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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Em Lisboa

                                                                                                     

Pela quinta ou sexta vez cheguei a Lisboa e senti a mesma e conhecida mistura de emoções desencontradas; por um lado senti-me de certa forma em casa, olhando os velhos casarões azulejados que lembram São Luís do Maranhão, Rio de Janeiro, Salvador e tantas outras cidades brasileiras; por outro ângulo sente-se a falta de um tempero africano mais acentuado! Falta em Lisboa o mistério e a magia que permeiam as ruas da capital bahiana, talvez pela ausência dos orixás e de uma postura mais sisuda no modo de encarar a vida na capital portuguesa. Mas  as igrejas e a arquitetura, lembram Floripa (Florianópolis) e tantos bairros das nossas cidades. Enfim, tudo fruto de uma herança cultural comum, as pessoas poderiam ser nossas vizinhas e as velhinhas nossas tias, em qualquer lugar do Brasil, afinal não estamos em Bruxelas ou no Oriente Médio, onde as diferenças são mais acentuadas.

Também a luminosidade de Lisboa é especial, não tem a claridade intensa e a nitidez de Tel-Aviv e de outras capitais mediterrânicas, como também foge da névoa e do frio das cidades do norte europeu. Lisboa tem uma luminosidade suave e dourada, tem um meio termo entre aqueles extremos, que calha bem ao espírito lusitano de moderação. Experimente sentar-se num belo dia ensolarado de outono em um jardim como o da Estrela e deixe o tempo correr despreocupado, fique olhando os velhos casais a passear, o voo dos pombos e a bela basílica logo ao lado e pense talvez na rainha Dona Maria que ali está sepultada e que foi morrer no Rio de Janeiro. Ouça o murmurar das águas nas fontes de pedra e observe o nadar das aves aquáticas no laguinho central, enfim deixe o pensamento ir para onde quiser.

Crie coragem e desça caminhando desde a estátua do Marquês de Pombal até aquela beleza deslumbrante de construção e de natureza  que é o Terreiro do Paço, vá admirando a arquitetura que também é nossa, o arvoredo – até palmeiras eles têm – e a estátua do nosso imperador D. Pedro I, que é IV em Portugal. Entre numa garrafeira do século XIX para comprar algum vinho especial ou licor de amêndoas amargas, ouso até citar a marca: "Amarguinha". Aprecie o monumento do Rocio, em memória aos judeus ali massacrados no governo de D. Manuel, "o venturoso"! Afinal na sua vida nem tudo foi ventura, houve também nódoas a sujarem a biografia real.

Quem tem a felicidade, como nós tivemos, de hospedar-se numa casa portuguesa e não em um hotel tem tudo a agradecer. Ficamos na bela residência dos Missionários do Espírito Santo. Quanto acolhimento o daqueles homens de Deus que reúnem muita cultura e simplicidade! E aquelas refeições você não encontra facilmente em restaurantes, tudo é feito com funcionalidade e sentido de grata hospitalidade. Na portaria você se surpreende e sente-se em casa com a presença simpática de uma mineira, a Maria do Carmo, e na cozinha um grupo de angolanas sob a direção da dona Sara, que terminou de formar um filho numa universidade inglesa e tem outros dois bem encaminhados em Portugal.

Apesar do pouco tempo que tivemos em Lisboa, aproveitamos para visitar a morada da famosa fadista, Amália Rodrigues. A casa está conservada tal qual existia no tempo em que a diva do fado vivia, com os mesmos móveis, joias, condecorações, fotos e vestidos de festa! Fomos também comer umas sardinhas assadas com pão e vinho em um pequeno restaurante da Avenida das Índias, "O Carvoeiro", e depois saborear uns pasteizinhos de Belém, na centenária casa que guarda ciosamente o segredo da receita. Não vou falar da visita ao "Solar dos Presuntos", onde fomos à bacalhoada, afinal só em pronunciar o nome desse restaurante você já engorda!

Na penúltima visita a Lisboa eu fora escutar um fado clássico em um restaurante nobre do bairro da Alfama, gostei muito! Porém o taxista que me trouxe para casa falou-me: "esse fado é para os turistas, eu gosto é do fado vadio" - um tipo de fado que foge da mídia e dos holofotes- tem o seu modo próprio de ser, com fadistas pobres, jovens e despojados!
Então nessa oportunidade procurei saber onde havia uma apresentação e descobri que o local era a Tasca do Chico, uma taberna no Bairro Alto, área boêmia de Lisboa. Lá pelas dez horas, tomamos um táxi e fomos à busca do fado vadio. Chovia intermitentemente quando descemos do carro e nos pusemos a procurar pelas ruelas estreitas o local da tasca, aliás o nome já espanta o visitante. A primeira impressão foi negativa, era um lugar apertado, apinhado de gente, em uma velha casa de porta e janela. Se estivesse no Brasil acho que voltaríamos dali, mas fora da terra fazemos coisas incomuns e entramos! Como tínhamos tomado a providência de marcar a reserva, eles nos arranjaram uns banquinhos e uma mesa. Sentamos e nos serviram vinho, pão e presuntos. ficamos a apreciar o ambiente cheio de fotos cobrindo as paredes, pessoas que fumavam e conversavam animadamente até a chegada de um grupo de jovens fadistas que iam se alternando com a viola e a guitarra portuguesa. À primeira nota do fado, silêncio completo, fazendo jus às palavras do fadista vadio, Jorge Costa, "eu não canto, eu rezo!" Realmente o fado mexe com as emoções e cordas do coração! Ouvimos fados desconhecidos mas surpreendentemente belos, nada de "Lisboa Antiga" ou "Coimbra". Enfim, valeu a pena! Deixamos Lisboa com saudades e vontade de lá voltar um dia, se a vida não nos for madrasta.

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