Em certos
momentos da vida sentimos uma desagradável sensação de vácuo, uma
ausência inexplicada de interesse pela vida e mesmo de prazer no que antes considerávamos
lazer. Os planos de viagem que eu havia feito tornaram-se pesados e algo
a ser cumprido apenas para poder fugir da rotina. Fortaleza,
também, com o seu trânsito caótico, tornou-se para mim uma cidade
em que eu vou apenas para cumprir obrigações, tais como compras, conversar
com o gerente do banco ou com o meu advogado. Os restaurantes que me atraíam tanto
tornaram-se lugares a ser cuidadosamente evitados. Afinal quem luta
contra o peso, o colesterol ou outros índices similares, não pode ser
um frequentador assíduo dos prazeres de mesa.
Foi em um momento como esse que encontrei um novo "hobby" - cultivar uma horta -, que proporcionou-me a aquisição de conhecimentos surpreendentes! Há muito tempo eu manifestava a vontade de plantar
hortaliças aqui na Quinta do Pomar, afinal temos um bom terreno e fartura d'água.
Porém, sempre que eu externava para o nosso caseiro a minha intenção de ter uma horta ele
fazia "ouvidos de mercador". Cheguei a escutá-lo a
resmungar, duvidando da minha capacidade de plantar, "quero até ver essa verdura colhida pelo patrão!" Confesso que fiquei mordido.
E eu não queria simplesmente baixar uma ordem, afinal de contas
entendia que cultivar uma horta era algo a ser assumido por quem
tivesse boa vontade, de outro modo todo o esforço seria vão.
Finalmente decidi, eu mesmo iria assumir essa tarefa. Aproveitei o terreno de um
velho galinheiro desativado, situado nos fundos do nosso sítio,
comprei estrume de gado e fiz inicialmente quatro canteiros com
tijolos. Chamei um amigo agrônomo para colocar pontos de irrigação
e lancei-me ao desafio. No começo plantei cebolinha, coentro,
rúcula e salsa. Depois acrescentei jiló, quiabo, manjericão,
rabanete, tomate, berinjela, alecrim, alface, almeirão, pimenta de
diversos tipos, hortelã e menta.
Optei por
uma horta variada, afinal não havia uma finalidade comercial em que se cultiva apenas o que é mais vendável. Eu buscava sim
trazer verdura e legumes saudáveis para a minha casa e para o
apartamento da minha mãe, para onde hoje levo bacias cheias de
hortaliças! Os quatro
canteiros logo ficaram cheios, o espaço tornou-se pequeno e eu queria também cultivar ervas
medicinais e poder ter uma farmácia natural. Assim invadi a área contígua e comecei a
cultivar além do que inicialmente planejara. Plantei o
endro, erva com propriedade depurativa, anti-diarréica, expectorante
e anti-inflamatória. É também bom tempero, muito utilizado nas
cozinhas sueca, russa e polaca, em saladas e para aromatizar salmão e
batatas, além de uma famosa sopa búlgara. Ao lado plantei
malvarisco, tradicional remédio para tosse e bronquite. Do outro
lado já cresce uma touceira de capim-santo, capim-limão, ou
erva-príncipe como é chamado em Portugal. Bom diurético e apropriado para tratar ansiedade e dor muscular.
Além
dessas acrescentei o guaco, muito recomendado para problemas do sistema
respiratório, erva-cidreira, antibiótico natural, boldo para
problemas digestivos, alfavaca, courama e mais alguns pois o seu
número não para de crescer.
Ao lado
da utilidade prática de cada alimento, tempero ou medicamento,
cultivar uma horta me levou a descobrir algumas coisas sobre a
vida.Uma das primeiras lições aprendidas é a paciência, é preciso
esperar o tempo certo da natureza para cada planta e não adianta
querer queimar etapas. Outra lição é o desvelo e o cuidado,
principalmente com a bandeja de mudas, trata-se de uma cautela
semelhante à que têm as mães com suas crianças. Dias atrás
esqueci as bandejas ao sol e quando me lembrei e corri lá, já havia
perdido parte das mudas e aquilo doeu-me bastante!
Aprendi
também que as nossas escolhas não são apenas determinadas pelas
nossas predileções. As plantas também determinam as nossas opções.
Assim como na vida é preferível explorar as nossas potencialidades em vez de ficar somente lutando contra as nossas deficiências e menos ainda procurando mudar a nossa natureza! Houve
legumes que se recusaram a desenvolver-se na minha horta, enquanto
outros cresceram com força e foi a esses que eu dei prioridade. Além de tudo resta a disciplina necessária ao sucesso nessa empreitada. Cada ausência na hora de regar as plantas ou omissão em vistoriar as folhas, que podem esconder lagartas e gafanhotos, cobram o seu preço. No segundo caso, a opção seria inundar a horta com inseticida, o que absolutamente não pretendemos! A filosofia do alimento orgânico faz parte do nosso projeto.
Enquanto
trabalhava recordei-me de pessoas que não vejo há tanto tempo!
Quando tive dúvidas sobre quando transplantar uma pequena muda
lembrei-me do Dionísio Sebold, meu colega de noviciado em Santa
Catarina e filho de colonos alemães. Eu o ajudava na horta
comunitária do Morro da Salette e foi como se o estivesse vendo,
muito vermelho, acalorado pelo sol, balançando o dedo e dizendo: "transplante
apenas quando as mudas tiverem quatro ou cinco folhas!" Fiquei
surpreso, pois há tanto tempo não pensava nele. Em outra ocasião
quando vi o endro plantado balançando ao vento revi na memória a
minha tia Lila, debruçada sobre um canteiro a regar as hortaliças na margem do açude da
fazenda dos meus avós. Era uma boa mulher! Bateu saudade!
Assim,
desde dezembro minha principal diversão, sem esquecer um bom livro, é cultivar e ver crescer as
hortaliças e plantas medicinais no fundo do nosso sítio. Ali
medito, penso e às vezes oro! Quando saio de lá no final da tarde bem fatigado,
após o banho seguido do jantar e do jornal televisivo, durmo um sono
reparador, que dizem ser o dos justos!
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