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segunda-feira, 29 de junho de 2020

A Pandemia


Durante este período da pandemia da Covid 19 recolhi-me com meus dois irmãos mais novos à Quinta do Pomar, na casa que herdei da minha mãe, procurando evitar o risco de uma contaminação diminuímos ao máximo os contatos físicos com pessoas de fora, tendo  que assumir dentro das nossas limitações as tarefas da cozinha, faxina da casa, lavagem das roupas, cuidados com o jardim e sem esquecer o trato da nossa cadela de guarda, a Lady.
Procurei manter-me informado das notícias que rolam na mídia mundial e de modo particular na brasileira. Porém, logo constatei que assistir assiduamente pela televisão e internet os noticiários estava a me fazer muito mal. Ia dormir deprimido com as matérias publicadas, tendo insônia, o que não me era habitual.
Até que, o impacto das imagens do sepultamento em massa de mortos pela epidemia, dentro de valas em Manaus; a luta desesperada das famílias por respiradores e um lugar nas Unidades de Terapia Intensiva para seus entes queridos; a visão de uma enfermeira ao ajoelhar-se diante do hospital onde trabalhava e implorar perante o país inteiro por uma vaga para o seu pai gravemente acometido; enfim relatos de heroísmo, vilania e descaso administrativo na direção de muitos hospitais. Tudo isso fez-me entender que o acompanhamento diário e constante do noticiário não era algo saudável e bom.
O pior de tudo foi, além do problema da pandemia em si, acompanhar as vergonhosas querelas políticas entre as autoridades máximas do nosso país, a começar por senadores, deputados federais, governadores estaduais, Presidente da República e até juízes máximos da nação brasileira! Aquilo me chocou! Pois, enquanto câmaras frigoríficas portáteis eram colocadas ao lado dos hospitais para receber o acúmulo de cadáveres envolvidos em sacos de plástico e que nem as agências funerárias podiam dar conta de sepultar decentemente, as altas autoridades se digladiavam por interesses mesquinhos, muito menores do que aqueles pelos quais sonhava a infeliz nação brasileira!
Resolvi diminuir o acompanhamento constante às notícias da mídia e intensifiquei o meu trabalho doméstico e os contatos com os ex-alunos que se tornaram amigos principalmente em Portugal e Angola. Que alegria tive em falar novamente através da rede social com muitos deles, até bispos jovens que são hoje uma esperança para a Igreja Católica em África e muitos padres espalhados pelo mundo, na França, na própria Angola e até no Brasil. Hoje, entre os meus antigos alunos,além de homens da Igreja, há também dedicados professores, homens do Direito, promotores, engenheiros na exploração do petróleo, etc. Não quero esquecer um corajoso ambientalista que dá a sua contribuição na restauração da vida nos rios e ribeiras de Portugal. 
Assim, um mundo muito mais decente entrou na minha casa sem ser pela janela televisiva. Chegaram-me notícias das gerações mais novas da minha família, como uma que veio do distante extremo Norte do Brasil onde um médico recém-formado, indígena, da tribo dos kaxinauá, filho adotivo do meu tio Carlos,dedica-se a visitar e atender até as ultimas malocas dos silvícolas nas fronteiras da Venezuela e Guiana, no sopé do Monte Roraima e na região da Raposa Serra do Sol! Sobrinhos queridos que vivem em New Orleans mandam notícias da sua luta árdua naquela bela cidade norte-americana e que já tanto amam! Outro sobrinho é policial no Acre, na linha de frente contra o crime e merece a nossa admiração, pois como dizia o meu pai, um respeitável juiz: "respeitem o trabalho da polícia pois se eu posso dormir tranquilo na minha casa é porque os policiais velam nas ruas desertas pela nossa segurança"! Lembro dos jovens timorenses que vieram para o Ceará, em busca de cursar uma universidade e de aprender português, regressaram ao seu distante país e hoje me mandam notícias que nos enchem de orgulho! Quero destacar o jovem Loesina Gomes que está engajado na luta contra a Covid-19 nas colinas de Maliana, no oeste do Timor Lorosae!
Não quero esquecer o Henrique, um jovem primo que se tornou um garboso oficial bombeiro e com idealismo se propõe a salvar vidas lá no Mato Grosso do Sul. São tantos e tantas as pessoas que temo cometer injustiças na impossibilidade de citar todas.
Não quero deixar de fora o meu sobrinho Leonardo Kronenberger, brilhante trabalhador da construção civil nestes tempos difíceis de pandemia, em Brasília! Também os inteligentes e bonitos bebês da nossa família e que agora nos pedem passagem: a começar pelo Samuel - meu sobrinho norte-americano que a todos encanta e tem o codinome brasileiríssimo de "Samuca"; o Akira - valente samurai nipo-brasileiro; finalmente na “rapa do tacho” vem os "xodós" da minha irmã Izabel - Tião e Túlio.
Como muita gente, nestes tempos de incerteza e temor, intensifiquei a reflexão e a oração, afinal Deus é pai e cobre a todos com o seu amor, desde Macedo de Cavaleiros até Cabinda e Luanda, de New Orleans e Gloucester  a Florianópolis, Independência ou Tarauacá. Modestamente eu coloco perante eles a minha amizade.
Finalmente, voltando a minha casa, dediquei-me à culinária e o que a princípio foi operado por necessidade passou a ser feito por gosto com sabor de desafio.O primeiro passo foi aprender os pratos básicos da cozinha brasileira como o arroz e o feijão, a tapioca, a crepioca e o cuscuz. E a internet foi de imensa ajuda pois até conhecimentos simples que qualquer cozinheira sabe para mim eram absolutamente desconhecidos. Por exemplo: como tirar a pele de um tomate? Como Evitar que um bolo pregue no fundo da fôrma na hora de retirá-lo? Como limpar corretamente o camarão, cabeça, cauda e até o intestino? Como fazer um ovo poché? E por aí afora vai... Depois passei a aventurar-me pouco a pouco ao preparar polenta com frango e pratos da culinária afro-brasileira como o vatapá e o bobó de camarão. Porém, nesse campo, surgem sempre novos desafios e talvez chegue até qualquer dia a preparar ovos beneditinos. Hoje aprontei um bolo de laranjas para comemorar o aniversário do meu irmão mais novo. Tudo correu medianamente bem e o mais importante é que o Bira ficou satisfeito! 
                A imagem pode conter: comida
                                                                                                                             vatapá - prato da Bahia, de origem nigeriana

 

4 comentários:

  1. Socorro Freire Dourado29 de junho de 2020 às 17:24

    Amei que texto lindo , palavras vindas do coração,li do começo ao fim, genial �� tomara que saia mais alguns��������

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  2. Obrigado Socorro. Fico feliz por você ter gostado! Já fazia cinco anos que eu nada escrevia mas agora deu-me vontade de escrever algo e descobri que o blog não estava morto e que pessoas continuavam a visitá-lo apesar dele não ter sido mais alimentado.

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  3. Meu tio amado, sua evolução é admirável. Vamos trocar receitas? Quero participar desses seus momentos gourmets.

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    1. Vamos sim querida pode mandar umas receitas sem complicações porque estou em processo de aprendizagem!

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