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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Bomba

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Missa de Páscoa na Sé  Catedral do Huambo, 1988, Angola, igreja cheia, participação plena do povo nos cantos no acompanhamento rítmico e no bater de palmas. Quem nunca viu uma missa em África não sabe como é grande a diferença entre uma celebração litúrgica no Brasil, na Europa e nas terras africanas. Nunca esqueci a alegria das celebrações angolanas. O povo e sua cultura fazem toda a distinção!
A igreja ressoava sob os belos cantos na suave língua umbundo. Não havia lugar para mais ninguém e olhe que os angolanos reclamavam se uma missa fosse rápida e durasse  menos de noventa minutos. De repente como uma corrente elétrica que percorresse a assembléia, um zumzumzum de pessoa a pessoa, uma informação boca-a-boca  parte da porta principal e toma conta de todo o templo. Ouve-se repetidamente a palavra "bomba".

Apesar do apelo à calma por parte dos celebrantes, as pessoas levantam-se e procuram sair por uma porta lateral, evitando a grande porta do início da nave central, onde aparentemente surgira o boato. Também me levanto e procuro a saída aonde todos se dirigiam, com muita dificuldade já que bancos haviam sido virados na busca desesperada das pessoas em fugir a uma possível e iminente explosão.
As pessoas estavam sendo prensadas contra a porta lateral  e eu temi ficar preso ali. Procurei desviar-me do fluxo principal e dirigi-me à parede que ficava ao lado da porta, buscando refúgio perto de um grande confessionário de madeira. Parei naquele recanto onde me achei seguro e resolvi esperar que as pessoas saíssem do templo, antes de arriscar-me a sair.

Quando amenizou um pouco o fluxo de gente dirigi-me para a porta e  saí. Voltei-me então e vi vários homens, que alguém me disse pertencerem à Segurança do Estado. Estavam isolando uma área perto da porta de saída, do lado de fora, justamente atrás do confessionário onde eu ficara abrigado. Trabalhavam muito atentos para desativar o explosivo descoberto.


Vim a saber posteriormente que a bomba estava justamente naquele local, dentro de uma aparentemente  esquecida e inocente sacola, que se tivesse explodido teria apanhado muita gente e a mim certamente pois estava a menos de um metro da mochila armadilhada.


Voltei para casa agradecendo a Deus e refletindo sobre o perigo que residia em trabalhar e morar naquela cidade, que entretanto já representava tanto para mim.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Pedro Maiunga, que foi meu aluno e hoje é engenheiro da Chevron nas plataformas marítimas de Angola, escreveu-me dizendo que esteve também naquela missa de Páscoa, em 1988, na Sé Catedral do Huambo. Disse que gostou de ler aquela matéria.

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  2. Parabéns! Descubro um talentoso escritor! Salvo para nos brindar com essa e muitas outras horripilantes e deliciosas estórias! Sucesso!!Tua amiga gaúcha, Valéria

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  3. Menos, Valéria, menos! Mas está sendo gostoso escrever essas estórias e procurar lembrar os detalhes.

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