Versão Inglês
Em 1985, cheguei para trabalhar na sitiada cidade de Huambo, planalto central de Angola, país então afetado por uma devastadora guerra entre o governo central sediado em Luanda e o movimento guerrilheiro da UNITA.
Em 1985, cheguei para trabalhar na sitiada cidade de Huambo, planalto central de Angola, país então afetado por uma devastadora guerra entre o governo central sediado em Luanda e o movimento guerrilheiro da UNITA.
Sob a dupla responsabilidade, minha e de um colega, ficaram algumas dezenas de jovens estudantes a quem nos cabia alimentar, proteger, formar e instruir. O meu sentimento era que as luzes naquele país estavam a se apagar, uma a uma, e a nossa casa, o Seminário Menor do Espírito Santo, era uma instituição ameaçada de fechamento, mas cuja missão era continuar iluminando e preparando o futuro daquele povo e da Igreja.
Eram grandes as dificuldades que nos desafiavam para
conseguir a comida necessária àquele grande número de pessoas. A base da nossa
alimentação era a farinha de milho com a qual se preparava uma espécie de pirão
de fubá, chamado “funge”, e o peixe seco. Complementávamos quando podíamos com
batata doce, couves e galinhas das aldeias, geralmente muito magras. A falta de
variedade dos alimentos, com a repetição constante do cardápio, nos levava a
uma ausência da plena saciedade mesmo após o final das refeições. Nesse período
de cinco anos em que lá vivi houve época de muita preocupação com a carência
alimentar e com a dificuldade de reposição do estoque da nossa dispensa.
Em uma dessas períodos, quando o cerco à cidade apertava e o
desalento queria nos dominar, quando os comboios de camiões para o
abastecimento da cidade eram sistematicamente atacados na estrada que vinha de
Benguela, chegou uma boa notícia, fui avisado pelo meu colega, um português,
daqueles fortes e “duros na queda”, que havia pão na única padaria autorizada a
nos fornecer o produto.
Larguei tudo, cancelei aulas e quaisquer outros
compromissos, e me mandei para o bairro do Benfica, onde ficava a dita padaria,
disposto a conseguir trazer algo para casa. Antes de lá chegar já ouvi o
burburinho do povo aglomerado na frente da velha casa onde se fabricava muito
esporadicamente o precioso pão. Uma das coisas que logo aprendi com o pessoal
missionário que trabalhava na região era evitar meter-me no meio do
empurra-empurra que sempre se formava nas filas dos aeroportos e lojas. Assim
fiquei de longe com olhos atentos, observando o movimento a imaginar como
conseguiria entrar naquela casa, procurando ver se surgia algum amigo ou
conhecido que me desse uma ajuda.
O tempo passava e nada acontecia, a confusão aumentava
diante da porta de metal do estabelecimento com a chegada de numerosos
"mutilados de guerra" - ex-militares feridos pelas minas e combates -
portando suas muletas semi-artesanais feitas de aço. Ali, não dava para alguém
com juízo ir meter-se.
De repente vi uma freira angolana da congregação das
teresianas acenar-me ao longe. Procurei-a e ela me conduziu até a entrada
traseira da casa onde apresentei uma guia assinada pelo Camarada Comissário
autorizando-me a comprar pão naquela padaria.
Aliviado entrei pensando já está tudo resolvido e para minha
surpresa deparei-me com a sala já bastante cheia! Esperei algum tempo e fui
atendido recebendo um saco grande de ráfia, desses de transportar farinha de
trigo, cheio de pães. Que alegria! Como cheirava bem aquele pão ainda
quentinho! A maioria das pessoas já fôra atendida e esperava só o momento da
autorização para sair, porque estava complicado atravessar a confusão que se
formara do lado de fora. Mas eis que os gritos e a algazarra recrudesceram na
rua e as portas estremeceram com as pancadas das muletas de aço. Os de dentro
imploraram para que a porta não fosse aberta.
Porém o diretor da padaria cometeu a tolice de entreabrir a
porta para negociar com os ex-militares, começando a sua exortação com –
"Camaradas tenham calma! Vejam lá, isso não vos fica bem. Procurem uma seção militar para o vosso abastecimento. Estas pessoas que aqui estão foram
autorizadas a comprar nesta padaria pelo Comissariado do Huambo...bla, bla,
bla." Foi interrompido pelos mutilados que introduziram suas muletas como
cunhas na pequena abertura e forçaram a entrada. Os padeiros juntaram-se à porta tentando impedir a sua abertura total. Tudo inútil! Os mutilados aos gritos invadiram a loja dizendo ter perdido seus membros
em defesa do país e agora eram deixados a morrer de fome.
Houve um princípio de pânico entre os que estavam acumulados
no interior. Logo os ex-combatentes foram arrebatando todo o pão que lá havia e
as pessoas o entregavam por bem ou por mal. O medo chegou em mim e decidi:
"eu não vou levar uma muletada na cabeça por causa de um saco de pão".
Mas era difícil para mim soltar aquele saco, até parecia que meus braços
estavam grudados nele. Olhei para a freirinha, tão pequena e frágil. Vi que ela
estava com mais coragem do que eu, decidida e agarrada com o saco de pão, não
parecia disposta a ceder. Aí eu mudei a decisão, - "se a irmãzinha não vai
ceder, eu também não vou. Levantei o saco e apertei-o como ela junto ao
peito.Vou esperar e ver o que vai acontecer!"
Pois bem o inesperado aconteceu, até hoje não entendi porque
fomos poupados e saímos de lá cada um com o valioso saco de pão. Ao jantar
comemos aquele alimento, mastigando-o bem devagarinho para que o prazer durasse
o máximo. Era assim a nossa vida, feita também de pequenas vitórias e a recompensa
podia ser o sorriso dos meninos que não sabiam o que tínhamos passado.
Aprendi no Huambo que em tempos de carência o que mais
ansiamos não é a carne, nem bolo ou sobremesa fina, etc. O que mais precisamos
é do pão. Então, entendi porque ele se tornou sinônimo de alimento, e captei o
significado do homem que luta para "ganhar o pão".
Relato simples, porém intenso. É bom ter oportunidade de ler( como se estivesse ouvindo) suas histórias,meu caro Pedro.
ResponderExcluirÉ Mourão uma das minhas maiores dificuldades é escolher o que narrar. Porque os fatos aconteceram a relativamente pouco tempo e os envolvidos estão quase todos bem vivos e as paixões políticas também!
ResponderExcluirBem Pedro, eu acho que muito do que você vivenciou como missionário, indepentemente dos protagonistas, deve interessar a muitas pessoas, particularmente porque são histórias vividas com um gostinho( ao se observar de longe) de aventura. Vá em frente porque tenho certeza que muitos lhe acompanharão. Que tal aqule fato relacionado a explosão de bombas (eu acho que foi) próximo ao hotel onde você estava. Ou por outra, falar um pouco mais da Amzônia que você conheceu. Um abraço.
ExcluirÉ Mourão tem um bocado de coisa a escrever.
ResponderExcluirEstou...não tenho palavras para dizer o que realmente sinto! Mas posso dizer que como as coisas simples tem um valor extraordinário! E o q é um pão Tio Pedro? apenas um pão...e como esse pão fez uma diferença enorme!!!
ResponderExcluirAprendi que as coisas mais importantes são as mais simples. Quanta falta nos fazem quando delas somos privadas.
ExcluirSeus relatos, meu irmão, são sempre impressionantes. Principalmente porque se baseiam em fatos reais. Podem parecer até ficção para alguém
ResponderExcluir, como eu, que sempre viveu resguardada de de situações de perigo e de limite como essa.
Gostei do seu comentário!
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