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quarta-feira, 5 de março de 2014

A Horta

Em certos momentos da vida sentimos uma desagradável sensação de vácuo, uma ausência inexplicada de interesse pela vida e mesmo de prazer no que antes considerávamos lazer. Os planos de viagem que eu havia feito tornaram-se pesados e algo a ser cumprido apenas para poder fugir da rotina. Fortaleza, também, com o seu trânsito caótico, tornou-se para mim uma cidade em que eu vou apenas para cumprir obrigações, tais como compras, conversar com o gerente do banco ou com o meu advogado. Os restaurantes que me atraíam tanto tornaram-se lugares a ser cuidadosamente evitados. Afinal quem luta contra o peso, o colesterol ou outros índices similares, não pode ser um frequentador assíduo dos prazeres de mesa.


Foi em um momento como esse que encontrei um novo "hobby" - cultivar uma horta -, que proporcionou-me a aquisição de conhecimentos surpreendentes! Há muito tempo eu manifestava a vontade de plantar hortaliças aqui na Quinta do Pomar, afinal temos um bom terreno e fartura d'água. Porém, sempre que eu externava para o nosso caseiro a minha intenção de ter uma horta ele fazia "ouvidos de mercador". Cheguei a escutá-lo a resmungar, duvidando da minha capacidade de plantar, "quero até ver essa verdura colhida pelo patrão!" Confesso que fiquei mordido. E eu não queria simplesmente baixar uma ordem, afinal de contas entendia que cultivar uma horta era algo a ser assumido por quem tivesse boa vontade, de outro modo todo o esforço seria vão.


Finalmente decidi, eu mesmo iria assumir essa tarefa. Aproveitei o terreno de um velho galinheiro desativado, situado nos fundos do nosso sítio, comprei estrume de gado e fiz inicialmente quatro canteiros com tijolos. Chamei um amigo agrônomo para colocar pontos de irrigação e lancei-me ao desafio. No começo plantei cebolinha, coentro, rúcula e salsa. Depois acrescentei jiló, quiabo, manjericão, rabanete, tomate, berinjela, alecrim, alface, almeirão, pimenta de diversos tipos, hortelã e menta.


Optei por uma horta variada, afinal não havia uma finalidade comercial em que se cultiva apenas o que é mais vendável. Eu buscava sim trazer verdura e legumes saudáveis para a minha casa e para o apartamento da minha mãe, para onde hoje levo bacias cheias de hortaliças! Os quatro canteiros logo ficaram cheios, o espaço tornou-se pequeno e eu queria também cultivar ervas medicinais e poder ter uma farmácia natural. Assim invadi a área contígua e comecei a cultivar além do que inicialmente planejara. Plantei o endro, erva com propriedade depurativa, anti-diarréica, expectorante e anti-inflamatória. É também bom tempero, muito utilizado nas cozinhas sueca, russa e polaca, em saladas e para aromatizar salmão e batatas, além de uma famosa sopa búlgara. Ao lado plantei malvarisco, tradicional remédio para tosse e bronquite. Do outro lado já cresce uma touceira de capim-santo, capim-limão, ou erva-príncipe como é chamado em Portugal. Bom diurético e apropriado para tratar ansiedade e dor muscular. 


Além dessas acrescentei o guaco, muito recomendado para problemas do sistema respiratório, erva-cidreira, antibiótico natural, boldo para problemas digestivos, alfavaca, courama e mais alguns pois o seu número não para de crescer.

Ao lado da utilidade prática de cada alimento, tempero ou medicamento, cultivar uma horta me levou a descobrir algumas coisas sobre a vida.Uma das primeiras lições aprendidas é a paciência, é preciso esperar o tempo certo da natureza para cada planta e não adianta querer queimar etapas. Outra lição é o desvelo e o cuidado, principalmente com a bandeja de mudas, trata-se de uma cautela semelhante à que têm as mães com suas crianças. Dias atrás esqueci as bandejas ao sol e quando me lembrei e corri lá, já havia perdido parte das mudas e aquilo doeu-me bastante!

Aprendi também que as nossas escolhas não são apenas determinadas pelas nossas predileções. As plantas também determinam as nossas opções. Assim como na vida é preferível explorar as nossas potencialidades em vez de ficar somente lutando contra as nossas deficiências e menos ainda procurando mudar a nossa natureza! Houve legumes que se recusaram a desenvolver-se na minha horta, enquanto outros cresceram com força e foi a esses que eu dei prioridade. Além de tudo resta a disciplina necessária ao sucesso nessa empreitada. Cada ausência na hora de regar as plantas ou omissão em vistoriar as folhas, que podem esconder lagartas e gafanhotos, cobram o seu preço. No segundo caso, a opção seria inundar a horta com inseticida, o que absolutamente não pretendemos! A filosofia do alimento orgânico faz parte do nosso projeto.

Enquanto trabalhava recordei-me de pessoas que não vejo há tanto tempo! Quando tive dúvidas sobre quando transplantar uma pequena muda lembrei-me do Dionísio Sebold, meu colega de noviciado em Santa Catarina e filho de colonos alemães. Eu o ajudava na horta comunitária do Morro da Salette e foi como se o estivesse vendo, muito vermelho, acalorado pelo sol, balançando o dedo e dizendo: "transplante apenas quando as mudas tiverem quatro ou cinco folhas!" Fiquei surpreso, pois há tanto tempo não pensava nele. Em outra ocasião quando vi o endro plantado balançando ao vento revi na memória a minha tia Lila, debruçada sobre um canteiro a regar as hortaliças na margem do açude da fazenda dos meus avós. Era uma boa mulher! Bateu saudade!

Assim, desde dezembro minha principal diversão, sem esquecer um bom livro, é cultivar e ver crescer as hortaliças e plantas medicinais no fundo do nosso sítio. Ali medito, penso e às vezes oro! Quando saio de lá no final da tarde bem fatigado, após o banho seguido do jantar e do jornal televisivo, durmo um sono reparador, que dizem ser o dos justos!

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