia


Para que vocês não pensem que só sei falar dos momentos tensos e dramáticos que passei na vida resolvi escrever sobre uma certa casa virada para o mar. No segundo semestre do ano passado – 2012 - voltei a um lugar que visitara cinquenta anos atrás, a vila marítima do Morro Branco no meu estado natal, Ceará. Fui acompanhado pelo meu irmão caçula, o Ubirajara, Bira para os íntimos, que me sugeriu uma ida à parte alta e mais antiga da vila. Lá chegando, vieram a mim as lembranças, já meio esquecidas, dos dias em que, juntamente com uma das minhas irmãs, visitara a casa de praia dos Queiroz , uma antiga família daquele município com quem ela era relacionada.

Encontrei a vila mudada, as casas mais bonitas e a capelinha de São Pedro toda renovada e pintada, havia até barracas na praia cobertas de palha, naquele estilo do Taiti, onde os turistas podem comer, usufruir a paisagem, guardar seus pertences, etc. A rua, calçada com pedras de granito, margeia a falésia de arenito vermelho que cai quase a pique sobre a praia de areia fina. Só o mar imenso era o mesmo e eterno mar. A minha imaginação viajou e foi longe, passou do Morro Branco às fantásticas praias da ilha do Mussulo, ao sul de Luanda, visitou brevemente Ambriz e voltou por Viana do Castelo, terminando por Fernão de Noronha, lugares nunca por mim esquecidos.
Meu irmão e eu ficamos apreciando o mar azul-turquesa da nossa terra e a animação dos grupos de turistas que caminhavam para o Labirinto, onde a erosão cavou uma série de corredores, entradas e saídas entre as falésias. Foi então que o Bira chamou-me a atenção para uma placa postada sobre um muro de pedras cinzentas de uma casa voltada para o mar. Uma faixa já bastante gasta, com um “vende-se” e um número de telefone.
Como é do seu feitio, meu irmão não perdeu tempo e logo atacou:
-- Vamos ver a casa! É só telefonar.
Respondi jogando-lhe um balde de água fria:
– Não viaje Bira. Você sabe que eu não tenho dinheiro para comprar uma casa como essa.
Mas ele não desiste fácil e respondeu:
 – Ver não é comprar.
Cansei de argumentar e na verdade estava também curioso e afinal tinha tempo de sobra. Liguei para o corretor, um antigo pescador, o seu Nenéo, que mora na mesma rua e não demorou a chegar.
Olhamos a casa, gostei do que vi, amei até o nome da rua, rua “João de Deus”, como é lembrado no Ceará o amado Papa João Paulo II. Era o tipo da casa apreciado por nós: sólida, bem construída, grande sem ser pretensiosa, antiga mas bem conservada. Ela tinha até arcos, que já fazem parte da nossa herança afetiva, transmitida a nós desde a velha casa de fazenda do meu avô, no alto sertão, onde passamos temporadas tão felizes na infância! Mas o meu entusiasmo rapidamente terminou diante do preço pedido pela proprietária.

Nada a fazer! Eu não tinha o total do dinheiro e não estava disposto a endividar-me em bancos para comprar uma casa de lazer, conforme sugerido pelo corretor. Despedimo-nos e procurei esquecer a casa das falésias, da vista do mar e da igrejinha de São Pedro que lhe era vizinha. Mas de vez em quando a lembrança regressava e também a sensação desagradável de haver perdido uma oportunidade única e inretornável.
Passados dois ou três meses recebi um telefonema do corretor, trazendo novidades: a proprietária queria mudar-se para Miami, baixara o preço do imóvel, e poderia aceitar uma contraproposta, só não queria que entrassem carros e terrenos no negócio, muito menos pagamento parcelado.
Animei-me, entrei em contato com a dona do imóvel, uma temperamental dama, esposa de um rico empresário e filha de um fazendeiro sertanejo. As conversações não foram fáceis, fomos acima e abaixo, mas conseguimos chegar a um bom final e terminei dono de uma casa com uma bela varanda virada para o mar e com o bolso vazio. Adaptando o provérbio, posso dizer: - “rapei o fundo do cofre”. Gastei o dinheiro do carro novo que planejara comprar, mas não fiquei com dívidas.
Contudo, pude a partir daí realizar algo que gosto de fazer, acolher e hospedar. Sei que há pessoas que não entendem o prazer de receber e auferir a energia positiva que nos vem das pessoas amigas, preferem viajar ao estrangeiro, dormindo em camas mercenárias, ou ficar no isolamento de suas casas, nunca ou rarissimamente franqueadas a visitantes. Mas eu sou diferente e assumo, nesta fase da minha vida, sem excluir totalmente as viagens, prefiro chamar a mim os familiares e amigos. Se estou gastando dinheiro, digo que estou, estou mesmo! Mas o bem mais valioso que eu tenho na vida é o tempo que me resta e esse está sendo bem gasto.
Recentemente recebi um grupo de timorenses da Unilab, universidade lusófona. A satisfação daqueles jovens exilados tão longe da sua terra e da sua cultura e com tão poucas possibilidades de lazer foi a minha melhor recompensa. Passaram por lá vários familiares, citando de um modo muito especial um casal de sobrinhos, chegados de Rio Branco do Acre e vários outros amigos. Durante o carnaval reuni lá um grupo grande de jovens da família e crianças. Eles adoraram e eu, feliz com a felicidade deles! Enfim, a casa do Morro Branco começou a sua trajetória que espero seja longa, uma trajetória generosa e acolhedora e principalmente abençoada por Deus.








 

4 comentários:

  1. Lindo texto primo, um conteudo mt rico de emoções monstrando que escreves com um gd sentimento!
    Parabéns, aguardo o próximo!

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    1. Foi tão bom poder escrever algo que uma pessoa como você pudesse apreciar! Aguarde mesmo que há outros no forno.

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  2. É Pedão as Capitanias estão se ampliando. Mas sobre o texto, achei fabuloso como você conseguiu dar a um negócio, que para nós mortais seria no máximo uma boa alternativa de aplicação de dinheiro, um conteúdo tão rico em termos de recordações familiares e de demonstração de companheirismo, em suma de belos sentimentos. Você é realmente um nobre.

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  3. Nobreza é a sua em ver tanto em tão poucas linhas.

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