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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Brincadeira de Criança

        

                             Igreja de Nossa Senhora do Ó - Icó, Ceará, Brasil.

Nos anos cinquenta do século passado, durante uma severa seca que atingiu o Ceará, vivia meus dias de infância despreocupadamente na fazenda dos meus avós no alto sertão. Nessa época a sede da comarca estava cheia de pessoas famintas, “os retirantes”, famílias inteiras que procuravam desesperadamente algum trabalho, alimento, ou pelo menos o dinheiro suficiente para uma passagem do trem que partia de Crateús e chegaria às terras molhadas e longínquas do Maranhão.

Durante esse período eu e meus irmãos conhecemos a Chaguinha, nome pelo qual era conhecida a Maria das Chagas, menina morena e raquítica e que iria se tornar a nossa irmã de criação. Ela entrou na nossa vida quando a minha mãe soube que uma criança estava sendo oferecida à venda na feira pelos seus próprios pais em troca de uma cabra e um saco de farinha de mandioca. Contristada, Dona Lola foi conversar com o casal e eles disseram que tinham muitos filhos passando fome e a menina estava doente do pulmão, sem remédio e alimentação adequada não iria resistir até que conseguissem sair da nossa região. Pediram a ajuda dos meus pais e eles concordaram em ficar com a criança até o retorno daquela família  quando voltasse a chover no sertão. Minha mãe ajudou com o dinheiro da passagem e aquelas pessoas perderam-se no mundo, sem que deles tivéssemos mais notícia por muitos anos.
No ano seguinte meu pai foi transferido para uma cidade no centro-sul do estado, bem longe do nosso municipio. Fôramos morar em Icó, uma antiga cidade colonial de ruas estreitas, cheia de velhas construções, sobradões dos antigos barões do tempo da monarquia e igrejas centenárias do estilo barroco luso-brasileiro. Nossa casa era um casarão de dois andares na Rua Grande, próxima à igreja de Nossa Senhora do Ó, e Chaguinha era a nossa companheira inseparável de travessuras. Amávamos ouvir as histórias saídas daquela imaginação fértil!
No Icó, a energia elétrica só perdurava por duas horas após a caída da noite. Depois a cidade ficava totalmente às escuras e as pessoas recolhiam-se cedo às suas casas. Pois bem, numa dessas noites em que nossos pais haviam saído para uma visita ou outro qualquer compromisso social nós ficamos enfastiados em casa sem ter o que fazer. Naquele tempo não havia televisão ou mesmo rádio para ajudar a passar o tempo. Então Chaguinha teve a ideia original de sairmos para brincar na rua escura.
Ela colocou às costas uma grande pele de onça pintada que servia de tapete no gabinete de trabalho do meu pai, fôra um presente do tio Falcão – militar em Mato Grosso -. Animada a menina mais velha disse para nós:
- Sou uma onça feroz e vou matar vocês, tratem de correr para salvar a vida!

Que aventura! Saímos todos à rua perseguidos por ela em desabalada corrida pela escuridão, em direção à Rua Larga, e rodeamos a igreja da padroeira. Ocorreu então algo muito estranho e assustador! Parecia que o mundo inteiro vinha abaixo! Todos os cães das redondezas começaram a ladrar, uivar e a correr na rua escura. O alarido era impressionante! O nosso medo aumentou e aí corríamos mais depressa sem entender o que se passava com os animais. As poucas casas em que se entrevia a luz das lamparinas nas janelas foram rapidamente fechadas pelos moradores alarmados pelo barulho. Aquilo tornou o ambiente ainda mais sombrio, pensamos então que algo poderia estar nos perseguindo. Passamos pela velha cadeia da cidade e seguimos até o Teatro da Ribeira dos Icós  e tratamos de regressar o mais depressa que podíamos. Chegamos exaustos em casa. Subimos para o andar de cima e logo Chaguinha nos fez prometer que não contaríamos nada aos nossos pais.

No outro dia soubemos da repercussão na cidade sobre alguma coisa que correra na escuridão da noite e provocara tanto pânico entre os cães, os quais procuraram refúgio no interior das casas, ganindo, a urinarem e a liberarem os esfíncteres, sujando tapetes e salas de visitas das velhas casas senhoriais.
Nós, mudos e temerosos de uma possível represália dos nossos pais, ouvíamos as especulações sobre um lobisomem, louco ou animal selvagem que perseguira crianças e cães. Somente nós sabíamos a verdade! Que o cheiro da pele da onça, predadora e inimiga ancestral dos cães, fora o causador de toda aquela confusão. Mas era hora de manter o bico calado. Nunca esquecemos aquela aventura e, hoje, o episódio é motivo de risadas quando nos encontramos para falar da infância!


2 comentários:

  1. A história é bem gostosa, pois bem serve de exemplo do que a criançada é capaz em termos de peraltice. Fico aqui imaginando o susto de vocês e satisfação sentida quando tudo acabou dando certo.
    Feliz 2015.

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  2. Pois é Mourão as crianças naquele tempo tinham muito mais liberdade para atuar!

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