Igreja de Nossa Senhora do Ó - Icó, Ceará, Brasil.
Nos anos cinquenta do século passado, durante uma severa seca que atingiu o Ceará, vivia meus dias de infância despreocupadamente na fazenda dos meus avós no alto sertão. Nessa época a sede da comarca estava cheia de pessoas famintas, “os retirantes”, famílias inteiras que procuravam desesperadamente algum trabalho, alimento, ou pelo menos o dinheiro suficiente para uma passagem do trem que partia de Crateús e chegaria às terras molhadas e longínquas do Maranhão.
Durante
esse período eu e meus irmãos conhecemos a Chaguinha, nome pelo
qual era conhecida a Maria das Chagas, menina morena e raquítica e
que iria se tornar a nossa irmã de criação. Ela entrou na nossa
vida quando a minha mãe soube que uma criança estava sendo
oferecida à venda na feira pelos seus próprios pais em troca de uma
cabra e um saco de farinha de mandioca. Contristada, Dona Lola foi
conversar com o casal e eles disseram que tinham muitos filhos
passando fome e a menina estava doente do pulmão, sem remédio e
alimentação adequada não iria resistir até que conseguissem sair
da nossa região. Pediram a ajuda dos meus pais e eles concordaram em
ficar com a criança até o retorno daquela família
quando voltasse a chover no sertão. Minha mãe ajudou com o dinheiro da
passagem e aquelas pessoas perderam-se no mundo, sem que deles
tivéssemos mais notícia por muitos anos.
No ano
seguinte meu pai foi transferido para uma cidade
no centro-sul do estado, bem longe do nosso municipio. Fôramos morar
em Icó, uma antiga cidade colonial de ruas estreitas, cheia de
velhas construções, sobradões dos antigos barões do tempo da
monarquia e igrejas centenárias do estilo barroco luso-brasileiro.
Nossa casa era um casarão de dois andares na Rua Grande, próxima à
igreja de Nossa Senhora do Ó, e Chaguinha era a nossa companheira
inseparável de travessuras. Amávamos ouvir as histórias saídas
daquela imaginação fértil!
No Icó,
a energia elétrica só perdurava por duas horas após a caída da
noite. Depois a cidade ficava totalmente às escuras e as pessoas
recolhiam-se cedo às suas casas. Pois bem, numa dessas noites em que
nossos pais haviam saído para uma visita ou outro qualquer
compromisso social nós ficamos enfastiados em casa sem ter o que
fazer. Naquele tempo não havia televisão ou mesmo rádio para
ajudar a passar o tempo. Então Chaguinha teve a ideia original de
sairmos para brincar na rua escura.
Ela
colocou às costas uma grande pele de onça pintada que servia de
tapete no gabinete de trabalho do meu pai, fôra um presente do tio
Falcão – militar em Mato Grosso -. Animada a menina mais velha
disse para nós:
- Sou uma onça feroz e vou matar vocês, tratem de correr para salvar a vida!
- Sou uma onça feroz e vou matar vocês, tratem de correr para salvar a vida!
Que aventura! Saímos
todos à rua perseguidos por ela em desabalada corrida pela
escuridão, em direção à Rua Larga, e rodeamos a igreja da
padroeira. Ocorreu então algo muito estranho e assustador! Parecia
que o mundo inteiro vinha abaixo! Todos os cães das redondezas
começaram a ladrar, uivar e a correr na rua escura. O alarido era
impressionante! O nosso medo aumentou e aí corríamos mais depressa sem
entender o que se passava com os animais. As poucas casas em que se entrevia a luz
das lamparinas nas janelas foram rapidamente fechadas pelos moradores
alarmados pelo barulho. Aquilo tornou o ambiente ainda mais sombrio,
pensamos então que algo poderia estar nos perseguindo. Passamos pela velha
cadeia da cidade e seguimos até o Teatro da Ribeira dos Icós e tratamos
de regressar o mais depressa que podíamos. Chegamos exaustos em
casa. Subimos para o andar de cima e logo Chaguinha nos fez prometer
que não contaríamos nada aos nossos pais.
No outro
dia soubemos da repercussão na cidade sobre alguma coisa
que correra na escuridão da noite e provocara tanto pânico entre os
cães, os quais procuraram refúgio no interior das casas, ganindo, a urinarem e a liberarem
os esfíncteres, sujando tapetes e salas de visitas das velhas casas
senhoriais.
Nós,
mudos e temerosos de uma possível represália dos nossos pais,
ouvíamos as especulações sobre um lobisomem, louco ou animal
selvagem que perseguira crianças e cães. Somente nós sabíamos a
verdade! Que o cheiro da pele da onça, predadora e inimiga ancestral
dos cães, fora o causador de toda aquela confusão. Mas era hora de
manter o bico calado. Nunca esquecemos aquela aventura e, hoje, o
episódio é motivo de risadas quando nos encontramos para falar da
infância!
A história é bem gostosa, pois bem serve de exemplo do que a criançada é capaz em termos de peraltice. Fico aqui imaginando o susto de vocês e satisfação sentida quando tudo acabou dando certo.
ResponderExcluirFeliz 2015.
Pois é Mourão as crianças naquele tempo tinham muito mais liberdade para atuar!
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