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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Segredo de Família

Haviam-se passado sete anos e para Miranda pouca coisa havia mudado! Continuava morando perto daquela vila esquecida do sertão, na antiga casa da Fazenda Velha, que fora outrora a sede de uma grande propriedade e agora era apenas uma sombra do passado. A casa acachapada com telhado de quatro águas tinha a um lado o curral do rebanho de cabras e um pouco à frente o pequeno açude que juntava água apenas até o meio da estação seca. Ali, ela lutava a cada dia juntamente com um empregado fiel, neto de escravos africanos, o seu Cordeiro, para tirar o magro sustento dos dois filhos de seis e sete anos. Mas estava cansada do trabalho rude, da ausência de um marido que a ajudasse a enfrentar um mundo tão masculino, da maledicência dos conterrâneos diante de uma bela e solitária mulher, e acima de tudo da falta absoluta de qualquer perspectiva promissora para o futuro.
Acordava antes das quatro horas da manhã e ia à ordenha dos animais, seguia-se a labuta na plantação de milho e feijão, o conserto das cercas, a procura de lenha, o preparo dos alimentos, a limpeza da casa, as aulas das primeiras letras aos meninos, e a costura das roupas por encomenda dos fregueses.

Após o almoço frugal, composto de arroz, feijão de corda, jerimum (abóbora), carne de cabra cozida  e rapadura, sentava-se no grande banco de angico do alpendre onde pensava na vida e olhando para a paisagem cinzenta e monótona da caatinga rememorava a festa do seu casamento com Enoque Araújo. Quantas esperanças tinham virado pó! Após apenas dois anos de convivência ele fizera as malas e, como tantos, partira para tentar a vida no Amazonas, deixando-a grávida do segundo filho e prometendo voltar rico. Pois ao que se dizia, lá no Norte, o dinheiro brotava tão abundante como se nascesse nas árvores. Porém, se Enoque estava vivo esquecera o caminho de casa.

Depois da partida e das lágrimas da despedida haviam-se passado seis meses de total silêncio, sem lhe chegar qualquer notícia do marido! Foi então que veio aquela carta que lhe mudou a vida, era de um conhecido que viajara junto com ele, relatando uma briga ocorrida durante um jogo de baralho, à noite, em um navio que subia o caudaloso rio Madeira, no Amazonas.

"Devia ser verdade!" Ela sabia que o baralho era o vício secreto do esposo. O marido ameaçado por um grupo de homens atirara-se à água para salvar a vida e não mais fora visto. Tentando saber informações mais precisas Miranda escreveu aos padres católicos de Borba e para todos os conterrâneos que sabia viverem na região do rio Madeira. Pouca gente respondeu e, desses, ninguém tivera qualquer notícia de Enoque. O qual, com o passar do tempo, começou a ser dado como morto e Miranda passou a ser chamada de "a viúva da Fazenda Velha", alvo de olhares esquivos das mulheres e descarados dos homens. Iniciou-se então a sua luta para manter os poucos bens que lhe restaram e poder sustentar os filhos em uma década na qual as chuvas foram muito escassas.

O seu único apoio vinha do irmão, o Major, que começara a trabalhar numa olaria à beira do rio, fazendo telhas e tijolos. Depois começou a negociar com gado trazido de Goiás pelos tangerinos, que à pé viajavam centenas de quilômetros tangendo os bois da raça curraleira ou pé-duro para vender no Ceará. Com os negócios do gado o Major começou a melhorar de vida e a dar um pouco mais de apoio a Miranda, que entretanto evitava abusar da ajuda do irmão, afinal ele já tinha uma numerosa família para sustentar.

A bela "viúva" que herdara o sangue e os traços dos ascendentes holandeses não tinha riqueza, nem queria aceitar um homem qualquer para substituir Enoque, porém possuía visão e um sonho: queria ver os filhos bem educados e sabia que naquele lugarejo não haveria possibilidade para tal. Assim, pouco a pouco, o Rio de Janeiro, a milhares de quilômetros dali,  foi tomando vulto na imaginação e na vida de Miranda.

Finalmente um plano formou-se claro na sua mente: ela venderia a Fazenda Velha e compraria passagem para o Rio. Lá, na capital federal, ela lutaria por um destino melhor para os meninos. Na mesma semana foi encontrar-se com o Major, o seu irmão, confidente e conselheiro. Chegando à casa grande da fazenda foi recebida com alegria e um cafezinho com queijo de coalho. Então olhando nos olhos disse-lhe: "Irmão, eu quero pedir-lhe, em nome de Deus e da amizade que me tem, uma ajuda para eu poder viajar para o Rio de Janeiro e colocar os meus filhos numa boa escola e dar-lhes um futuro. Aqui eles não passarão de lavradores pobres até o dia em que decidam, como o pai, partir para o Acre em busca de um sonho de riqueza!"
O Major tentou ponderar algumas razões, pois lhe custava afastar-se de Miranda. Porém compreendeu os motivos de sua irmã e viu que ela não poderia tirar o sustento e a educação dos filhos daquela nesga de terra árida onde vivia, concordou então com ela e prontificou-se a ajudá-la. Ele mesmo adquiriu a Fazenda Velha, uma terra que ninguém cobiçava, por um preço um tanto acima do mercado e despediu-se para sempre daquela irmã, pela qual tinha tanta afinidade. Ele sabia que as viagens eram caras, demoradas e difíceis, e não era costume naquela época que pessoas comuns fizessem visitas de turismo ou simplesmente para rever parentes.

Ela viajou para o porto de Fortaleza onde embarcou num dos navios que faziam navegação de cabotagem entre o Ceará e o Rio de Janeiro. Não se sabem muito os detalhes da vida de Miranda nesse período, mas logo ao chegar à então capital federal sua primeira providência foi comprar uma pequena e velha casa de porta e janela em uma ladeira de um bairro antigo do Rio; a segunda providência foi oferecer seus trabalhos de costureira nas lojas que vendiam roupa feminina. Mas o que considerou sua primeira grande vitória foi a bolsa escolar que os dois meninos conseguiram por meio de uma prova classificatória no Colégio Militar. Ali, eles teriam bom estudo, disciplina e convívio masculino, evitando terem uma convivência exclusivamente feminina.

Quando os meninos já eram adolescentes, ela conheceu um oficial do Exército, paulista de Bauru, maduro e viúvo, com quem fez amizade e desenvolveu uma pronta afinidade. Ante a manifestação de um interesse afetivo por parte do militar, ela explicou-lhe a impossibilidade de haver uma  correspondência em razão do seu estado civil indefinido, pois na realidade ela julgava ser uma viúva, mas nem disso tinha certeza, pois nem mesmo possuía um atestado de óbito do marido para servir de comprovação e, acima de tudo, não queria envolver-se numa situação dúbia. O coronel prontificou-se a ajudá-la a conseguir por meio da Justiça que Enoque fosse declarado oficialmente morto. Afinal haviam-se passado tantos anos sem nenhuma notícia! Com um bom advogado indicado pelo militar ela conseguiu em relativamente pouco tempo mais aquela vitória e foi declarada viúva. Daí, as coisas seguiram-se naturalmente, a começar pelo seu casamento com o oficial de São Paulo, tendo início uma vida organizada e segura, enquanto os filhos se encaminhavam definitivamente para a vida castrense, sob a orientação moral e apoio financeiro do padrasto.

A família de Miranda jamais retornou do Rio de Janeiro. Entretanto Major, o irmão querido, faleceu e sua viúva, dona Sílvia, transferiu-se para Fortaleza. Foi então que certo dia recebeu ela uma visita surpreendente, um rico comerciante de uma das capitais do Norte do Brasil apresentou-se à sua casa na rua Sena Madureira! Sílvia teve uma das maiores surpresas da sua vida, deparou-se com Enoque, há tanto tempo dado como morto! O homem abraçou-a e disse que antes de seguir para o sertão e falar com Miranda julgou prudente conversar com sua irmã Sílvia. Relatou-lhe que agora era um homem rico e que, após ter escapado da morte no navio e se atirado às águas, julgou que Deus lhe dera uma segunda oportunidade, prometendo a si mesmo só voltar ao Ceará se conseguisse fazer fortuna. Padeceu muito mas aos poucos conseguira por meio de muito trabalho levantar uma das mais respeitadas firmas comerciais de Belém do Pará, o Empório Araújo Macedo, com filiais em Manaus e Rio Branco do Acre.

Estarrecida Sílvia ouvia seu irmão dizer que estava rico, como se apenas o dinheiro pudesse resolver mais de vinte anos de ausência! Adiantou que arranjara outra mulher no Norte e tivera vários filhos, mas não esquecera os dois primeiros e que pretendia procurar Miranda. Sílvia entendeu que precisava pensar e pediu-lhe que voltasse no dia seguinte. Depois de uma noite mal dormida, em que ela refletiu sobre a inconsequência de Enoque, Sílvia o recebeu e manifestou-lhe calma e claramente o seu conselho, como o fizera tantas vezes durante sua infância: "Meu querido irmão! Você demorou demais! Miranda sofreu muito com o seu silêncio, ela tem atualmente uma vida organizada e casou-se novamente, pois você foi dado como oficialmente morto, seus filhos são jovens oficiais do exército, foram bem criados pelo padrasto, e têm o futuro pela frente. Se você apresentar-se repentinamente a eles, vai criar um problema sério àquela família e ao mesmo tempo você tornará infeliz a  sua atual mulher e os filhos que deixou no Norte, crianças que precisam ainda de muito apoio. Os filhos mais velhos já estão encaminhados na vida. E que justificativa aceitável para essa ausência prolongada você teria para apresentar a eles? Já pensou nas recriminações e provável rejeição que deles receberá? Por favor, é mais prudente que volte daqui para a sua família no Amazonas, não revele nada a ninguém, e deixe tudo como está. Conserve Miranda e seus filhos apenas nas lembranças e nas orações que dirija a Deus! Quanto a mim prometo-lhe guardar silêncio."

Enoque teve um sentimento de revolta e veio-lhe a vontade de rebater e derrubar todos aqueles argumentos. Mas viu que, como sempre, a sua irmã tinha razão. Baixou a cabeça e respondeu com a voz embargada, afinal aquela era a hora da renúncia, seus loucos sonhos de abraçar seus filhos mais velhos não poderiam concretizar-se e respondeu: " Dou-te razão Sílvia! Eu não devo, nem posso, tentar refazer os caminhos errados e as decisões equivocadas que tomei no passado, o curso da minha vida já está traçado. Vou regressar ao Norte." Abraçou-a e despediu-se pois sabia que seria, aquela, a última vez em que ambos se encontrariam.
Sílvia guardou esse segredo para si, embora às vezes refletindo se não teria sido cruel com seu irmão ou se não teria cometido um pecado diante da sua fé ou dos preceitos da sua Igreja. Mas manteve-se calada até depois do falecimento da cunhada e o que se passara com Enoque só foi revelado a uma de suas filha. Tendo tido tantas dúvidas sobre o acerto da sua opção, evitando o encontro do irmão com Miranda, finalmente chegou à conclusão de que tomara as medidas certas, pois "a  vida às vezes nos obriga a tomar difíceis decisões nos seus estranhos e difíceis caminhos"! Miranda protagonizou um casamento longo e feliz, mostrando sempre aquela qualidade pessoal para aceitar os novos desafios que a vida lhe mandava, inclusive viria um dia a surpreender muito os parentes do sertão quando mandou-lhes um postal de Zermatt (Suiça) informando que aprendera a esquiar em famosa estação alpina de inverno,  quando já tinha setenta anos!



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