Pela quinta ou sexta vez cheguei a Lisboa e senti a mesma e conhecida mistura de emoções desencontradas; por um lado senti-me de certa forma em casa, olhando os velhos casarões azulejados que lembram São Luís do Maranhão, Rio de Janeiro, Salvador e tantas outras cidades brasileiras; por outro ângulo sente-se a falta de um tempero africano mais acentuado! Falta em Lisboa o mistério e a magia que permeiam as ruas da capital bahiana, talvez pela ausência dos orixás e de uma postura mais sisuda no modo de encarar a vida na capital portuguesa. Mas as igrejas e a arquitetura, lembram Floripa (Florianópolis) e tantos bairros das nossas cidades. Enfim, tudo fruto de uma herança cultural comum, as pessoas poderiam ser nossas vizinhas e as velhinhas nossas tias, em qualquer lugar do Brasil, afinal não estamos em Bruxelas ou no Oriente Médio, onde as diferenças são mais acentuadas.
Também a luminosidade
de Lisboa é especial, não tem a claridade intensa e a nitidez de
Tel-Aviv e de outras capitais mediterrânicas, como também foge da
névoa e do frio das cidades do norte europeu. Lisboa tem uma luminosidade
suave e dourada, tem um meio termo entre aqueles extremos, que calha
bem ao espírito lusitano de moderação. Experimente sentar-se num
belo dia ensolarado de outono em um jardim como o da Estrela e deixe o tempo correr despreocupado, fique
olhando os velhos casais a passear, o voo dos pombos e a bela basílica
logo ao lado e pense talvez na rainha Dona Maria que ali está sepultada e
que foi morrer no Rio de Janeiro. Ouça o murmurar das águas nas fontes de pedra e observe o nadar das aves aquáticas no laguinho central, enfim deixe o pensamento ir para onde quiser.
Crie coragem e desça
caminhando desde a estátua do Marquês de Pombal até aquela beleza
deslumbrante de construção e de natureza que é o Terreiro do
Paço, vá admirando a arquitetura que também é nossa, o arvoredo –
até palmeiras eles têm – e a estátua do nosso imperador D. Pedro I, que é IV em
Portugal. Entre numa garrafeira do século XIX para comprar algum
vinho especial ou licor de amêndoas amargas, ouso até citar a marca: "Amarguinha". Aprecie o monumento do
Rocio, em memória aos judeus ali massacrados no governo de D. Manuel, "o
venturoso"! Afinal na sua vida nem tudo foi ventura, houve também nódoas a sujarem a biografia real.
Quem tem a felicidade,
como nós tivemos, de hospedar-se numa casa portuguesa e não em um
hotel tem tudo a agradecer. Ficamos na bela residência dos Missionários do
Espírito Santo. Quanto acolhimento o daqueles homens de Deus que
reúnem muita cultura e simplicidade! E aquelas refeições você não
encontra facilmente em restaurantes, tudo é feito com funcionalidade
e sentido de grata hospitalidade. Na portaria você se surpreende e sente-se em casa com a
presença simpática de uma mineira, a Maria do Carmo, e na cozinha
um grupo de angolanas sob a direção da dona Sara, que terminou de
formar um filho numa universidade inglesa e tem outros dois bem
encaminhados em Portugal.
Apesar do pouco tempo
que tivemos em Lisboa, aproveitamos para visitar a morada da famosa
fadista, Amália Rodrigues. A casa está conservada tal qual existia no
tempo em que a diva do fado vivia, com os mesmos móveis, joias, condecorações,
fotos e vestidos de festa! Fomos também comer umas sardinhas assadas
com pão e vinho em um pequeno restaurante da Avenida das Índias, "O Carvoeiro", e
depois saborear uns pasteizinhos de Belém, na centenária casa que
guarda ciosamente o segredo da receita. Não vou falar da visita ao "Solar dos Presuntos", onde fomos à bacalhoada, afinal só em pronunciar o nome desse restaurante você já engorda!
Na penúltima visita a
Lisboa eu fora escutar um fado clássico em um restaurante nobre do bairro
da Alfama, gostei muito! Porém o taxista que me trouxe para casa
falou-me: "esse fado é para os turistas, eu gosto é do fado vadio" - um tipo de fado que foge da mídia e dos holofotes- tem o seu modo próprio de ser, com fadistas pobres, jovens e despojados!
Então nessa
oportunidade procurei saber onde havia uma apresentação e descobri
que o local era a Tasca do Chico, uma taberna no Bairro Alto, área boêmia de
Lisboa. Lá pelas dez horas, tomamos um táxi e fomos à busca do fado
vadio. Chovia intermitentemente quando descemos do carro e nos
pusemos a procurar pelas ruelas estreitas o local da tasca, aliás o nome já espanta o visitante. A
primeira impressão foi negativa, era um lugar apertado, apinhado de gente, em
uma velha casa de porta e janela. Se estivesse no Brasil acho que voltaríamos dali, mas fora da terra fazemos coisas incomuns e entramos! Como tínhamos tomado a providência
de marcar a reserva, eles nos arranjaram uns banquinhos e uma mesa.
Sentamos e nos serviram vinho, pão e presuntos. ficamos a apreciar o ambiente cheio de fotos cobrindo as
paredes, pessoas que fumavam e conversavam animadamente até a chegada de um
grupo de jovens fadistas que iam se alternando com a viola e a
guitarra portuguesa. À primeira nota do fado, silêncio completo, fazendo jus às palavras do fadista vadio, Jorge Costa, "eu não canto, eu rezo!" Realmente o fado mexe com as emoções e cordas do coração! Ouvimos fados desconhecidos mas surpreendentemente belos, nada de "Lisboa Antiga" ou "Coimbra". Enfim, valeu a pena! Deixamos Lisboa com saudades e vontade
de lá voltar um dia, se a vida não nos for madrasta.
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