Versão Inglês
Meu sobrinho Breno chegou do Acre e me incentivou a abrir um blog, onde eu poderia partilhar um pouco das experiências que tive na vida e em variados lugares. Assim vou começar pelo Amazonas no tempo em que eu participei da Coordenação Pastoral da Prelazia de Tefé, região do Alto Solimões, e fazia frequentes viagens pelas comunidades ribeirinhas. Viajávamos no barco "Gaivota" subindo e descendo os rios em viagens que duravam em média uma semana.
Meu sobrinho Breno chegou do Acre e me incentivou a abrir um blog, onde eu poderia partilhar um pouco das experiências que tive na vida e em variados lugares. Assim vou começar pelo Amazonas no tempo em que eu participei da Coordenação Pastoral da Prelazia de Tefé, região do Alto Solimões, e fazia frequentes viagens pelas comunidades ribeirinhas. Viajávamos no barco "Gaivota" subindo e descendo os rios em viagens que duravam em média uma semana.
Em geral faziam parte da equipe: dois jovens que integravam
o Projeto Rondon (cuja finalidade era possibilitar uma experiência de trabalho
no "Brasil profundo" aos recém-formados), um médico, um dentista, o
piloto do barco e eu coordenador pastoral.
Chegávamos, em geral, ao cair da tarde e éramos recebidos
pelo povo da comunidade e lugares próximos e organizada uma festa à noite.
Havia brincadeiras, música, comida regional - peixe e caça. Na ocasião
traçávamos o roteiro das atividades do dia seguinte, em que tratávamos dos
problemas da escola e igreja na parte da manhã, atendimento médico pela tarde e
culto festivo à noite.
Assim em uma época de grande cheia no rio Amazonas (chamado
Solimões acima da foz do rio Negro) chegamos a uma comunidade cujo nome já
esqueci, situada a cerca de dez horas de Tefé, desta vez o médico não nos
acompanhou, estávamos apenas o piloto, eu e um jovem dentista da universidade
de Juiz de Fora, Minas Gerais.
Tudo corria normalmente até o meio da tarde quando notei um
certo entra-e-sai na casa comunitária, indício de problemas!. Fui até lá e
conversei com o dentista. Ele estava tenso, disse-me que havia extraído um
dente de um jovem de dezesseis anos e o rapaz estava com uma hemorragia que não
era grande mas constante. Perguntei-lhe se já havia aplicado o medicamento
coagulante. Disse-me que esquecera em Tefé. Realmente aí a preocupação começou
em mim.
O dentista e as pessoas estavam se desdobrando na tentativa
de parar a sangria. Tudo era inútil, tentaram até pó de café, plantas
medicinais e nada! A aparadeira debaixo da rede já estava quase pela
metade de gazes e pedaços de algodão manchados de sangue. Ao anoitecer fui ver
novamente o rapaz, já pálido e com uma vela acesa nas proximidades. O clima era
de óbito!
Procurando reunir forças em uma fé que estava me faltando
pedi que não acendessem ainda a vela porque o jovem não ia morrer. Subi ao
barco e convoquei uma reunião com o dentista e o motorista. Tinha que tomar uma
decisão e tinha que fazer a coisa certa.
O motorista chamou-me de lado e segredou-me para não aterrorizar
o jovem dentista. Disse-me que a família do rapaz estava jurando vingança
contra o doutor e que "haveria dois enterros no outro dia". Então
comecei a pensar rápido pesando as possibilidades. Pensei, o perigo estava
chegando perto de mim! Porque se viessem matar o dentista eu teria que intervir
para tentar salvá-lo e, então, até a minha vida e a do motorista estariam em
cheque. Era preciso evitar chegar a esse ponto.
Perguntei ao motorista se poderíamos levar o rapaz de barco
para Tefé naquela noite. O motorista desaconcelhou a viagem pois a enchente
rugia no Amazonas e muitos troncos imensos desciam a correnteza aos
trombolhões, pondo em risco a navegação.
Consultei o dentista se o rapaz poderia suportar a
viagem até a cidade. Disse-me que duvidava porque a trepidação de um barco
subindo a corrente ia acelerar a hemorragia, portanto manifestou-se contra a
viagem naquelas condições.
Pensei: se ficarmos o rapaz morrerá na certa, o dentista
também, e talvez eu e quem sabe até o motorista. Se o rapaz sucumbir à viagem
poderemos controlar a situação dentro do barco. A sorte do rapaz parecia está
selada e a minha preocupação maior, no momento, era salvar pelo menos o
dentista.
Desci do barco e falei que iria levar o jovem nativo ao
hospital. Muita gente preparou-se para embarcar. Pedi que apenas uma pessoa da
família subisse, alegando que "o barco ficaria mais leve e mais rápido com
menos gente". Então o pai prontificou-se a nos acompanhar.
Rapidamente nos preparamos para partir e enfrentar o rio. Na
noite escura e estrelada o nosso barco era minúsculo com o holofote procurando
a tronqueira das árvores que descia arrastada pelas águas. Fui ver o rapaz, por
volta das onze horas da noite. Ele estava quase tão pálido como o lençol, tão
jovem e tão fraco! O dentista parecia à beira da exaustão e o pai do moço
calado só olhava.
Subi para a parte mais alta do barco e olhando as estrelas
levantei uma prece a Deus. Meu Pai não permita que esse jovem, tão novinho,
morra! Fiquei ali rezando mas sem muito alento e esperança de ser atendido.
Voltei para baixo e peguei o livro: Para onde não há Médico.
Procurei a parte que falava das hemorragias e nada
havia ali que pudéssemos aplicar. Mas citava a "água oxigenada" como
anti-hemorrágico. Perguntei ao dentista se ele já tinha usado o produto.
Disse-me que não. Pois a água oxigenada era para uso externo e não uso
odontológico. Determinei que aplicasse porque - nessa situação temos que tentar qualquer coisa.
O dentista fez aquela cara desanimada de quem já
tentou tudo, mas tirou um chumaço de algodão e aplicou no local do dente
arrancado. Quinze minutos depois disse: - Funcionou irmão, funcionou!
Subi novamente para a varanda externa e superior do barco e
apresentei-me diante de Deus agradecendo e chorando e pedindo perdão pela minha
pouca fé.
O rapazinho dormiu o resto da noite e, às dez horas da
manhã, após a transfusão de sangue ele próprio estava falando na rádio para a
sua comunidade dizendo estar muito bem de saúde. UFA!!
Muito boa experiência. A leitura é envolvente e me vi como um expectador presente nas situações. Parabéns tio. Gostaria de conhecer mais histórias!
ResponderExcluirEssa experiência foi uma das mais fortes em que vivi. Em mim ela está também muito viva.
ExcluirTenho uma imensa satisfação em fazer parte dessa família, Deus abençoe a todos os Freire's direto ou adotaram em seus nomes o Freire um abraço a todos vocês.
ResponderExcluirIsso me fez viajar e me colocar, parecia que eu estava vivendo tal situação.
ResponderExcluirFico satisfeito em saber que a minha experiência de vida te agradou.
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirVou acompanhar seu blog com interesse, meu caro Pedro, pois por certo terei muito a aprender.
ResponderExcluirObrigado amigo Mourão sei que sua visão crítica é sempre uma ajuda nessa aprendizagem que tem que ser mútua para ser realmente válida.
ResponderExcluirPrezado Pedro, li por indicação do Guilherme Freire e achei bem interessante o seu texto. Não sou praticante de nenhuma religião apesar de ter sido criado católico, mas sou espiritualizado e acredito em Deus, única explicação para a maior parte das maravilhas do nosso mundo e consolo para as coisas que parecem ruins.
ResponderExcluirGostei da história. Escreva mais!!!
Abraço,
Neto.
Fui corrigir um erro de ortografia e terminei removendo a resposta ao seu comentário. Em todo caso fico feliz por teres gostado da história. Escrevi outras no blog, a maior parte do tempo em que morei em Angola.
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